sábado, 1 de dezembro de 2012

Mentiras Sinceras...

Era um jovem um tanto tímido na presença da família, mas com as pessoas certas ele ficava mais a vontade. Ria, brincava, até vez ou outra, conseguia ser o centro das atenções. Algumas vezes recatado, outras vezes afogueado. Bom, isso é completamente normal em todos nós, não? Existem momentos em que somos assim, noutros somos assado. Porém no caso dele tudo era mais complexo. Não conseguia dizer sim, mal poderia dizer não!


É que ao longo do tempo foi conhecendo pessoas ótimas, mas com personalidades muito distintas e as queria inteiras em sua vida. Bem... Muito embora soubesse que algumas pessoas não poderiam ‘conviver com outras’. Iguais a alguns pensamentos, algumas posturas, ainda assim agregava-as como colecionista. Como num erro patológico!

Certa vez ouviu não sabe bem onde que se “dependesse dele, deveria manter a paz com todos”. Mas creio que ele não entendera muito bem a essência do que essa frase quisera dizer. Por conta disso assumiu uma postura muito impessoal, porém fez dela sua bandeira, e inacreditavelmente conseguiu sintetizar isso em si mesmo. Acendia uma vela pra Deus, outra pro demônio!

Evitava assuntos polêmicos, sorria sempre pra todos, com uns era quase um palhaço, mas com outros passava a imagem de responsável, maduro, centrado, focado... Contradição ambulante.

Mas quem o conhecia de verdade sabia de suas fachadas, de seus medos, de seus demônios interiores e quais sorrisos eram verdadeiros e quais sorrisos eram maquiagem. Era um grupo seleto, talvez duas, três pessoas. E mesmo dentro delas talvez apenas um o conhecia melhor. Claro que dele não escondia nada, nem se quisesse, mas era como que algo a consenso, pois todos somos produtos do meio onde vivemos e eles entendiam bem o que isso significava.

Passou a ser muito difícil de sobreviver, a vida passou a ser uma mentira. Pelo menos uma mentira na maior parte do tempo. Em alguns momentos poderia ser ele mesmo, mesmo que isso durasse apenas uma meia hora por dia, às vezes durava um pouco mais, mas lhe bastava. Era a cura da utopia.

Até o dia em que algo lhe venceu. Desistiu de viver sua vida em gotas e decidiu mergulhar no oceano que era sua atuação. Não mais gotas dele mesmo, mas agora um mar de sorrisos constantes. Permitiu-se apenas agora se analisar quando as luzes se apagam e quando põe a cabeça no travesseiro. Já não sabia mais se a mentira era a verdade, ou se a verdade sempre fora uma utopia. Atuara tanto, que o papel da sua vida lhe cobrara os prêmios que sua atuação lhe trouxe.

Mudou, mas não sabe bem de nada ainda.
Não sabe o que essas decisões lhe trarão.
Não sabe se será feliz sendo quem os outros querem que ele seja (e que ele acredita ser), ou se poderá conviver com um buraco em seu peito, com a morte de alguém que se foi...
Quem se foi?
Ele mesmo!

Wendel Bernardes.


14 comentários:

  1. Ingrid vai me perguntar se é baseado em fatos.... kkkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  2. Caramba!
    É bem assim!
    A máscara fica tão presa que não tem mais como tirar e a pessoa passa a viver a vida do personagem que ela mesmo criou.

    E que ilustração, heim?

    Você sabe exatamente como discorrer sobre a sequência silenciosamente dramática tanto no palco da vida e por trás dos bastidores.

    Triste... Mas é a realidade.

    R.

    ResponderExcluir
  3. Essa mentira sincera NÃO me interessa! Tô forinha!!!

    ResponderExcluir
  4. Pois é Rê,
    acredito que esse teatro é muito mais comum do que se pensa... Mas o legal é que os atores terão SEMPRE uma nova chance para serem eles mesmos e desvencilhar-se das mímicas da vida!
    (Num tem ninguém dizendo que será um mar de rosas, ou coisa assim... Mas viver assim é tão difícil quanto a alternativa)

    Sempre há tempo!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  5. Conheço um amigo que é exatamente assim. Queria tanto manipular os outros como marionetes através de sorrisos e elogios, que acabou marionete de suas próprias mentiras...
    Wendel, isso é o que mais me impressiona em seus escritos que nada têm de "lendas": eles são reais, plausíveis.
    É no mínimo curioso você começar a ler e lembrar-se de velhos amigos ou velhos momentos.
    Continue assim!

