sábado, 18 de fevereiro de 2012

As Crônicas de Davi



Ele corria nas campinas. Estava acostumado ao vento no rosto enquanto fingia voar como os pássaros.
Costumava imitar o som dos bichos, ficava horas deitado na grama ocre ouvindo cada som, e depois, os representava com maestria.

Sua família era grande, era o mais moço de muitos irmãos. Eles estavam envolvidos com guerras e coisas assim. Ele, por enquanto, só queria correr pelo mato, sentindo o vento quente das montanhas do interior, saltar como gamos, urrar como ursos, exercitar os músculos ainda franzinos, como fazem os leões-meninos.

Papai achou que era hora de dar-lhe oportunidade de mostrar algum valor. Pensou que olhar os bichos selvagens não era boa ocupação. Vasculhou a velha cachola buscando algo que não fosse ademais austero pra menino tão afoito, tão topetudo. Pensou nas ovelhinhas do quintal.

Quando o chamou, estava com cheiro de relva misturado a terra molhada. Papai sabia que deveria confiar nele, quem sabe um dia seria alguém! Trazia nas mãos algo que papai não identificou de cara, parecia uma harpa, coisa assim, mas não era das harpas que se tocava na tenda congregacional, era mais pra algo feito a mão... se bobear, o pequeno menino ruivo era quem tinha feito o simples instrumento.

Papai perdeu minutos elaborando na mente, como ele poderia ter criado algo acerca de música, coisa que ninguém da família dominava.
As rugas de preocupação deram lugar a um sorriso discreto num rosto desacostumado a alegrias naturais. Ainda assim lhe falou sobre seus planos com as ovelhas.
Ele, quando soube que ganhara uma função na família ficou feliz, ainda mais quando descobriu que essa função seria cuidar das poucas ovelhinhas do papai.

Foi dormir mais cedo ainda que o de costume pra pegar bem cedinho na lida com as tão amadas ovelhas.
Ainda corria nas campinas, ainda imitava os animais, mas desta feita fazia também o som dos berros das pequenas e poucas ovelhas do papai. E agora, os grunhidos, assobios e urros eram embalados pelo som do instrumento singular que trazia a tiracolo.

Ali começou a cantar, e percebeu que sua voz era bela, firme, porém ainda aguda por conta de sua pouca idade.
Ficara tão feliz com as músicas que lhe saíam dos dedos e da boca que decidiu escrevê-las na mente. Repetiu incansavelmente cada verso, cada frase.
Era uma canção de louvor, e falava dos feitos dum Ser maior, que o amava e o compreendia como menino e como servo.
Também não poderia ser outra canção senão louvor, sua vida tão dedicada e livre não poderia gerar outra coisa senão lindos louvores ao Criador das campinas, dos vales, das ovelhas e dos ursos.

Falando em urso tenho que contar uma coisa difícil de crêr que lhe aconteceu.
Estava perto da campina que fica ao lado do ribeirão quando as ovelhas, já mais fortinhas e sadias, começaram a se agitar.
Quando fitou seus olhos de menino ao longo, logo percebeu figura negra e imensa, vindo na direção de seu pequeno rebanho.

Uma força louca lhe inundou o corpinho adolescente numa explosão de fúria misturada a compaixão pelas ovelhas. Medo? Nem teve tempo de pensar em medo! Correu como insano em direção ao urso!
Que estou fazendo? Pensou numa fração de segundo! Só foi notar a sandice que estava pra cometer quando já estava saltando na frente do urso.

Sentiu uma dor lancinante em suas costas, e algo quente e espesso corria por entre as costelas. Havia sido atingido pelas garras do grande urso negro! Soltou um urro que ao urso espantou! A dor que o garoto sentira era a maior já sentida por ele, talvez a maior já sentida por alguém de sua idade!

Olhou nos olhos da fera louca enquanto seus olhos agora vermelhos de fúria e dor mediam seu inimigo de cabo a rabo. Ao olhar ao lado viu apenas uma pedra; tinha no máximo uns dois ou três centímetros. Ela seria a arma que lhe salvaria a vida e pouparia a das ovelhas.

Eram apenas uns segundos que separavam a sua morte da idéia transloucada que teve. Tomou a corda que lhe atravessava o corpo onde prendia sua harpa e num gesto de pura iniciativa colocou a pedrinha num ponto certo, dirigido certamente pelo Ser maior, enquanto circulou vorazmente umas dez vezes até soltá-la certeiramente no olho direito da fera.

Depois de urro ainda maior que o que ele mesmo soltara segundos antes, a fera ergueu-se da própria altura e fez sua sombra cobrir seus cabelos ruivos. Tombou morto com a violência da pedrinha que o pastorzinho atirara!

Uau!
Não havia nenhuma outra palavra que poderia proferir!
Céus, matei um urso, nem posso imaginar!

Juntou as poucas, porém amadas ovelhas assustadas no abrigo e foi direto até papai para lhe contar a novidade. O velho patriarca ouvia a vociferação surtada do pequeno e só lhe acreditou, pois vira a ferida profunda e sangrada nas costas do próprio filho.

Curou-lhe as feridas com ungüento caseiro de pastas de figos (até os reis um dia usariam essa receita) e enquanto brigara com o filho para manter-lhe em casa até que as feridas sarassem sentiu o Deus Criador lhe falar algo nos ouvidos.

O velho deu um sorriso, agora mais confiante. Quando se virou, viu que a janela estava escancarada e ao longo o vulto daquele lindo menino que gerara correr quase sem dificuldades, mesmo ferido, enquanto saltava e tocava sua harpa caseira.

O velho, a quem a tradição chama de Jessé, pôs-se de pé, enquanto via seu pequeno sumir no horizonte.
Sua mente vagava ao som duma velha canção que falava dos feitos do Senhor Criador dos céus e da Terra, essa canção reverberava em sua alma e lhe dava ciência que Ele tem planos, e seu pequeno estava no centro deles.

Sabia que nada seria fácil, mas tinha certeza de que o Deus que ele servia um dia seria conhecido não como Deus de Jessé, mas como Deus de ... Davi!

Wendel Bernardes.

2 comentários:

  1. isto não é uma lenda, e sim a mais palpavel verdade.

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  2. A Realidade do rei Davi, está contida na vida de cada pessoa que se 'encontra' nas lições de vida incluídas nessa linda história (bíblica).

    Sou um pouco de Davi... isso é real em mim. Grato pela opinião!

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Aqui escreve-se sobre ficção, ou sobre fatos à luz da mente do escritor. Assim sendo, cada um deles pode ser tão real quando uma mente pode determinar.
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