sábado, 10 de novembro de 2012

Mudanças da Estação.




Quando chegou o outono ela decidiu mudar sua vida. Não sabia ao certo se era por causa do clima ameno e da melancolia das folhas mortas espalhadas no chão, mas era fato que a estação não foi escolhida por acaso.

Levantou-se uma manhã a ao abrir a janela sorriu estranhamente. Não era um sorriso de alegria, nem mesmo ironia ou coisa assim... Apenas sentiu o vento frio, seco e contínuo cortando-lhe o rosto. Aquilo lhe servia de energia, uma confirmação do que estava em seu coração para fazer.

Lavou o rosto, arrumou-se de seu jeito urbano e adorou o que vira no espelho. Era simples o bastante para manter em sua bolsa apenas o necessário (o que na cabeça da maioria das mulheres era algo inconcebível). Conferiu coisa ou outra e saiu do quarto decidida como nunca.

Ao passar pela sala acenou sutilmente com a cabeça aos presentes. Um senhor bigodudo, calvo e ranzinza, ainda folheando seu jornal matinal resmungou:
- Procure não voltar tarde...
Ela nem sequer respondeu.
Foi aí que uma senhora magra de cabelos encaracolados e ruivos, vestindo estampa que parecia ter saído de figurino que retratava a Era Vitoriana disse:
- Mas o café é importante, você precisa tomá-lo... Sente-se aqui...
Ela fitando sua mãe como que assistindo a uma reprise chata apenas disse: - ‘Não’!

Enquanto cruzava já a varanda lembrou-se da noite de ontem, das palavras duras do pai e da omissão da mãe em lhe proteger. Hábitos cíclicos! Não era moça de coisas erradas, mas as palavras e as omissões a feriam cada vez mais...
Eram imagens e sons que preferia ocultar da mente jovem, porém acostumada aos sofrimentos caseiros.

“Palavras duras em voz de veludo e tudo muda; adeus velho mundo...” foi fazendo dessa canção seu hino que decidiu que jamais ouviria mais uma vez o que ouvira na noite anterior. Passou pelo portão sabendo que não seria a ultima vez que o fazia, mas o fez de um modo que nunca mais voltaria a fazer.

Olhou na bolsa, juntou os cartões, passou no banco sacou o que tinha. Adquiriu até empréstimo com os juros que tanto adiava. Deu uma graninha razoável. Afinal tava trabalhando duro havia um tempo e juntou em seu cofrinho de confiança, grana para suas emergências costumeiras. E não foram poucas.

Agora era apenas ela e só!

Comprou jornal, sentou na praça e olhou os classificados. Nada convidativo. Era inteligente a ponto de saber que não poderia fazer nada que não fosse ao seu alcance. Todos os aluguéis estavam salgados demais. Pegou o celular e ligou pra alguns amigos... Mas nada.  Ninguém poderia lhe ajudar. Costurou na boca um semi-sorriso. Sabia que aquela tarefa amigo algum poderia lhe ajudar mesmo. Era coisa pra ela e só!

Sem se desesperar saiu em busca de alguma placa, ou faixa que sinalizasse sua liberdade. Meio sem perceber entrou numa van e deixou seus instintos lhe guiarem.  Saltou coisa de dez ou quinze minutos depois num ponto em uma estrada conhecida. Não sabia bem se já passara ali com amigos, ou a trabalho...

Guiando-se em seus costumes viu plaquinha mal escrita, convidando ao aluguel de quarto simples para solteiros. ‘Eu mesma’, pensou!
- Bom dia.. Disse pra alguém na varanda.
- Sim? Respondeu uma velhinha.
- A vaga está preenchida?
- Da casinha? Oh não... é pra você?
- Na verdade, sim... posso ver?
- Claro, será um prazer... só um instante.

Entrou, calçou sandálias gastas, passou as mãos no cabelo ondulado e posto em coque e posicionou os óculos pesados e de grau.
- Me acompanhe minha filha...

