segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Dama da Flor...





Ela se sentia cercada desde pequena. Na verdade perdera há muito a referência de liberdade. Chega a imaginar que nunca fora livre afinal. Suas lembranças mais distantes remetem sempre aos muros; às cadeias que a cercavam.

Sua mãe, figura sempre presente em sua vida, cuidava em minúcias das coisas que ouvia, que lia, assistia e até mesmo, das coisas que falava. De um jeito ameaçadoramente doce lhe olhava e direcionava cada pensamento convergindo para o que ela deveria crer! Às vezes sentia-se enclausurada literalmente, como num mosteiro ás avessas.

O estranho numa mulher tão doce e gentil como a mamãe, era seu perfil quase patológico em garantir que suas lições eram aprendidas por osmose, à exaustão. Não freqüentou escola. Mamãe dizia que ‘o saber corrompia a boa alma ignorante’, mas não era só ela quem cuidava de seus ensinos. Alguns professores de modos tão particulares como os de sua mãe, faziam-lhe companhia durante o dia.

Homens de jeitos enigmáticos, de feições estranhas, cercados de suas literaturas; principalmente dum livro negro arcaico, de páginas tons de sépia e cheiro ocre.
Crescera em meio a tanto conhecimento que os jovens de sua idade jamais teriam acesso. Um de seus professores, talvez um tanto rebelde lhe apresentou às grandes obras dos clássicos romancistas.
Encontrou-se com Shakespeare, espantou-se com Verne e apaixonou-se com Dumas (o filho) na verdade por uma obra em especial “A Dama das Camélias”...
Algo tão contraditório ao seu ensino fundamentalista, verdadeiro ultraje à sabedoria pura que lhe fora concedida.
Mas prossegue sua contemplação da vida sob a ótica de seus mestres.

Espantada ficou quando descobriu por fim que esse ensinamento fazia parte não só da formação de moça qualquer, importante apenas para sua família. Mas fazia parte de uma árdua etapa que levaria uma jovem tímida e originalmente sem grandes sonhos, além dos muros delineados de sua gente.

Percebeu que seus mentores eram na verdade parte de um culto ao conhecimento do inconcebível, e que cada etapa de seus ensinamentos faziam-na mais preparada para assumir grandes responsabilidades e tamanho poder sequer imaginado por menina antes tão simplória. Isso mesmo... ‘antes!’

Agora seduzida pelo poder do conhecimento e pelo desejo de dominar, seus modos pouco lembravam a criança tímida do passado. Uma mulher forte e decidida ergue-se para conquistar macabros ideais.

Já não sente mais as correntes que lhe cercavam os pulsos ou paredes que lhe comprimiam o corpo. Ela agora é quem puxa as correntes, é quem se assenta sobre a muralha.
Insana e cega pelo poder e autoridade, caminha a passos largos para dominar seu propósito...
Uma dama sem dúvida, mas a flor que melhor a define hoje seria uma tulipa... Negra!

Wendel Bernardes

5 comentários:

  1. A cada dia q passa eu me sinto mais dona do Lendas...kk.
    Aurélio, é impressionante como eu me identifico com ele!!!
    Bjs.

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  2. Auréilo, passei por aqui..

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    Respostas
    1. Venha sempre que quiser, é uma honra!

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  3. Aurélio, to na área..kk..

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Aqui escreve-se sobre ficção, ou sobre fatos à luz da mente do escritor. Assim sendo, cada um deles pode ser tão real quando uma mente pode determinar.
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