quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Nunca...




É um dia lindo num clima ameno de outono. Ele está ali com ela e se perde no olhar amendoado imitando perfeita pintura impressionista. Os cabelos soltos ao vento ondulam a cada chance de se mostrar e debaixo dessas madeixas há um enorme e sincero sorriso convidativo. Claro que mal consegue se manter em seu banco de praça, cada olhar dela é um convite á felicidade sem muita explicação.

Faz pouco tempo que ela está em sua vida, pode se dizer que é amor novo,mas já está enraizado demais pra ser retirado, ou sublimado. Ela lhe faz um bem indescritível, de certa forma mantém domados os seus demônios, impedindo que ele estrague (ainda mais) sua via e é claro, também a dela. Completamente alheia a tudo isso ela permanece bailando na grama falha com ar de criatura intangível. E ele ainda enfeitiçado por sua beleza, leveza e simplicidade.

Agora lá no fundo possui medo primal. Prefere até mudar de pensamento se lhe vem à mente a possibilidade de perdê-la. E o mais curioso é que nunca sequer poderia imaginar a ínfima possibilidade desse ser fazer parte de sua vida. Claro que não! Estável, rumando pra outra direção, viu-se atraído por ela em tamanha força motriz que poderia tirar enormes planetas de suas órbitas. E foi o que fez... ela o retirou de seu eixo e gerou sua própria atmosfera num novo mundo outrora caótico.

Nunca um pai amou tanto sua menininha!

Wendel Bernardes.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Subversivos: Rock Love

Ele atravessa a rua como se fosse o único a trafegar ali. Trajando negro básico, jeans surrado e algo como um lenço no bolso da calça. Cabelo curto, piercings, alargadores, uma ou outra tatuagem.
O estilo rebelde completamente clichê em seu visual aparentemente não ficava apenas na sua aparência.

'Pedro é um cara bem nascido'. Esse é o tipo de frase que se usa pra dizer que alguém nasceu com grana. Olhando por esse prisma, então era mesmo.  Porem a família de origem tradicional do Rio de Janeiro, embora nunca tenha lhe deixado faltar o que a maioria deseja materialmente falando, não lhe forneceu o que mais precisou.

Seu pai, um influente jurista, filho de um grande desembargador, vive na ponte aérea entre a capital Brasília e o Rio. Os compromissos nunca lhe permitiram ser mais presente.
Quem sabe por conta disso sua educação tenha ficado a cargo quase que exclusivamente de sua mãe. Ela, outrora modelo de revista masculina, casou-se (mesmo a contra gosto da família do marido) para garantir a estabilidade na vida, afinal beleza até pode durar além da conta, mas juventude não! 
Talvez por isso tenha tornado-se alcoólatra, afogando em um drink as mágoas de um casamento de fachada. O calor que todos precisam, ela busca em algo mais vivo que apenas boa bebida, mas todos apenas amantes de ocasião, nada fixo.

Porém o drama que despedaçou essa família fora a morte do caçula anos atrás. O trauma das palavras laçadas em rosto, os sentimentos ocultos, a culpa profunda pela perda abrupta fez dessa gente meros conhecidos com um DNA em comum.

Quem o via assim de relance poderia mesmo imaginar que seria apenas mais um rebelde, mais um riquinho idiota querendo causar. Mas um olhar mais apurado percebia a dor que mantinha oculta na alma, protegida pela roupa negra com ares de anarquia. Diferente da grande maioria que muda de hábitos por conta das influencias externas, ele havia mudado seu exterior por conta das influências internas, claro – sua família.

Nunca andou em grupinhos, gangues ou coisa assim. Sempre esteve só e era assim que se sentia bem. Tudo que queria saber a respeito de musica, comportamento, política, religião e coisas assim , sempre buscou nos livros. 
Quando não estava com uma literatura nas mãos, estava com um fone nos ouvidos.  Houve até momentos em que usava os dois.   
Costumava dizer que os fones eram arma contra o silêncio sepulcral daquela casa e os grandes pensadores um bálsamo pras suas feridas.

Por amor demais à subversão do pensamento e sua ligação com a música encontrara no rock seu maior aliado desde bem pequenininho. Juntou uma grana e conseguiu fazendo serviços de internet – pois deixara de pegar sua mesada faz tempo – e comprou uma Gibson SG, guitarra com som encorpado, de timbragem nobre, verdadeira dama do feeling, com ela conseguiu aprender em casa mesmo. 