Era um corredor de piso simples, a cara do subúrbio, feito de caquinhos de sobras de pisos e azulejos de obras anteriores. Basicamente vermelhos. Abriu porta regular de madeira antiga, com o ar que se deslocou sentiu um perfume que lhe fez fechar os olhos: era madeira de sândalo. ‘Porta antiga, madeira boa...’
Essa frase seria dita por seu avô, que era carpinteiro desde menininho e quando viu nascer seu primeiro neto, que na verdade era ela, quis ensinar os detalhes da profissão.

Sabia a melhor madeira pra quase tudo, e como não conhecer um cheiro tão familiar?
Abriu os olhos e deixou pra trás aquele instante que lhe lembrou do homem que mais amou na vida!

- Filha? Tudo bem? Parece distante?!
- Desculpe, lembrei de alguém... mas já passou.
- São nossas lembranças que nos fazem quem somos sabia? Guarde-as sempre com você!
Fez daquela frase de efeito seu lema praquele dia.

Olhou a tudo em volta e era bem pequeno. Pequeno a ponto de com poucos passos cruzar toda a casinha. Como tinha pensamento positivo logo disse pra si mesma; Melhor assim, haverá pouco trabalho na hora da limpeza.

Por milagre ou não, alguma mobilha ainda poderia ser alugada junto da casinha. Um velho baú para roupas revestido com pátina provençal. Uma cama de casal de madeira clara e uma mesa antiga, com cara de anos setenta com visual quadrado e pés fininhos.

- Quanto custa?
- Quanto você pode pagar?
- Um pouco abaixo do mercado...
A velhinha olhou-a de cima a baixo como que a sondando, disse:
- Fechado, você num tem cara de caloteira, nem dessas bandidas doidas que rondam a cidade. Tem cara de menina de família.
‘Família’... essa palavra de novo, pensou meio amargurada.

Aquilo parecia o tal milagre que vovô sempre lhe falava. ‘Olha eu pensando no vovô de novo...’
Agora era só pegar suas roupas e viver o primeiro dia do resto da sua vida. Deu um sentimento estranho em seu interior. Era mistura de medo de dar errado, com o medo da liberdade. Ta... era tudo medo, mas eram medos diferentes, né?

Assim que pegou as chaves e pagou a tal da luva pra senhoria, deitou-se no chão de tacos de madeira, com os braços por detrás da cabeça e pensou lá longe em sua trajetória.
Sua vida estava definitivamente sendo reescrita e dessa vez era ela quem manuseava a caneta.

Olhava para o teto com simples arranjos de gesso antigo (foi aí que notou que tudo precisava de boa pintura), mas logo seu olhar atravessou o teto. Estava no infinito. Não pensava em ninguém, não estava ali por causa de ninguém... aquela era hora de se curtir, de se conhecer, de ser ela mesma.
Que solidão que nada, ela estava era querendo se encontrar!
Sabia que não seria fácil, mas pra alguém que sempre se virou na vida, mesmo debaixo das asas dos pais, isso seria menos ruim.

Pensou nas possibilidades, esqueceu das coisas que passam na TV e do glamour que a mídia passa em morar sozinha e sorriu. Agora aquele sorriso era mais maduro, mais definitivo. Ainda num era de alegria, também num era também de ironia, mas era a certeza que a felicidade tava pra chegar.
E quando a tristeza batesse na porta, era só fechar os olhos, lembrar do vento gelado de outono que a fez abrir suas velas e simplesmente: navegar!

Wendel Bernardes.

O trecho da canção usada no texto refere-se a música “CuideBem de Seu Amor” dos Paralamas.



4 comentários:

  1. Não há nada melhor do q manusear a caneta...mesmo quando o futuro é uma incógnita.

    Lindo, Aurélio!

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  2. E deixá-la fluir sob a batuta do destino.... Verdade!

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  3. "Simplesmente...navegar!"

    É isso...deixar o BARCO ser levado pelas ondas e escolher a direção...com os REMOS.
    Um grande abraço...fica com DEUS.

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  4. A vida é assim, amiga Clélia... Um grande oceano, às vezes 'pacífico' , às vezes revoltoso....
    Mas seguir os rumos é sempre garantir que a Felicidade chegará!
    Obrigado por tudo!

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