sábado, 13 de abril de 2013

Um Conto Estranho?



Era uma pequena cidade do interior nada sofisticada e com hábitos bastante provincianos se comparada às metrópoles cosmopolitanas por natureza.
Mas se engana quem acredita que esses hábitos se traduzem por abandono. Muito pelo contrário. A prefeitura de Singela, numa administração bastante longeva de um prefeito orgulhoso, cuida de cada detalhe fazendo daquele lugar quase um pedacinho do céu. Principalmente incentivando a religiosidade do povo.

São sobrados tombados pelo patrimônio público e cedidos para igrejas neopetencostais, barracões de santo com contornos estruturais invejáveis aos da cidade grande e cuidado carinhoso com a igreja da matriz, essa sim o xodozinho de todos!

Podia-se dizer que o prefeito estava feliz com a instituição da religião na vida do povo em seu mandato. Quando argüido do por que de tal paixão pela religiosidade, respondia cheio de si; ‘A Religião alimenta minha alma!! Note nossos jovens, dizia; são participantes de quermesses, cultos, missas, congressos, sessões e assim ausentes da pagina policial!’
E era fato; o consumo de drogas ilícitas era mesmo muito baixo, quase nulo, fazendo daquela terra uma utopia com endereço fixo.
E continuava: ‘Chequem os obituários. Morre-se aqui de velhice e mui raramente de doença – pois ninguém está imune – mas ainda assim a fé de nosso povo cura a muitos!’

Nada se poderia dizer a respeito, era exatamente verdade cada dado apresentado pelo líder político de Singela. Ele mesmo imbuído de autoridade outorgada a ele (segundo ele mesmo) pelo próprio Deus, examinava de perto cada instituição religiosa, cada agremiação de fé.
Freqüentava batismos evangélicos, festas de santos da umbanda, batizados católicos, reuniões de ação social espírita. Até tomou certa vez o tal do ‘santo daime’. Sentia-se responsável por afastar os charlatões da fé do meio do povo. Perdeu-se a conta dos caras-de-pau que botou pra correr da cidade apenas em perceber suas motivações. O negócio com ele era sério! ‘Com religião não se brinca’; dizia!

Não se cansava nunca. Seu compromisso era esse em primeiríssimo lugar e por incrível que pareça, sua vitalidade era invejável. Por mais que batalhasse e que passassem os anos, estava cada vez mais jovial, mais vivaz!  
Alguém duvidaria de sua missão? Jamais!!!

Num radiante domingo, dia de contemplação religiosa para a maioria das seitas, quase se podia notar o ambiente cheio de espiritualidade solta no ar, como em ondas douradas pelo céu...
E assim aquele homem guardava em seu coração segredos que nem mesmo o mais puxa-saco de seus assessores poderia sequer desconfiar.

Era noite alta naquela sexta-feira quente de lua minguante, quando entrou em seu modesto carro usando roupas estranhas e grande chapéu que lhe cobria o rosto.
Ia em direção a uma fazenda abandonada, perto de onde tempos atrás se dizia ter um cemitério de escravos mortos por rebelião nas antigas fazendas ricas de cana-de-açúcar do Brasil Colônia. Lá, grupo seleto de distintas figuras, em sua maioria vindas de outras paragens, preparava-se para oculto ritual pagão de louvor a divindades desconhecidas pela maioria.
Mantos negros tomam o lugar de roupas civis. Faixas escarlates cingem os peitos, utensílios dourados figuram nas mãos como estandartes loucos para serem exibidos reservadamente.
Um estranho cântico macabro que emite apenas uma nota grave e contínua (cuja letra desejo ocultar) se faz ouvir em meio a tochas de fogo acesas por queima de pólvora seca. A vista de longe seria bela, caso não se tratasse da visão do mal!

Assentado na primeira fila, perto do púlpito de madeira arcaica com entalhes rústicos estava o tal prefeito local, porém, suas feições estavam diferentes; velhas, cansadas e bizarramente deformadas como se atingido por dor lancinante. Mas seus olhos brilhavam como o fogo embevecido das tochas. Algo que o interessava estava por acontecer.

Figura alta, de semblante sínico tomou a palavra.
- Caros irmãos, quero aqui dizer de minha alegria em encontrar esse lugar em plena ordem. Essa cidadezinha, como todos sabem, bebe do cálice da fé direcionada, focada na religião e na prática das cerimônias que tanto faz crescer nosso poder místico.
Cada celebração, culto, missa, reunião ou sessão, lançam forças inimagináveis pelos fiéis que acrescenta significavelmente o nosso poder!

A platéia enfeitiçada ouve atentamente:
- Hoje queremos realizar a cerimônia que dá renovo às nossas forças místicas, e em particular a um de nossos mais ilustres membros.
Sem mais palavra alguma, ergue-se o prefeito e dirige-se para tomar posição atrás de um biombo onde uma chama tênue revela sua silhueta. É na verdade alguém curvado, envelhecido. Aquela era sem dúvida alguma a sombra de um ancião!
O sacerdote com expressão sínica faz uso de uma grande urna, onde repousa um notável liquido dourado. Mergulha ali um de seus inúmeros utensílios, colhendo generosamente o líquido para depois o espargir sobre o corpo quase morto do velho. Ele o unge... não, ele o embalsama!
A magia age instantaneamente e não há mais um velho decrépito diante dos olhos da congregação macabra, mas de novo um homem jovem, forte e robusto. Seu corpo está incrivelmente renovado, ereto e funcional! Em nada lembra a figura anterior.

O milagre místico se deu em meio à histeria coletiva e ao êxtase dos presentes!
- Esse líquido precioso, irmãos, colhido das celebrações e louvores nos trás vida e longevidade. A religião flui em vida para nós! Não mais repetiremos o erro de nossos ancestrais que mataram em nome das religiões. Agora em nome dela teremos vida!
Que vivam as instituições religiosas e suas preces contínuas.
Que vivam suas louvações frenéticas e práticas sacras.
Que viva nosso culto onde nos beneficiamos do poder jamais antes provado por homem algum...
Que o medo da morte e danação eterna os persiga e cada dia mais sejamos...
Imortais!!!

Wendel Bernardes.

2 comentários:

  1. Estranho?
    Não achei não, me parece bem familiar...
    é o conto da vida mergulhada na morte que aprece escondida no interior, mas na verdade está escancarada mas não observada...

    Wendel, lança um livro com seus contos
    Muito bom!!!

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  2. Rita, eu dei o nome de "Um Conto Estranho" pois esse texto se trata da adaptação de um sonho da minha esposa.... Foi um sonho no mínimo 'sinistro', né? Valeu pelas palavras. A parada do livro está dentro dos planos... vamos ver

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