A web muito ajudaria com formações de acordes, afinadores eletrônicos, mas decidiu que não usaria esses recursos, na verdade os repudiava. Os outros autodidatas das seis cordas de anos atrás, pioneiros do rock e do blues não tinham ao seu dispor todos esses recursos. 

Aos poucos a energia da sua revolta aliada ao seu tempo livre fizeram dele verdadeiro guitarman . Os acordes em suas composições extravasavam toda a melancolia de uma vida vivida só, toda a tristeza dos erros ancestrais. Tudo formatado em bases tortas, rústicas porém perfeitas e em solos (que quando apareciam) queriam exorcizar demônios há gerações contidos em seu ser.

Viajando na web Priscila descobre um site que disponibiliza jovens talentos do rock em pequenas doses de mp3. Quando ouve aquelas canções que aliam peso e protestos, de cara se apaixonou. Era menina inteligente que não veio ao mundo pra seguir tendências, antes procura algo que lhe toque a alma. 

Aquela música às vezes pra ela soava como grito duma alma em trevas, noutras vezes como pedido de socorro. Claro que ela entendia muito bem desse assunto de alma,  e o que se seguiu foi apenas o destino amalgamando duas crianças sedentas do mesmo sentimento que em ambas estava escasso...
O amor!!!

Wendel Bernardes.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Subversivos: Admirável Liberdade.




Quando decidiu andar seu próprio caminho ouviu de tudo: “Como conseguirá se manter assim, sem um grupo, um corpo?” “Ah, isso certamente tem algo por trás, diga a verdade quer mesmo é sair e curtir a vida, né?”
Aos poucos percebera que era escravo duma vida que não era dele, e pior, estava condicionado a tudo por conta de pequeno... não... ínfimo grupo de amigos.

Juntou a agonia que nunca lhe saiu da alma com  certa atitude advinda do rock and roll e foi viver a vida assim, livre das regras impostas por outros.
Começou a perceber só aí que o mundo ao invés do aquário que lhe pregavam, é na verdade vastíssimo oceano. Que a vida ‘livre’ tem claro suas implicações, mas não são mais as regras impostas num ambiente que se dizia livre.

Hoje se sente bem, e ao contrário de seus amigos ainda pagando  preço alto de terem vendido suas almas a um sistema sufocante, não tenta ‘catequizar’ ninguém ao seu modo de vida, pois como ofereceria algo que não lhe pertence? Vai seguindo a vida um dia depois do outro descobrindo seus limites, errando, caindo, querendo acertar. E quem disse que não há quem ande com ele?

Sua caminhada é longa e está apenas começando...
Bem vindo ao início de sua nova vida, bem vindo à você mesmo!

Wendel Bernardes.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Máscaras: O Chacal.


A guerra contra o sistema não termina. Inserção de vírus em sites corporativos, bugar a página de mais um órgão público, disponibilizar os dados pessoais de policiais na web. “Eles usam armas, nós usamos a mente”.

Ele é um soldado perfeito na luta contra o opressor. Usa as redes sociais pra eclodir a mensagem subversiva do caos, cita frases ou textos inteiros de pensadores do passado. Precisa conscientizar politicamente cada cidadão pois acredita que cada um é uma potencial arma contra o sistema.

Faz menos de um ano e sua vida tornara-se um turbilhão de acontecimentos. Saía às ruas todos os dias, era filho da geração cara-pintada, mas preferia usar no lugar da tinta uma agressiva máscara negra. Os tempos são outros e pra ele, mostrar a cara consternada não fazia parte dessa nova faceta de revolucionários. Escondia o rosto mas gritava a plenos pulmões frases de ordem. Meses a fio de articulações políticas, alianças boas e más, quebra-quebra e agito rendeu ao seu grupo o apelido de Black Blocs, em referência aos grupos do passado.
Os dias reclusos, quase trancafiado, tinham obviamente um claro propósito. Ou quem sabe exista um real propósito por trás da imagem de protestante?
O sol brilhava e estava há tempo demais atrás do PC. Dia realmente lindo com clima ameno, convidativo ao extremo. Mas não era o ar puro ou a possibilidade de curtir a cidade pela qual lutara que lhe impulsionava a sair, mas sim seus desejos, suas ‘necessidades’.
Como cidadão qualquer transitava quase camuflado entre a turba que marcha em luta inglória no dia-a-dia. Cada rosto despido e anônimo, esconde também uma personalidade única. Em seu caso era ainda pior. Nas veias correm sangue vermelho como com qualquer um, mas sua mente doente elabora mais uma ‘vingança’.
É meio-dia e como sempre centenas de adolescentes e crianças caminham nessas ruas em direção ao prédio antigo, muito semelhante aos palácios neoclássicos que nessa cidade habitam hoje gabinetes e repartições públicas. Assim era outrora projetada cada escola, espaços que não visavam exatamente dar lugar à efervescência comum que compreende o comportamento dos jovens, mas sim amplos salões quase sempre arejados por janelões de madeira-de-lei, donde o conhecimento não deveria escapar.
Ah, os janelões,que aliados! Se não fosse por eles como poderia mesmo de fora dos limites dos muros contemplar tão visão?
Peles tenras, olhos distraídos, rostos tímidos, mentes frescas... apenas crianças aos olhos da grande maioria, mas não aos olhos dele. Fitava contornos, imaginava corpos despidos, tinha sede de contato. Hoje seria o dia de observar entradas e saídas, horários e possibilidades nessa louca rotina escolar. Como animal a caça sua mente suja enxerga em crianças seu prazer, sua luxúria.