    ResponderExcluir
  6. Ai... sai de mim, Aurélio!!! kkkk..
    Então, pecisamos ser verdadeiros com Deus, com as pessoas e conosco.
    Pra q haja construção é preciso verdade!
    Mas...é baseado em fatos?
    kkkkk....brincadeirinha..kk..
    Ah,lembrei de algo...falo em off...kk.
    Beijinhos no coração.

    ResponderExcluir
  7. AMEI!!!
    Às vezes...me pego assim...(a cara corou aqui...rsrsrs)
    Sabe amigo...odeio falar NÃO...ainda não sei bem como é isso...ver o outro MACHUCADO por uma PALAVRA ou ATO meu...me consome...prefiro EU ficar magoada...Mas, estou APRENDENDO....rsrsrs.
    Um grande abraço, fica com DEUS.

    ResponderExcluir
  8. Alysson,
    talvez os textos sejam plausíveis por que pretendo expressar o que se passa pela mente humana, as situações mais reais que TODOS já vivemos na pele, ou porque fomos vítimas, ou porque fomos algozes...

    Grato por suas palavras, a literatura tem mesmo essa intenção; criar no imaginário figuras possíveis, que bom que você gostou!

    ResponderExcluir
  9. Ingrid, pra que sejamos verdadeiros com quem quer que seja (incluvive com Deus), precisamos em primeiríssimo plano descortinar o véu sobre nossas próprias realidades, ou seja... Sermos verdadeiros conosco! O que é, é e ponto final!

    Agora; concordo completamente com você: "A Verdade reconstrói"!!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  10. Clélia,
    Fiquei tocado com seu comentário, viu?
    Acredito que 'pôr para fora' nossos sentimentos (ainda que eles sejam para nós vergonhosos) é o primeiro passo para nossa reconstrução.

    Muitos passos ainda virão!
    Abraços e muita Paz!

    ResponderExcluir
  11. Incrível o seu texto e como ele me lembra o que já fui um dia, ainda bem que consegui escapar dessa armadilha terrível.

    Comecei a acompanhar seu blog a pouco tempo, mas estou amando todos os texto que tenho lido!!!

    ResponderExcluir
  12. O perigo dessa armadilha é que ela é constante e terrivelmente sutil, está sempre à espreita e caímos nela de vez em quando, ainda que não nos apercebamos. Ou seja nem sempre estamos imune, ela (a armadilha) só aguarda um momento de fragilidade...

    ResponderExcluir
  13. Olá Juliana, seja muito Bem Vinda, ok?

    Eu creio que todos que se identificam com esse texto em particular estão, de alguma forma, em processo de "cura" dessa modo de viver!
    Todos nós em algum momento da vida nos portamos dissimuladamente, como que se fosse possível fugir de quem somos, ou do que sentimos!

    Quando decidimos por um dos dois caminhos (seja o de ser real, ou maquiar-se) estamos na verdade assinando uma carta de conduta, onde absolutamente todos os atos a partir daquele momento podem contribuir para nossa felicidade ou tristeza final!!

    Muito grato Juliana, fique SEMPRE vontade!

    ResponderExcluir
  14. Pois é Rê...
    Em alguns casos a sutilieza nos entorpece e nos angana, como serpente em bote... Mas acredito que pior do que ser ludibriado e entorpecido pelas situações e decidir viver assim conscientemente (que é o caso do personagem central do texto)... Nesse caso a dor é maior, o tembo é maior e a vida torna-se um buraco ainda mais negro!

    Beijos, querida!

    ResponderExcluir

Aqui escreve-se sobre ficção, ou sobre fatos à luz da mente do escritor. Assim sendo, cada um deles pode ser tão real quando uma mente pode determinar.
Seus comentários serão bem vindos se não forem ofensivos.

Ocorreu um erro neste gadget