segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Andando com Fé...




O sol surgiu depois de dias de tempo ruim com chuva fina. A tal da frente fria que veio do Sul não a deixou nem um pouco feliz.
Era carioca da gema, adorava se expor ao sol como ela mesma dizia; ‘Sol recarrega as baterias’. Sua vó tinha outras teorias, achava que era coisa de lagarto... adora ficar numa pedra “quentando o sol”. De fato parecia coisa de bicho de sangue frio, viu?
Mal secou a laje e lá foi ela “se bronzear”.

No kit bronzeamento não poderia faltar um baldinho pra jogar uma aguinha vez em quando, uma daquelas caixinhas de som cintilantes (e barulhentas) que comprara na Uruguaiana pra ouvir seus ‘batidões’ e o principal... um preparado líquido que quase efervescia. Base de óleo mineral pra dar liga, essência de jasmim pra deixar a pele perfumada, pó de café e extrato de urucum pra dar a cor. Meu Deus, que algum dermatologista apareça por lá... senão será queimadura de todos os graus!!!

Era feliz assim, curtia uma balada, namorava ‘pra dedéu’ e dançava como poucas. Podia vir de tudo; samba, pagofunk, forró, baladão sertanejo... Sabia de todos os passos e as letras estavam na ponta da língua. Só dava uns moles nas letras em inglês, nessas ela mandava um ‘embromation’ mesmo. Importante era curtir!

Aprendeu com a tia Neuza, integrante da velha guarda da escola do coração e presidente de honra da Associação de Moradores da Comunidade a se virar fazendo cabelos.
Topava de tudo um pouco nessa empreitada; era prancha, escova de chocolate, morango e outras frutas silvestres (com muito formol, claro), queratinização, tintura, babylyss...
Fazia tranças nagôs, dreadlocks e coisa e tal. Num gostava muito era de cortar o cabelo das clientes. Sempre dizia que era porque errava a mão, mas na verdade é que cabelos curtos significava serviços mais simples, né? E como ela num era boba nem nada...

Um dia voltando num baile notou uma movimentação já tarde da noite na casa de uma vizinha. Curiosa como poucas, foi lá conferir. Descobrira da pior maneira possível que era uma boa amiga sua, mais ou menos da mesma idade que acabara de fazer ‘a passagem’.
Menina nova, parceira de muitas festas (e de algumas pegações) teve uma síncope do nada e sem mais nem menos “cantou pra subir”.

Depois do impacto habitual chorou litros.
Claro que sentira a morte da amiga, mas o que mais lhe marcara era a forma precoce de morte. “Sem aparente explicação, jovem e saudável... poderia ser eu!”

Foi aí que começou a pensar mais na vida, no futuro e a se cuidar do jeitinho que achava melhor. Cortou a cervejada, o excesso das festas e deu um tempo nas gorduras dos churrascos, até na feijoada das sextas com pagode de mesa deu uma maneirada.

E não fez só isso, aproveitou a vibe filosófica da tia Neuza que dizia que “seguro morreu de velho” e procurou auxilio espiritual. Foi na paróquia da comunidade e conversou com o padre; queria saber se ‘terminara suas obrigações com Deus’... Na cabeça dela essas coisas eram iguais a cartão de vacinação, se não estiver em ordem o bicho pega... Deus me livre!

Aproveitou o ensejo e foi logo no pai Toninho, o pai de santo da favela. Lá, entre baforadas e tambores, queria fechar o corpo, mas abrir os caminhos... Enfim, qualquer coisa que a deixasse ao menos conhecida dos orixás. Tudo foi feito segundo os seus desejos.

E como ninguém é de ferro foi também na Igreja Renovada Pentecostal do Bate Coxa pra ver se dando o dízimo deixaria Jesus ligado de que era boa moça. Se Jesus gostou eu num sei, mas o líder de lá...

Fora isso aproveitou a oportunidade e dançou com as batucadas dos Hare Krishinas mo Largo da Carioca, tomou passe no Jorei Center do bairro, jogou flores pra Yemanjá, frequentou showmissa carismática e tomou água fluidificada da oração das seis da tarde do homem de jaleco branco da TV.
Uma coisa te digo, disposição ela tinha, e como tinha!

Depois de tudo ficou mais confusa que nunca. Tudo bem que segundo sua visão agradara todos os deuses das religiões mais em voga, mas qual seria seu destino no ‘além vida’?
Iria pro céu dos crentes? Reencarnaria numa forma de vida mais evoluída? Vagaria sem luz? Iria ao paraíso?

Naquela noite nem pôde dormir, era como se esperasse a ‘morte acordada’, ficara chocada! Rezou, acendeu vela, fez mini-jejum... Tudo, tudo!
Lá pras tantas dormiu. Fora vencida pelo cansaço! Até hoje ela nem sabe explicar o que aconteceu depois, só jura de pés juntos que num pôs um gole de coisa alguma na boca!
Mas vira uma luz e no meio dela ouvira uma voz potente, porém branda, amável que lhe chamou pelo nome e perguntou o que ela procurava
- Eu procuro paz, respondeu.
- Que tipo de paz? Retrucou o Ser Iluminado.
- Paz eterna... Ei, não que eu queira ir agora, eu tô bem por aqui mesmo, tá? Mas penso no futuro, né?
- De tudo que você procurou, o que te deu paz?
- Quer saber? Senti paz em nada, viu? Tudo me confundiu mais a cabeça... Era ‘obrigação’ daqui, compromisso de fé dali... Mas sossego que é bom, necas!

A voz pausou e ainda mais docemente disse:
- Tudo que você precisa é entender que o seu coração, que é o seu entendimento, deve se entregar completamente a quem te faz sentir mais completa, a quem te trás vida! Vida abundante!
E continuou dizendo:
- Não há nenhum preço a pagar que já não tenha sido pago... Nenhuma obrigação que já não fora feita, ou ainda esforço senão o de entender que você é extremamente amada. E que é importante da maneira que você é, e o resto está consumado!

Dito isso silenciou a voz, a luz se apagou e ela pulou da cama, pois tava atrasada para a primeira cliente do dia... No caminho ficou pensando no sonho, aquela voz lhe tirara o medo de ‘partir’ e estranhamente lhe deu paz. Olhou para o céu e viu que o tempo iria virar de novo.

Quer saber? Chovendo ou fazendo sol o negócio e ser feliz e ter paz!
Prosseguiu na vida e procurou obedecer à voz, afinal
“Andar com fé é bom,
Que a fé não costuma falhar..”

Wendel Bernardes.









2 comentários:

  1. Pois é...

    Neguinho roda, roda, roda, mas só encontra paz numa única fonte.

    Lindo!

    bjs

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  2. Rê...
    vou fazer uma analigia idiota, mas cabível...

    Um bêbado depois de uma noitada daquelas chegou em casa com muita dificuldade e tentou abrir a porta de casa com suas chaves, mas não conseguiu pois via tudo girando...
    Aí ele disse:
    -Vou sentar aqui e esperar, já que tá tudo girando, quando minha casa passar eu entro!
    (kkkk)

    Sabe que às vezes acontece assim? Procuramos, rodamos, giramos... quando decidimos esperar 'ver a casa passar' é que conseguimos enxergar que a Paz estava mais perto do que imaginávamos, e no caso dela, estava dentro de seu coração!!

    Beijo Rê!

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