São agora quase seis da tarde, está escurecendo mais cedo hoje e embora ele saiba que não seria o melhor momento para agir segundo seu metódico modus operandi, pois o tempo de observação fora pouco, mal consegue se conter. Os dias trancafiado em casa lhe forneciam a loucura necessária, a coragem na medida e a motivação certa!
Nota rapaz de não mais de 15 anos andando timidamente e sozinho, agarrado a um livro de história com a mochila colorida jogada apenas num dos lados dos ombros.
-Oi...
-Opa, tranquilo?
-Beleza. Sozinho?
O rapaz não sabe se mente e diz que encontrará seu pai na próxima esquina ou se lhe é verdadeiro e diz que está só. Quem sabe a imagem de 'gente boa' o tenha impelido a dizer;
-Tô... vou sempre a pé, moro perto.
-Ah sim... aí, cê tá aqui faz pouco tempo, né? Anda sozinho mesmo assim no meio do ano?
-Pois é, não sou lá muito bom de fazer amizades quando depende de mim. Sou tímido.
-Então ainda não deve ter ouvido falar de mim por aqui, sou tipo um caça-taletos e agência de propaganda em que trabalho precisa sempre de caras novas, assim como você. Acho que seu perfil seria perfeito!
-Perfil? Indaga o garoto interessado...
-Sim... embora você seja um tipo mais comum, tem um visual legal, boa altura e tenho certeza que tem um sorriso expressivo... viu? Esse mesmo!
Ele agora não sabia mais se era a cara de ‘gente boa’, os elogios certeiros ou a oportunidade de deixar de ser mais um na multidão (sonho de cada adolescente – e muitos adultos) que o seduzira, mas sem perceber havia lhe dado seus endereços de e-mail, redes sociais e celular. O gentil desconhecido o advertiu a não contar nada pros seus pais ainda, já que ‘nada estava certo’, ainda viriam os ‘testes’ pela frente. Tudo soou absolutamente verossímil pro rapaz.
Despediram-se, ele com um aceno de cabeça e semi-sorriso e seu desconhecido ‘amigo’ com olhar perscrutador. Primeiro contato estabelecido com sucesso.
Volta a se trancar em casa e aciona sua parafernália de informática agora para observar também no ambiente virtual. O disfarce perfeito de lutador da liberdade, lhe confere álibis diversos juntos aos seus, tanto para manter todo aquele jeito secreto, como para possuir gigas e gigas de dados não checado em seus dispositivos. Fora que tal acesso e habilidade com as máquinas e sistemas lhe dava condições de apagar os rastros de seus crimes. A máscara perfeita que usa não é aquela que veste quando sai às ruas em protesto por um mundo melhor, mas a que mantém no resto de sua miserável vida.
 

Wendel Bernardes.



sábado, 1 de fevereiro de 2014

Máscaras: Sonhos Roubados



Nada mais fazia sentido em sua mente agora caótica. Olhos sobressaltados, coração acelerado, sudorese... o fôlego lhe falta e mal sente seus pés, mas entende que precisa continuar correndo. Não há sequer brisa que lhe acompanhe nessa noite com odor de medo.

