segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A Vida Num Dia...



Quando respondeu ‘sim’ ao convite que lhe fora feito na noite anterior, jamais imaginaria que tudo terminaria assim.

O som intermitente ecoa um tanto abafado no quarto escuro do pequeno apê na Glória. Fora dormir mais cedo por puro tédio. Onde se viu em pleno verão carioca, não ter programa para um sábado à noite? Mas a campaínha do iphone indica que o domingo pode se diferente.

-‘Oi’, disse sonolenta...
- Dormindo? Essa hora? Que barra heim, amiga?
- É... Esse sábado foi fraco...
- Fraco ou rolou algo mais? Vamos, desembucha que te conheço bem, Prí!
- Bom... Desentendi-me com meu pai... O de sempre, né? Nada meu presta. Meu namorado é um vagabundo, minhas roupas são curtas, meus amigos são falsos... Essas coisas que me tiram do sério! Ele implica com tudo, amiga... Menos com você!
- Prí, seu pai é um cara legal, mas ele pertence à outra geração e é o modo dele te dizer que não está curtindo ver a filhinha dele crescer!
Rolou parecido com minha mãe, cara... Mas hoje estamos ‘de boa’.
- Torço pro meu pai entra na vibe da sua mãe, amiga...
(riram delas mesmas por alguns instantes...)

- Olha, eu tô de folga amanhã e como estou morrendo de saudades de minha amiga mais louca...
- Desiste se for programa ‘família’, viu?
- Ih... Relaxa... Só uma praínha no Leme; serve?
- É né? Fazer o quê?
(Riram de novo).
Prí dormiu afoita pra que chegasse logo a manhã de domingo. Seria perfeito ficar o dia fora de casa, principalmente se 'ficar fora' fosse resumido em: esquecer o ‘mala’ do pai.

Seu Beto e Prí sempre se deram bem. Ele ficou viúvo cedo, Prí nem andava ainda! Ele decidiu estar ‘só’ e dedicar seus melhores anos à verdadeira mulher da sua vida (como fazia questão de dizer).
Experimentaram (quase) tudo juntos e isso sempre fora legal, até que ela cresceu. Parece que Beto ficara sem graça apenas com o passar dos anos. Ou será porque ela descobrira uma galera mais descolada com programas mais legais e um ritmo de vida mais condizente com sua personalidade elétrica?
De qualquer forma, parece ter aberto um abismo entre os dois, como se fosse linha ao fio de lâmina na própria carne. A dor era notável, pelo menos pro Beto!

Quando ela acordou, agiu rapidamente e em silêncio para não ser perturbada e apenas passa na cozinha para comer pedacinho de queijo branco com um gole de café preto. Seu café da manhã preferido!
Seu Beto apareceu com os óculos no meio do nariz e jornal dominical na mão...
- Já vai Priscilla? Senta e tome seu café direito, amor...
- Atrasada...
- Vai à praia, filha? Tanto tempo não fazemos isso juntos, né?
- Deve ser porque você se tornou um pai chato, ranzinza, preconceituoso e sem graça!
- Prí... filha... Me perdoe, mas esse sou eu! Devo mudar pra...
- Deve sim, pai! Mude de jeito, mude de cara, mude daqui também se você quiser, viu?

O silêncio gélido e prolongado, mostra exatamente que ela o magoara no ponto certo, como seta direcionado a um único alvo. Mesmo assim Beto prossegue...
- Isso quer dizer que não devo fazer o almoço? Disse com um semi-sorriso de paz.
- Quer dizer que daqui por diante você faz o que quiser da sua vida, desde que você me deixe em paz. Alias, quer um conselho?
- Você dirá de qualquer forma...
- Claro que vou! Pega a sua grana, pare de economizar e vá ser feliz, pai! Só vive em casa lendo jornal, reclamado de política e do tempo. Fazendo comida de avental como a mamãe nunca fez!!!! Vá viver sua vida que eu vou viver a minha!
Dizendo isso, saiu como pequeno furacão e bateu a porta dos fundos do apê tão forte que derrubou quadrinho dependurado com foto de certo trio familiar.
Beto se agacha e enquanto limpas as lágrimas reposiciona a foto de sua família e se pergunta por que o tempo precisa passar.

