domingo, 16 de junho de 2013

Inimigo...

Ele está cansado de esperar, afinal de contas é um homem de ação, um guerreiro! Seu coração anseia tanto por respostas quanto em sair do marasmo.

“Aguarde” - ele ouve de seu mestre – “seu coração ainda não está pronto para o que virá...”
Embora ele encontre sabedoria nas palavras do ancião, tudo lhe está confuso, nublado. Seu sangue praticamente ferve nas veias. Ele se levanta pronto para sair e no instante seguinte, se senta mais uma vez.
Não há medo em seus gestos, apenas a inquietação peculiar dos jovens.

Seu mestre sabe que tudo pode ser posto em risco. Que seu ímpeto pode arruinar não só a vida de seu amado discípulo, mas de todos que os cercam. Porém nesse momento confiar é a única coisa que lhe resta. Apenas acompanha a errante atitude de seu pupilo até que...

-Mestre, eu não agüento, devo seguir meu destino!
-Seu destino está em suas mãos, porém deve se lembrar que sobre seus ombros está não apenas o seu desejo, mas o destino dos seus. Um passo errado e tudo que você ama, desaparecerá!
-Mas não consigo esperar mestre, devo prosseguir.
-Nem sempre ouvir nosso coração é o bastante jovem guerreiro, lembre-se, ele é enganoso!

O discípulo falava de enfrentar seu destino, pondo em prova seu treinamento, adiantando muitas etapas. Estava à sombra de sinistra gruta que lhe atraía como o mar chama as águas do continente.
-Vou entrar, mestre!
-Deve entrar apenas se estiver pronto.
-Como vou saber se estou pronto? Alias como o senhor sabe se estou ou não pronto?
-Eu não sei, na verdade nunca sei... quem deve saber é você!
-Então, minha decisão está definitivamente tomada!

Ele se ergue derradeiramente, cinge seu corpo com sua armadura, apanha cada utensílio na certeza do uso de cada arma. Veste-se preparado para luta, mas a sombra de seu destino final ainda o aflige. Até que toma sua grande espada - a espada de um príncipe – e a embainha sabendo que dela fará uso brevemente, que dela, dependerá sua vida.
Seu mestre, triste em notar sua hesitação e saber que o que lhe motiva está mais nos fatores externos do que em seu desejo de cumprir seu papel, apenas lhe observa com olhar atento, fraterno...
-O que há lá dentro, mestre?
-Não há nada... apenas encontrará lá o que levar daqui!

O jovem aposta em seu destino e embrenha-se numa mata mortal, onde cada planta possui um propósito, cada animal lhe desafia, cada sombra lhe ameaça...
Caminha até que lhe surge, imponente e soturna a gruta macabra que lhe rouba a paz.
Assim que adentra desembainha seu aço nobre, talvez crendo que seu brilho constante lhe guiará na direção certa.

Ouve ruídos assustadores. Chamados, assovios, risos... Sente que cada centímetro ali quer roubar sua vida, fazer-lo perder o foco, envergonhar seu propósito. Mas agora crê que deve concluir sua intifada. Precisa provar a todos que não é mais um menino, que agora é um valente, precisa então agir como tal!
Diante dele surge figura encouraçada. Um monstruoso e gigantesco guerreiro trajando negro, empunhando sua espada afiada e mortal. Ameaçadoramente cruel, terrivelmente cabal!
Obviamente assustado o guerreiro se lembra das palavras de seu mestre e crê que lhe pregara uma mentira, afinal este demônio não é nada?
Salta sobre o mal como que querendo esmagar sua origem. Desfere-lhe golpes adestrados, ágeis, potentes. Embora pequeno em relação ao seu oponente acredita que a luta pode, e será vencida pela sua fé.
Golpe após golpe, vai costurando a possibilidade de sua vitória, mas não consegue deixar de ouvir os rosnados do inimigo, sua respiração metálica; quase pode sentir seu ódio materializado...
Então, tomado de um gesto inacreditavelmente veloz corta a cabeça do inimigo negro fazendo-o cair!

Cansado, porém vingado, o jovem vai em direção ao seu troféu e quer como principal espólio de guerra dessa luta ver a face de seu algoz.
Sem se importar com o sangue abundante tornando ainda mais sinistra aquela cena, ele se ajoelha diante da cabeça do guerreiro vencido e lhe abre o elmo.
Assustado cai de sua própria altura, como que vencido pelo demoníaco guerreiro, mesmo depois de sua morte.

Embevecido pelo caos que lhe atrapalha as idéias, nota tardiamente que o que seu velho mestre lhe disse era real afinal. Dentro do elmo do monstro, havia jaz e desfigurada sua própria face como um maldito espelho lembrando-lhe quem é realmente seu maior inimigo!