Cais do Porto – Rio de Janeiro.
Ela chega recatada e sublimemente alinhada como uma verdadeira dama da sociedade. Cabelos presos, terninho de cor sóbria e pequena valise de mão. Ao desembarcar do Sonhos dos Trópicos – transatlântico que corta os mares desde o porto de Londres – apenas ajeita seu par de óculos negros para vislumbrar essas terras que há muito abandonara. Na valise, apenas o indispensável, porém carrega no olhar o peso de algo que sua altiva figura esconde.
-Por aqui madame, seu carro a aguarda... posso lhe ser útil em algo mais? Pergunta o serviçal do Porto.
-Sim...
-Pois não?
-Não me dirija a palavra, apenas isso!
O pobre apenas contempla figura perfeita emoldurada em glamour e veneno desaparecer naquele sedã negro. Mal sabe que sua falta de educação não é o seu maior dom.
Ela usa o telefone e em francês dá algumas ordens a alguém que certamente não está tão longe. Desliga abruptamente e apenas diz em tom de desdém:
-Negócios primeiro, Ângelo!
O motorista com cara de leão-de-chácara apenas olha pelo retrovisor e entendendo perfeitamente onde devem ir, manobra o carro esnobe no calor do Rio. Logo chegam num casebre antigo porém de ar aristocrático que aguarda a fidalga figura. Ângelo sabe que precisa estacionar nos fundos para chamar o mínimo de atenção, como se um clássico da Mercedes Benz negro e reluzente, pudesse mesmo passar despercebido. Não nessas redondezas. Ela desliza de seu carro e adentra rapidamente no casario buscando clima mais ameno. O Rio está insuportavelmente quente, aliás como sempre.

-Seja bem vinda madame, é um prazer...
Seu olhar denota o asco de estar ali.
-Carlos, poupe-me de seus parcos recursos linguísticos e de sua falsidade. Eu sei muito bem que também não há nenhum prazer de sua parte em me ver, então vamos direto ao ponto. Quantas estão prontas para o embarque?
-Senhora... deixe-me explicar...
-Pareço demonstrar interesse em suas falácias?
-Entendi... direto ao ponto...
-Como deveria ser desde o início!
-Falta uma, senhora.
-Sua incompetência me cansa. Não serei mais benevolente com você! Hoje a noite ela precisa estar pronta, ou teria grande prejuízo em enviar a carga incompleta. Tenho compradores certos para cada uma das encomendas.
-Sim, madame... eu me viro...
-“Se vira”? Você “se vira”? Carlos, haja com eficiência ou será seu último trabalho ouviu bem?
-Claro madame, claro...

Ele sai da presença da agora consternada dama enigmática e sabe muito bem que suas juras não são obra de alegoria das palavras.
Longe dali, ela joga seus longos cabelos loiros enquanto corre apressadamente em busca de um táxi na Rio Branco. Está atrasada pois quer antes do jantar tão especial que seu namorado lhe marcou por SMS, fazer sua academia, quase um templo do corpo que cuida como máquina. O táxi para. Ela entra velozmente e lhe dá as coordenadas que culminaria em seu destino. Ali sentada sonha acordada com o pedido tão sonhado. Mal poderia esperar que viesse assim tão rápido. Os minutos árduos do trânsito confuso do Rio passam sem que sinta. Sua mente está nas nuvens. Tenta ligar pra mãe... apenas caixa postal. Nessa hora sua irmã não irá atender por causa do sinal péssimo da operadora na Serra do Rio, resta apenas o aconchego da melhor amiga, mas nota que seu celular está quase sem bateria, mal comum dos telefones modernos.
“Chegamos” avisa o taxista. Ela paga pelos serviços e adentra com a energia de um furacão. Claro que nunca notaria figura de malandro neoclássico que a observa atentamente do outro lado da rua. Seus olhos brilham pois sabe que se trata de bela mulher. Exatamente nos moldes que sua patroa o encomendou!
Cerca de quarenta minutos depois ela surge com trajes de malhação, cabelos presos, meio esbaforida. Olha pros lados como que buscando condução. Procura algo no celular em vão. Está definitivamente sem bateria. Preocupada começa a andar à procura de alguma condução que a salve. Anda ainda meio desligada, pois sua mente é um turbilhão. Um misto de alegria e preocupação com o horário. “Porque não saí mais cedo”? As elucubrações a fazem simplesmente não perceber a estranha figura que a agarra por trás...
-Apressada, delícia?
-Que isso? Ma larga! Quem é você?
-Calma meu amor, hoje sou quem você quiser. Vamos conversar...
-Me solta, vou fazer um escândalo!
-Escândalo é você, coisa linda, grita pra mim vai...
Ela se apavora, pois sabe que um enfrentamento seria impensável, ele era muito maior e certamente estava disposto a absolutamente tudo. Num instinto completamente primitivo, crava seus dentes no braço do sujeito.
-Ahhhhhh....!!!
Ela corre como louca, sua vida pode depender disso. Estranhamente nota que a rua está deserta nessa parte do bairro, coisa completamente incomum prum dia de semana. Sente estar passando por momentos decisivos. Cansada, assustada e desorientada, dá tudo o que tem mas sabe que não conseguirá manter esse ritmo por muito tempo. Gastou tempo demais na esteira hoje, suas pernas mal obedecem. Não sabe se deve olhar pra trás para ver onde está o algoz, ou se corre ainda mais desesperadamente. No exato instante que tenta olhar, é surpreendida pela figura medonha e detestável desse odioso em sua frente. Paralisada, trêmula e quase sem ar, deixa-se ser agarrada e tomada pelo medo apenas desmaia nos braços de seu futuro raptor.
-Ah, se você não tivesse seu destino, garota! Ah, se eu tivesse mais tempo pra você...
Ele sai de cena com um sorriso macabro no rosto e arrasta a bela jovem loira pelas ruas escuras e sujas da cidade.

