quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Subversivos: Rock Love

Ele atravessa a rua como se fosse o único a trafegar ali. Trajando negro básico, jeans surrado e algo como um lenço no bolso da calça. Cabelo curto, piercings, alargadores, uma ou outra tatuagem.
O estilo rebelde completamente clichê em seu visual aparentemente não ficava apenas na sua aparência.

'Pedro é um cara bem nascido'. Esse é o tipo de frase que se usa pra dizer que alguém nasceu com grana. Olhando por esse prisma, então era mesmo.  Porem a família de origem tradicional do Rio de Janeiro, embora nunca tenha lhe deixado faltar o que a maioria deseja materialmente falando, não lhe forneceu o que mais precisou.

Seu pai, um influente jurista, filho de um grande desembargador, vive na ponte aérea entre a capital Brasília e o Rio. Os compromissos nunca lhe permitiram ser mais presente.
Quem sabe por conta disso sua educação tenha ficado a cargo quase que exclusivamente de sua mãe. Ela, outrora modelo de revista masculina, casou-se (mesmo a contra gosto da família do marido) para garantir a estabilidade na vida, afinal beleza até pode durar além da conta, mas juventude não! 
Talvez por isso tenha tornado-se alcoólatra, afogando em um drink as mágoas de um casamento de fachada. O calor que todos precisam, ela busca em algo mais vivo que apenas boa bebida, mas todos apenas amantes de ocasião, nada fixo.

Porém o drama que despedaçou essa família fora a morte do caçula anos atrás. O trauma das palavras laçadas em rosto, os sentimentos ocultos, a culpa profunda pela perda abrupta fez dessa gente meros conhecidos com um DNA em comum.

Quem o via assim de relance poderia mesmo imaginar que seria apenas mais um rebelde, mais um riquinho idiota querendo causar. Mas um olhar mais apurado percebia a dor que mantinha oculta na alma, protegida pela roupa negra com ares de anarquia. Diferente da grande maioria que muda de hábitos por conta das influencias externas, ele havia mudado seu exterior por conta das influências internas, claro – sua família.

Nunca andou em grupinhos, gangues ou coisa assim. Sempre esteve só e era assim que se sentia bem. Tudo que queria saber a respeito de musica, comportamento, política, religião e coisas assim , sempre buscou nos livros. 
Quando não estava com uma literatura nas mãos, estava com um fone nos ouvidos.  Houve até momentos em que usava os dois.   
Costumava dizer que os fones eram arma contra o silêncio sepulcral daquela casa e os grandes pensadores um bálsamo pras suas feridas.

Por amor demais à subversão do pensamento e sua ligação com a música encontrara no rock seu maior aliado desde bem pequenininho. Juntou uma grana e conseguiu fazendo serviços de internet – pois deixara de pegar sua mesada faz tempo – e comprou uma Gibson SG, guitarra com som encorpado, de timbragem nobre, verdadeira dama do feeling, com ela conseguiu aprender em casa mesmo. 

A web muito ajudaria com formações de acordes, afinadores eletrônicos, mas decidiu que não usaria esses recursos, na verdade os repudiava. Os outros autodidatas das seis cordas de anos atrás, pioneiros do rock e do blues não tinham ao seu dispor todos esses recursos. 

Aos poucos a energia da sua revolta aliada ao seu tempo livre fizeram dele verdadeiro guitarman . Os acordes em suas composições extravasavam toda a melancolia de uma vida vivida só, toda a tristeza dos erros ancestrais. Tudo formatado em bases tortas, rústicas porém perfeitas e em solos (que quando apareciam) queriam exorcizar demônios há gerações contidos em seu ser.

Viajando na web Priscila descobre um site que disponibiliza jovens talentos do rock em pequenas doses de mp3. Quando ouve aquelas canções que aliam peso e protestos, de cara se apaixonou. Era menina inteligente que não veio ao mundo pra seguir tendências, antes procura algo que lhe toque a alma. 

Aquela música às vezes pra ela soava como grito duma alma em trevas, noutras vezes como pedido de socorro. Claro que ela entendia muito bem desse assunto de alma,  e o que se seguiu foi apenas o destino amalgamando duas crianças sedentas do mesmo sentimento que em ambas estava escasso...
O amor!!!

Wendel Bernardes.

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