segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Norberto, o primo do Aroldo!




Foi numa família linda que Norberto nasceu. Era o terceiro de quatro filhos. A casa que vivia era boa, mas sem luxos. E a vida também era assim.
Papai e mamãe viveram uma linda história de amor. Foram separados pelas circunstâncias ao se conhecerem, mas havia tanto amor naquele primeiro olhar que ambos decidiram namorar mesmo a distância: por cartas.
Fora assim por anos a fio até novamente se reencontrarem. A vida e a história deles daria um belo filme, viu? Desses que o mocinho luta toda a trajetória para ficar com a mocinha no final.

Amaram cada filho de forma única.
O primeiro, Gualberto, lhes nasceu forte, bonitão e robusto; parecia o pai diziam todos!
A segunda, Alberta, era doce e linda como um raio de sol na primavera, era cópia da mãe, dizia vaidosamente a própria.
O terceiro, nosso herói Norberto, antes de nascer, passou por todo o tipo de dificuldades.
Mamãe teve gestação difícil, parto complicado e abreviado pra salvar tanto o bebê quanto a mãe. E o pequeno Norberto só sobreviveu por um milagre. Não era assim tão belo, mas fora igualmente amado, aliás, se cuidado era amor, fora ainda mais amado por todos!
O último, Humberto, era como todo caçula, o queridinho da mamãe, o garotinho do papai e o xodozinho dos irmãos.

Foram criados na fé Tradicional e Ortodoxa dos Crentes. Graças a Deus não eram barulhentos como os Pentecostais, nem ‘misturadinhos’ como os Renovados, dizia papai.

Na igreja todos eram amados. Pelo exemplo de amor e família, pelos filhos bem educados e belos. Tá bom que tinha o Norberto que não era lá essas coisas, mas beleza não se põe mesa não é?

Nos grupos sociais todos iam bem, só Norberto sentia-se infeliz.
Gualberto era artilheiro do time de futebol da escola, mas bem que poderia ser zagueiro com aquele corpanzil. Era papo certo entre 125% das turminhas femininas no recreio.
Alberta, ou Betinha como preferia, era ainda linda, mas também estudiosa, quase um prodígio. Como primeira da classe, havia ganhado bolsa de estudos para ela mesma e para seus outros irmãos, menos para Humberto que ainda estava nas fraldas.
Ah, é... Norberto ainda assim estava infeliz!

Não conseguia fazer amigos, não tinha atrativos físicos nem se sentia inteligente. Assim começou a duvidar da fé. ‘Que Deus é esse que fez meus irmãos tão belos, meus pais tão amáveis e a mim deu restos e sobras? Ninguém me quer’, pensava em sua angústia de vida.

Na E.B.D., sempre questionava a professora.
Jesus? Ah, ‘pfessora’ creio sim, acredito que Ele existiu, mas num era o Filho de Deus como vocês crentes ortodoxos pregam, não... isso, acho eu, foi invenção dalgum maluco!”
Por conta disso, era sempre convidado a ficar no corredor, pensando na infâmia que dissera.

Norbertinho não tinha o que queria e nunca quis entender bem isso, então bolou um plano de vida baseado na sua cabecinha infantil. ‘Vou comprar amigos!’ decidiu assim do nada!
Pensou que se pudesse destacar algo de bom nos outros, elogiando, bajulando, poderia fazer parte de qualquer grupo.

Ridiculamente, tentou primeiro com as meninas.
- ‘Oi, posso brincar com vocês?’ Disse confiante.
- ‘Claro que não, isso é brincadeira de menina, ta cego?’ Disse a mais meiga e educada.
- ‘Pôxa, que pena; vocês pareciam meninas tão inteligentes, tão bonitas que mesmo sendo menino pensei em vir aqui ficar com vocês!’
 As meninas se entreolharam... Acertara direto no alvo! Logo lhe entregaram uma boneca de pano, um lugar na rodinha da esquina e um apelidinho que prefiro ocultar.

Foi assim que viveu a vida inteira; agora andava com atletas, patricinhas, pagodeiros, riquinhos, roqueiros, pobrinhos, ‘geeks’ (os antigos c.d.f’s) e demais filões sociais. Era só ver um grupinho se reunindo que queria usar sua técnica para fazer parte da galera.

Na igreja também era assim, claro! Andava com todos, elogiava-os de inicio e já não ficava mais segregado no lado de fora das salinhas de estudos bíblicos, mas lá no fundo ainda não cria que Jesus era o Filho de Deus, pelo menos, não mais filho que ele mesmo deveria ser.

Cresceu, fez muitos cursos, frequentou várias universidades e trabalhou em tantas áreas de atuação diferentes quanto pôde. Tudo meio que simultaneamente. Fez também teologia, não que fosse por paixão ou vocação, mas não poderia esquecer-se de nenhum grupo a que pertencia. E se ficasse sem assunto no meio dos crentes? Fez tudo!

Mas é claro que queria dar um ‘ar só dele’ em tudo que participava, coisa característica dos desajustados sociais.
Com seus amigos não religiosos aprendeu a beber, a fumar e dar ‘uns tapinhas’ no ‘cigarrinho do demônio’, talvez daí tenha vindo tanta inspiração para as colocações que defendia nas rodas de amigos.

Fazia questão de dizer que “amigo não era quem concordava com ele em tudo”, mas Norberto deveria ter muitos amigos verdadeiros sim, viu? Afinal para aguentar tamanha chatice e discordância em qualquer assunto, só mesmo com amigos do peito!

A família continuava feliz. Com amor, beleza e inteligência e Norberto fazia questão de dar ‘pitacos’ em tudo. Nas roupas de patricinha de Betinha, na bola certa pra Gualberto usar, e até na alfabetização de Humberto, hoje homem feito.

Frequentava a igreja e também um bom boteco, fazia de sua liberdade, fruto da Graça, cavalo de batalha. Adorava dizer que era livre para todos, mas nunca conseguiu enxergar as cadeias da falta de amor que o prendiam. Gostava também de dizer que era membro dizimista da fé Tradicional e Ortodoxa dos Crentes, só pra dar uma base de referêcia pra quem quisesse, mas não que fosse assim tããããão ortodoxo, ok?

Tem levado a vida ainda hoje assim, quer fazer amigos em qualquer lugar, mas amá-los é outra conversa! Continua com sua luta contra Deus, acusando-o de injusto, negando a Jesus e a Graça até o osso.

Num dia teve um sonho. Nele Deus lhe aparecia e lhe dizia que tudo tinha um propósito especifico. Disse Deus; ‘Como você pode se sentir assim se de todos os seus familiares você foi o único a ser livre da morte desde o ventre?’
Sorrindo-lhe, Deus lhe apresentara Jesus...

Norberto acordou em polvorosa.
Que sonho maluco era aquele? Não acreditara em nada do que ouvira, embora fosse bem formado teologicamente, lhe faltava a base de tudo: fé, sem a qual ninguém enxerga a Deus.

Imaginou que o sonho era fruto da bebedeira com os amigos na noite anterior e seguiu seu caminhar, convivendo com a dor de ser quem decidiu ser desde pequenino.
Igual ao primo Aroldinho não tinha nada, apenas como ele criou um blog que tá na moda fazer assim. Vive por meio desse, ainda fazendo seus ‘amigos’ em grupos sociais dos mais diversos. Elogiando-os, bajulando-os de todas as formas e dando seus pitacos mesmo em coisas que não sabe, nem sequer quer aprender...
Que pena, Norberto.

Wendel Bernardes





3 comentários:

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