Na plataforma do metrô Glória, Prí liga pra sua amiga marcando ponto de encontro no calçadão do finalzinho do Leme, pertinho do quartel e do Costão dos Pescadores. Depois desliga o celular pra num dar a sorte de receber mensagens ou ligações daquele velho chato.
Por instantes, chega a se perguntar se está fazendo certo, afinal eles só têm um ao outro... Sua amiga não concorda, acha que ela está sendo grossa demais. ‘Ah, deixa pra lá’, pensa. ‘Hoje é só praia, sol, curtição e quem sabe até arrumo outra vibe pra mais tarde? Tudo de bom!’

Estava entardecendo quando decidiu ligar pra casa e ver como estava seu pai... Sabe como é? Aquele charminho, fingindo que tudo não passara de um sonho e tal?! Quem sabe seu pai relevava. Quem sabe poderiam até fazer alguma coisa juntos, afinal ela estava com a consciência pesada como um elefante indiano!
Cineminha? Que tal?

- Sinistro...
- O que, Prí?
- Minha caixa postal tá vazia, sem mensagem de texto, sem ligações perdidas... E pra ficar mais estranho, o telefone lá de casa só chama.
- Preocupada com tio Beto? Arrependida?
- Sei lá.. Acho que só remorso mesmo!
Relaxa amiga, pai e mãe sempre compreendem mesmo, sabem que é fase. Pelo menos minha mãe pensa assim.
- Num sei, viu? Meu pai é diferente. E ele foi mais que ‘apenas’ um pai pra mim.
- Verdade, tio Beto é gente boa demais... Ele é o cara, né?
As palavras da amiga circulam num vácuo. Prí estava reverberando seus problemas e remoendo as possibilidades até que diz:
- Amiga foi mal, vou encurtar o dia, vou ver meu chatinho!
- Claro Prí, pra mim também já tava na hora de ir, vou me adiantar, pois tem balada mais tarde... Topa?
- Num sei... Acho que meu final de noite será ‘em família’.
- Ok... Beijo no tio Beto, tá? Te ligo segunda.

O ar-condicionado do metrô ressecava sua pele e a areia na sandália a incomodava, mas nada era tão angustiante como o telefone de seu apê tocando sem parar. Nessa hora passa um monte de lances na cabeça. ‘Será que ele se aborreceu e não está me atendendo de pirraça? Será que ele decidiu sair e seguir meu conselho? Por que ele num tem celular, cara?’

As sentenças se misturam ao nervosismo de saltar logo e sair desse gelo de metrô! Atravessou a rua indo em direção ao prediozinho com jeito meio art deco. Ao dobrar a esquina notou estranha movimentação na rua sempre calma. Contou dois carros de polícia, pequena caminhonete dos bombeiros e outros dois veículos públicos. ‘Aquela van amarela é da Defesa Civil? Ih, sinistro’, pensou.

De tão preocupada com a besteira que fizera, mal se deu conta que algo poderia ter acontecido de mais sério. E certamente era com alguém bem próximo...
Será algum vizinho, conhecido, o cara da padaria da esquina?... Sabe-se lá...
Nem se ligou, até que sujeito alto com rosto sério lhe impediu a passagem.
- Interditado, mocinha!
- Por quê?
- Um... Acidente ocorreu aqui. Apenas pessoal autorizado e família.

Parece que o mundo parou. Era como se toda as fichas do universo lhe caíssem ao mesmo tempo. Largou seus apetrechos praianos no chão, se desvencilhou do cara alto e correu como louca! Apenas tinha uma palavra em mente: papai!

