quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Fuga...



Ele atravessa o farol vermelho criando uma grande confusão atrás de si. Gritos e palavrões dos transeuntes são ouvidos, mas sua preocupação é maior... ele sabe que seu carro compacto não foi feito praquilo. Olha desesperadamente pro retrovisor e sim, o sedan negro ainda está lá na sua cola.
Enquanto pisa fundo no acelerador sem a resposta desejada abre-se uma tela dolorosamente real em sua mente.

Imagens em tons de sépia porém de um passado recente. Seu estômago se embrulha e não é por conta das manobras arriscadas que faz nas ruas apertadas do Centro do Rio. Desejaria que todo o seu passado ficasse enterrado, mas certamente o ‘paleontólogo’ do sedan negro achou certos ossos secos escondidos e quer algum tipo de vingança.
‘Paleontólogo’? O que estou dizendo?
Decide acelerar ainda mais sem resultado então a única coisa a se fazer em sua mente é despistar seu algoz. Ganhar tempo, quem sabe até para buscar veículo mais veloz.

Para seu carro num semáforo e nota bem perto um estacionamento público onde percebe carro esporte, janela aberta, som ligado e ninguém com cara de dono próximo. Não poderia ficar muito tempo a decidir... Leva coisa de dois minutos para trocar o carro e em sua fuga deixa curiosos os camelôs que desfrutavam dos batidões que vinham do som interno do esportivo.

Não há sinal do perigoso sedan negro, apenas carros piscando pedindo passagem, em alucinada febre. Tudo para nada! Minutos depois estão todos em engarrafamento na altura do Caju, Zona Portuária do Rio. Nem ar condicionado ligado o faz parar de suar e o tremor das mãos indica que o medo continua presente em sua vida.

Ainda ontem estava tudo bem. Lembra-se dos filmes que assistiu com seus filhos em casa e do jantar que sua esposa lhe servira. Tudo a contento. Mas agora isso significa pouco, os fantasmas lhe assolavam.

Ficou tão absorto que quase tomou o caminho de casa. Se ligou a tempo que estava num carro roubado e que a esse momento as câmeras da administradora da Avenida Brasil já teriam lhe filmado dezenas de vezes.
Precisava se livrar do carro e pra isso decidiu usar um ponto cego das câmeras. Havia um espaço bom e muito ermo entre Deodoro e Realengo, logo abaixo da Avenida. Câmera alguma, pouquíssima luz, e apenas uma pista de acesso à Avenida... Perfeito!

Estrategicamente saiu do carro e com sua camisa que usava por cima de outra limpou maçaneta, painel, volante... deixou absolutamente tudo ‘limpo’ de digitais. abandonou o carro roubado, lançou a chave longe.

Agora usando apenas a camisa de baixo, andava bem longe das possíveis câmeras da prefeitura. Não poderia simplesmente voltar à pista por isso mais uma vez agiu por instinto. Tomou um taxi que o deixou a três quilômetros de casa. Era um bairro movimentadíssimo de subúrbio, principalmente no verão onde todos saem às ruas.
Não há sequer sinal de alguém à sua cola. Ou conseguira despistar bem... ou estava mais uma vez fugindo de nada!!!

Minutos depois chegou em casa e a cena familiar suburbana clássica se apresentou. Seu filho menor lhe abraçou em festa, e checou-lhe os bolsos como que procurando um chocolate, bala ou souvenir. Sua filha adolescente de frente ao PC mal lhe olhou. Sua esposa com feições de exausta terminado o jantar lhe perguntou em tom de curiosidade:
- Demorou...
- Vou tomar um banho, estou com calor...!
Aparentemente tudo normal, ninguém lhe seguira, sua família estava bem. Estava preocupado a toa. No banheiro, de frente ao espelho tentava bolar mais uma desculpa pelo atraso, e ainda faltava explicar a ausência do carro.
Nem me lembro onde deixei... as rugas lhe surgiam numa velocidade incrível. Tudo resultado de seus erros e das mentiras frequentes que contava para encobrir seus pecados.

Mas era mais fácil assim, mesmo nessa cruzada inacabada e doentia. Amanhã será mais um dia... não sabe se será perseguido por mais um sedan, por moto, por gente a pé, ou somente pelos seus temores e demônios, mas essa foi sua escolha, melhor assim!
Prefere a tormenta do que revirar túmulos e expor fantasmas. Não poderia jamais mudar o passado, mas decidira moldar o futuro como se fosse um oleiro sempre fazendo obras a partir de cacos velhos de barro. Essa é sua vida e não está aberta a visitação... de ninguém!

Mas... será que esse 'passado' de fatos trumáticos e escondidos fora real? Será mais um fruto de sua mente angustiada?
Perguntas sem respostas, guardadas à sete chaves numa mente caótica!

Wendel Bernardes.

4 comentários:

  1. Nossa,texto subjetivo, né?!!
    Paz Aurélio.

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  2. Pois é,
    no caso do personagem a fuga nada mais era do que dos medos (alguns talvez sem motivo) de coisas que ele teria feito no passado (ou não, visto a paranóia em que se encontrava), mas que estavam perseguindo-o não num sedã negro, mas olhando-o todos os dias defronte do espelho!

    Às vezes, em alguns casos, o medo cria patologias que por sua vez, fazem surgir verdadeiros mundos paralelos, onde se vive com medo de tudo e de todos... Quase como num filme de Hitchcock, o problema é que sendo somatizado, ou real, os medos podem trazer consequências muito verdadeiras, diferente da ficção dessa (minha) obra, ou das obras de Alfred!

    Beijos, menina!

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  3. Lindo post...mas...difícil interpretação.
    O que esse cara tem?! rsrsrs
    Gostei da sua explicação no comentário...é isso ai...MEDOS de um Passado...Presente...SUJO.
    Um abraço, fica com DEUS.

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  4. Oi Clélia...
    Pois é, como disse à Ingrid (a anônima do comentário anterior) acredito que existem MEDOS que estão dentro apenas de nós....

    Sabe aquela sensação de ter cometido algo que vc na verdade nunca fez? Aquela sensação de transgressão que está na sua cabeça mas que nunca chegou a rolar... (ou até rolou, mas que não teve lá tanta repercussão assim?)???

    Pois é... creio que se encaixa na aura desse personagem que vivia em mentiras e fugas que ele na verdade suturou em sí mesmo!

    Beijos e muito grato por sua visita e comentários (sempre muito bem vindos e importantes...)

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Aqui escreve-se sobre ficção, ou sobre fatos à luz da mente do escritor. Assim sendo, cada um deles pode ser tão real quando uma mente pode determinar.
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