Quando acorda está amarrada, com uma dor de cabeça horrível e muito desorientada. Certamente fora drogada, pois mal consegue elaborar sentenças. É quando ouve o som de saltos finíssimos no chão metálico, escuro e sujo. A silhueta revela bela mulher de não mais de trinta, bem vestida, batom cobre e perfume inebriante. Quase se sente salva. Figura tão perfeita não poderia representar mal. É quando ela chega perto o suficiente para com a mão direita tocar seu queixo e erguê-lo para melhor ver seu rosto.
-Perfeita, Carlos. Essa vai servir.
-Servir? Por favor moça, do que está falando? Me ajude a sair daqui. Fui raptada e hoje é meu... meu noivado. Ao terminar a frase, não consegue segurar o choro.
-Noivado? Não hoje meu bem. Você não poderá servir a um só nunca mais. Deveria estar feliz, provocará sensações prazerosas em grandes amantes ao redor do mundo. Já esteve no Velho Mundo ‘ma cherie’?
-Europa? Não!
-Você irá adorar, meu bem!

Ela desliza como que se não tocasse seus pés no chão e dá ordens visuais para que Ângelo e Carlos fechem pesada porta após si. Os gritos da moça fariam derreter o coração de qualquer ser com o mínimo de caráter. Mas logo deixam de serem ouvidos quando são cerrados atrás da porta imensa.
Os sonhos, planos, desejos de felicidade são obliterados pela falta de luz de algo que mais parece um container. Se ela simplesmente deixasse de gritar um pouco, ouviria outros sussurros, gemidos. Se ao menos deixasse um pouco de pensar apenas nos seus sonhos, quem sabe poderia sequer perceber que junto dela, outras jovens e belas mulheres fazem companhia em sina tão sinistra?

Em outros tantos pontos da cidade longe dali, noivos checam caixas de mensagens em seus telefones, pais ligam para amigos, irmãos correm para as portas de faculdades, mães acendem velas na intenção
das amadas que sem mais nem menos deixaram de cumprir suas agendas naquele dia. Em vão tentam achar algo que lhes faça sentido. Mal sabem que a dor da ausência e da falta de reposta às perguntas as assolará por tempos e tempos ainda.

Wendel Bernardes.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Máscaras: Quem é quem?