- Onde vai? Não está vendo a interdição? Disse-lhe uma policial agarrando-lhe pelo braço.
- Me larga moça, é minha casa! Onde está meu pai?
A mulher vivida e acostumada a ver desgraças todos os dias, tira do bolso de trás do jeans bilhete escrito a mão.
“Filha, sinto muito não ser mais alguém tão importante pra sua vida. Você sempre será minha preferida, mesmo sendo minha única filha.. amo-te! Beto”

Fria e em choque, reposiciona cada ato do dia de hoje e não consegue decidir se o pior foi a maneira com que lhe tratou essas últimas horas, ou como lhe fizera os últimos anos. Até mesmo o bom humor contido no bilhete recheado de amor lhe dói.
Dizem que o tempo é senhor de todas as coisas. Tudo que ela queria agora era dominá-lo, destroná-lo, subjugá-lo, mas nada, absolutamente nada a trará de volta àquela manhã...

Até que o celular toca despertando-a em seu quarto... Desesperada percorre toda a casa sem encontrar ninguém...
Recosta-se na parede da cozinha próximo a porta de saída, enquanto escorrega desconsolada até o chão, notando a mesma foto de sempre. A ausência dele é surreal. Não poderia suportar estar só... Não sem ele!
Ouve um barulho de chaves...
- Chorando? Mas seu time até venceu o jogo de ontem...
Fui apenas à padaria comprar seu queijo branco...

Ela saltou sobre seu velho como se tivesse mais uma vez apenas três ou quatro aninhos e ali, naquela cena tocante, deixaram se perdoar mutuamente enquanto as lágrimas coroavam o momento. Celebravam o perdão, e uma nova chance dada pelo destino! Aquele domingo de sol teria praia sim, e qual não foi a surpresa da amiga ao notar Prí vindo de longe de mãos dadas com seu pai sorrindo e brincando. Era a vida celebrando da melhor forma possível esse recomeço: através do perdão!

Wendel Bernardes




12 comentários:

  1. Às vezes perdoar é contar com a sorte...
    Bjs, Aurélio.

    ResponderExcluir
  2. É a mais pura verdade, Ingrid...
    Mas precisamos notar que o perdão é uma via de mão dupla, ou seja. Ele é importante tanto para quem 'recebe' o perdão, quanto para quem 'libera' esse perdão...
    Creio hoje que quando perdôo, o faço primeiramente por mim, como pessoa e indivíduo e a maneira que a pessoa vai receber esse perdão (o perdoado) pra mim é (quase) indiferente...

    Viver é também reinventar-se, sobreviver... E isso só é possível passando pelo perdão. Em muitos aspectos, perdoar é um exercício que deve ser experimentado em nós mesmos...
    Beijo, menina!

    ResponderExcluir
  3. Apesar de não ter boas experiências relacionadas a perdão, penso parecido.
    Bjs.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Como já disse; é por sua causa, e nem sempre (necessariamente) por causa dos outros... Mas eu sei que tu tá ligada...
      :)

      Excluir
  4. Entendi, sou uma mocinha esperta...kk.

    ResponderExcluir
  5. Cara!
    Talvez você não acredite, mas já tive um insight desse tipo.
    E salvou vidas (não literalmente como o caso da personagem)!
    O perdão é uma dádiva linda e saborosa, com certeza; mas pode viciar. Conheço muitos que erram por ter o perdão garantido. E isso é muito perigoso. Por isso acho que o perdão (quando não é mútuo) não deve ser dado assim a qualquer um. Que me desculpem os cristãos, mas meu perdão eu não distribuo!

    Como sempre, você me impressionando! Não entendo porque ainda não saiu em algum livro, já que por falta de talento não é! Estou ansioso pelas prometidas mudanças aqui no lendas e desejo tudo de bom nesta nova fase!

    Até Mais!

    PS. volto a postar no próximo domingo, a gente se vê (ou melhor, tecla).

    ResponderExcluir
  6. Cara... Entendo pra caramba sua postura de 'não sair jogando perdão avanço por aí' (kkkk), mas como tava falando pra anônima mais conhecida desse Blog, às vezes o perdão é mais em nossa função do que ao perdoado....

    Valeu pelas palavras e as mudanças estão por vir!
    Abraços!

    ResponderExcluir

Aqui escreve-se sobre ficção, ou sobre fatos à luz da mente do escritor. Assim sendo, cada um deles pode ser tão real quando uma mente pode determinar.
Seus comentários serão bem vindos se não forem ofensivos.

Ocorreu um erro neste gadget