domingo, 10 de novembro de 2013

Eles Estão Entre Nós – Hylel, o Astuto.






Ele dobrou a esquina tranqüilo sem mesmo olhar pra frente, já que conhecia o caminho como a palma da mão. Estava um pouco mais pesado hoje. As frustrações da vida lhe pressionavam tanto que vez ou outra imaginava que seria um personagem criado por Homero, não... por Dante
Mecanicamente entra em seu prédio certamente pedindo que quaisquer dores fiquem no saguão, no elevador, no corredor, na porta... Qualquer lugar é melhor que sentada no seu sofá, justamente ao seu lado.

Antes de dormir, uma cena curiosa lhe invade a mente. Estava pelo menos quartenta anos mais jovem e, ajoelhado tendo ao seu lado sua irmã que reza o Pai Nosso (que é a única prece que de cor conhecia) e ao final, beijavam-se na bochecha ou testa, e cada um dirigia-se pras suas camas.
Certamente não era saudade da irmã, que vê diariamente na empresa familiar que tocam como podem, então o que seria? Saudades de rezar?
Ele sorri de si mesmo e se vira pra dormir, sem esquecer-se de seus dois comprimidos habituais sem os quais a noite seria uma tortura.

Alguém lhe observa atento, com curiosidade e alguma dúvida. A pequena fenda na janela do sétimo andar é como tela para olhos tão treinados e perspicazes. As informações sobre seu novo ‘protegido’ são muito importantes.

Cabelos curtos, roupas simples, casuais, expressão de homem comum... Seu nome é Hylel e não se engane, esse guerreiro de asas claras embora exale paz e sossego é um inimigo feroz quando instigado.

Hylel enxerga mesmo muito bem, apenas não consegue vislumbrar onde sua missão se encaixa na vida desse mortal desleixado de meia idade, porém a vastíssima experiência lhe faz acreditar que aguardar e confiar é a melhor coisa a fazer.
Embora acostumado às campanas, seria praticamente surpreendido se não fossem seus dons apurados.
Ele sente algo surgir bem próximo, no teto do prédio ao lado do que usa de base e está claro que vem em sua direção.

-Hylel, meu caro... quanto tempo?! A última vez foi onde mesmo? Veneza, Londres? Como foi que nos trouxeram do Velho Mundo e nos jogaram nesse lixo de trópicos, hein amigo? Devemos ter feito algo de errado, ter incomodado alguém...
O sarcástico ser que se aproxima lentamente ajeitando par de luvas e cartola é Asdaad, velho conhecido de Hylel, mas nunca foi exatamente seu...
-Amigo??? Se eu fosse você, demônio, tomaria mais cuidado com suas palavras!
-Ora meu caro, ao longo dos séculos, estarmos vivos depois das Cruzadas, Guerras Mundiais e da Reforma é mesmo algo incomum, não?
-Sempre estivemos de lados opostos, cão!
-Ah, vocês e esse linguajar belicoso. Demônio, cão, blá, blá, blá... Não se cansam de empunhar espada protegendo mortais caminhantes?
Vocês são tão certinhos, sempre com suas ordens e suas obrigações... tedioso!
Vamos, anjo da guarda, relaxe um pouco e lembre-se que nem sempre fomos inimigos!
-Primeiramente nunca mais me chame assim...
-De anjo da guarda?
Hylel ameaça sacar da espada que agora deixa à mostra.
-Sim sim, entendi... Prometo nunca mais...
-Vocês são mentirosos, como não poderiam desmentir nossa existência nos estigmatizaram nessas figuras constrangedoras de ‘anjinhos particulares’...
Gordinhos, nus e como figuras infantis. Sabem muito bem o que somos!
-Ei, acalme-se, já não está mais aqui quem falou. Vai querer me catequizar agora? Faça-me um favor, padreco... Ele solta uma longa e debochada gargalhada.
-Se não for direto ao assunto esqueço que já servimos lado a lado e lhe parto em dois, verme!
-Calma Hylel... Eu vou ser mais prático, eu juro.
O ser infernal caminha até a laje em que Hylel se encontra e diz:
-Quero saber seus planos aqui...
Agora é Hylel quem ri...
Não ofenda minha inteligência, criatura.
-Estou querendo saber, pois notei sua campana nessa laje pequena defronte desse prédio e até onde eu sei os caminhantes estão nos andares inferiores e seus olhos estão entre o sétimo e o oitavo, não? Algum assunto pessoal? Sim, pois isso não seria exatamente uma novidade entre vocês, lembra-se do caso de...
-Já lhe exigi respeito, Asdaad!
-Hummmmm... quando você diz meu nome assim até acredito que irá descumprir suas ordens e ferir um principado como eu... Não se esqueça da hierarquia, hein?
-Ninguém sentiria sua falta, cão! Suma daqui e não me tente!
-Não antes de ter minha resposta...
-E entregar o ouro ao bandido?
-Ora, ora... usando ditados humanos? Você sempre gostou dessas criaturinhas não é, anjo? Posso ao menos chamá-lo de anjo, não? Pois sim...
Curioso notar a influência nítida deles em seu modo de ser. Escute... Vamos acabar logo com isso. Você me conta e minha curiosidade se vai... Simples assim.

Cansado do teatro cômico e irônico de Asdaad, Hylel usa uma arma tão poderosa quanto sua espada... A sua astúcia!
-Muito bem, se você acertar quem é meu protegido eu lhe conto minhas ordens...
-Hummmm adorei.... Mas e se eu errar?
-Seja criativo, demônio.
-Ah sim, melhor nem perguntar... Deixe-me ver... Deve ser um caminhante frustrado, acertei?
-Não!
-Então, um filho de caminhante, certo? Desses que os pais vivem orando a vida inteira...
-Não!
-Ora... Ou você está usando a saborosa mentira ou seu Mestre está ampliando a cobertura do plano empresarial – gargalha mais uma vez...
O guerreiro pleno de si, apenas diz:
-Nem um, nem outro...
-Me diga, anjo. Pare com seus joguinhos tolos!
-Muito bem, você quem pediu: vigio o sexto andar e ele é um ateu depressivo que um dia será um grande caminhante... devo lhe ajudar em seu caminho em busca da Luz.
Ao terminar a frase Hylel se aproxima de seu curioso adversário e diz:
-Satisfeito?
-Na verdade estou desapontad....
Um urro nasce mo lugar do final da frase de Asdaad. Sem crer, ele se vê agora atravessado por lâmina dourada de não mais de vinte centímetros. Trata-se de uma adaga angelical, a arma mais furtiva usada pelos guerreiros místicos.
A energia de um pequeno sol percorre o corpo magro do principado demoníaco, fazendo-lhe contorcer-se e simplesmente queimar até a morte.
Hylel limpa sua arma e diz:
-Não possuía mesmo ordens para matá-lo, mas agora que descobriu meus planos, tudo muda de figura. Não poderia deixá-lo viver.
E ainda ganhei mais um prêmio, odiaria ver a sua cara esnobe na minha frente. Estou livre de você, sujo!

Ele dá as costas às cinzas de Asdaad e volta mais uma vez sua atenção à sua missão.
Esse é Hylel. Já deu pra notar que ele leva suas missões a serio, não?

Wendel Bernardes.




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