Acorda meio tonto. O quarto escuro não denuncia se é noite ou dia, mas o cheiro do álcool que ambienta o cômodo acusa o motivo dessa ‘lombra’ e da dor de cabeça cavalar que lhe dá ‘bom dia’... (ou seria ‘boa noite’?).
Junta forças pra levantar seu corpo meio exausto e vaguear pelo quarto em busca da porta. Quase se cortou com os restos de um doze anos, que jazia no chão esperando vítima desavisada. Porém o que lhe preocupa a mente ainda nebulosa no momento são questões mais práticas. Onde esteve, com quem esteve e fazendo o quê? Nem todo o whisky do mundo teria o poder de lhe apagar a memória. Claro que seu esquecimento era fruto doutra coisa.
Ao quase arrancar da parede as persianas ao tentar abri-las nota que já é dia claro. Os raios de sol o ferem mais dolorosamente quem sabe por conta da escuridão que lhe permanece n’alma. Rapaz boa pinta, de família decente e hábitos originalmente saudáveis, enveredou-se em seu universo particular e começou a ousar cada vez mais, como que testando seus próprios limites, conhecendo um alter ego estranho, obscuro, sombrio. Aos poucos sentia sua negação abandoná-lo e o que lhe caberia agora seria cultivar seu ‘eu’ mais negro.
Ao sair do quarto topa uma casa completamente bagunçada. Ambiente tipicamente masculino (alfinetaria qualquer mulher), mas o cenário caótico e sujo mais demonstrava a atual decisão dele em lançar-se nesse mundo paralelo que qualquer outra coisa.
As imagens vem aos poucos trazendo à mente algo de ontem... luzes piscantes, som grave, gente jovem e bonita. Uma balada certamente. Inserido nesse ambiente pouco a pouco rememora os passos antes de sair de casa também.  Veste-se meio com pressa como que muito atrasado, guarda algo no bolso que não parece fazer parte dos costumeiros utensílios que normalmente se faz ao sair. De volta às cenas da festa, pode ser notado olhando para todos os lados como que querendo fisgar alguém.
São tantos olhares trocados, tantas chances, inúmeras possibilidades. Após alguns momentos encontra sua vítima em potencial. Menina bela, jeito meigo e discreto, maquiagem básica. Parecia exalar pureza, inocência mesmo... ‘perfeita’!!! É nesse instante que ele sente algo como que querendo eclodir. Seu sangue ferve, seus olhos outrora simples ganham contorno animalesco. Não é apenas o frenesi do álcool aliado ao som ensurdecedor do bate-estaca. “Ele está chegando” pensa.
Quase que automaticamente engole duas pílulas translúcidas de tom âmbar e quando a aborda seu temperamento está completamente dominado. Ela mal pôde esboçar reação senão acompanhar esse estranho, porém sedutor desconhecido em uma, duas, várias danças intermináveis. Nada era dito. Seria inútil tentar, ela imagina. O som simplesmente a impediria. Ele realmente não a ouviria, mas não era o som alto o real motivo.
Nessa curiosa impossibilidade de conversa apenas lhes sobrara o olhar. O dela ia de curiosidade a certo medo. O dele era uma incógnita! Os minutos se passaram e ele agora completamente possuído por seu alter ego a convence com grunhidos ao pé do ouvido que a noite poderia continuar bem melhor fora da boate. Ela cede crendo que uma experiência nova lhe aguarda. Nem saberia expressar o quanto está certa.

Sala pequena, cores sóbrias, cheiro de umidade. Ele agora é uma mistura de outras personalidades com pitadas de Don Juan e boa dose de neanderthal.  Beija-a de fazer seu pouco fôlego simplesmente sumir. As mãos dele deslizam o pequeno e frágil corpo tremulante e a firma contra a parede como que querendo mais base para o que virá. Ela sente que tudo está começando a ficar desconfortável e quando ensaia um basta é cruelmente atingida pela violência de ter seu direito de mulher abolido. Ela grita - na verdade urra – mas o som desses lamentos apenas fornece mais prazer ao seu algoz. Impossível descrever a cena patética que se discorre onde fera e presa travam um balé trágico e grotesco, aqui arrependimento da pobre moça é a cortina de fundo.
Agora os olhos dele são bestialmente revelados em coisa quase inumana. Ele a fere propositalmente e encontra diversão nesse ato vil. Humilhada, cansada e fragilizada, ela apenas roga aos céus em seu íntimo que isso não demore ainda mais. Como que ouvindo as preces da jovem, o animal para sua função e lhe fita os olhos assustados. Ela tanta se afastar, quem sabe apenas pegar suas coisas e sumir desse covil insano. Ele até que gosta da ideia de lhe deixar crer nessa possibilidade. No momento em que se agacha pra colher suas roupas é atingida seguidamente por algo frio e cabal. A dor se mistura ao medo da morte agora factível. Seu sangue jorra e suas esperanças se vão enquanto suas vistas enegrecem.

Ele parado permanece saboreando cada cena como que sorvendo energias dessa tragédia. Apenas se abaixa pra sussurrar em seu ouvido:
-“Você foi ótima, querida...!”
Ela apenas suspira e se vai.

Após as cenas lhe lembrarem quem é realmente, tão somente veste-se mais uma vez e prepara-se para sair de novo. O mundo é pra ele um celeiro de boas oportunidades e o monstro que habita em seu íntimo (que faz uso de drogas desconhecidas para aflorar) tem sede. Essa noite ele mais uma vez sairá à caça. Face de Jekill, alma de Hyde...  Topa??

Wendel Bernardes
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