Wendel Bernardes.

[livremente adaptado da cena do filme O Império Contra-Ataca (Star Wars: Episode V - The Empire Strikes Back), de 1980]

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Caminhos...





Quando abriu os pequenos olhos tristes percebeu que não estava em nenhum lugar familiar. Era, na verdade, uma bucólica paisagem dessas que povoam as mentes coletivas a respeito do paraíso. Havia sim um clima de paz, ou quem sabe, na verdade, ausência de guerra. A cena era envolta numa fina névoa, bela, bailante que trazia um ar misterioso a tudo.

Óbvio que estava preocupado. Perguntava-se se isso era real e tangível, ou se estava materializando um sonho. Decide levantar-se e sondar o lugar. Sentia medo, pois vivia algo desconhecido, mas era desbravador por natureza, não poderia simplesmente deixar o acaso tomar conta de si. Percebeu que usava roupas leves, como se o motivo de estar ali fosse justamente esse; caminhar...

Espelhos d’água, pomares, árvores ornamentais. Ruídos de pássaros e sons de outros animais indicam a vida abundante nesse lugar. Porém nenhum dos outros sentidos citados lhe rouba mais a atenção que seu olfato. Os cheiros são arrebatadores; flores, frutas, terra molhada. Todos os odores estranhamente reconfortantes, característicos de uma parte específica de sua vida: a infância.

Não sabe se se cansou de desbravar o jardim, ou se fora mesmo vencido pelo excesso de informações contidas desse paraíso, o fato é que, debaixo de uma arvore ancestral faz seu descanso, deixando seus olhos ainda desconfiados cerrarem em pausa para arrazoar a respeito do que lhe trouxera ali. Não saberia precisar o tempo passou, tampouco poderia dizer quanto levou para perceber novos ruídos ao seu redor; sons de movimentos na grama alta.
Explodiu-se o medo, misturado a uma ponta de esperança, e despertando do descanso, ao procurar pela origem dos sons nota, não muito perto, mas nem tão longe, uma figura feminina envolta em paz.
Mas não era qualquer figura, mas alguém muito, muito familiar.

Possui um sorriso iluminador, cabelos presos sem esforço e uma bondade exalada nos olhos que lhe fitam.  ‘Como pode ser ela? Que saudades...’
Ela lhe chega e o perfume que sentira a vida inteira lhe atinge como chuva de verão. Porém não lhe diz palavra. Apenas se assenta ao seu lado e lhe puxa pelo braço trêmulo para confortá-lo em seu colo macio, e confiável.

Ele possui a sensação que o mundo realmente poderia acabar ali e nada faria em seu pensar mais sentido do que findar seus dias nesse Éden de sentimentos, matando sua saudade dessa mulher ímpar.
Quando finalmente adormece profundamente sente seus medos mais cruéis e suas dúvidas mais profundas, serem curadas pela comunhão desse encontro.
Terapiando o que nunca abrira para ninguém – por não fazer sentido fazê-lo senão para esse ser – sentia-se entendido em cada palavra que não disse, em cada atitude que revelou apenas em estar com ela.

Não saberia mais uma vez precisar o tempo que isso levou, mas acorda cônscio que não foram apenas instantes dadas as circunstâncias. A leveza do corpo, a força da mente, a coragem para prosseguir. Olha em volta e a bela paisagem – agora sem a névoa – esconde o lugar que seu anjo particular foi. Mas sente paz a ponto de não se entristecer mais como foi com sua primeira partida. Sabia que de alguma forma, era tudo necessário para sua cura. Ensaia um tímido sorriso deixando seus olhos menos tristes.

Até que percebe agitação numa colina, coisa de uns quinhentos metros dali, então decide ir ao encontro das pessoas nessa subida, e no seu caminho ouve voz muito familiar ao seu lado:
-Está pronto?
Ele se assusta tanto pela proximidade, quanto em notar que conhece não somente a voz desse personagem de sua vida.
-O que você faz aqui?
-Bom, eu estou ‘aqui’ todo esse tempo, nunca saí de perto e foi você quem quis assim...
-Como assim?
Ele sorri confiante enquanto prossegue sua explicação.
-Eu vim para lhe ajudar com algumas respostas e uso essa forma tão familiar a você, pois sei que confia nele e é mais fácil fazer isso por você, como já disse, no seu interior foi você quem quis assim!

O homem lhe indica o caminho e começam ambos a passear mais lentamente enquanto aquele ser, notadamente mais elevado, lhe tranqüiliza ao passo que dúvidas austeras e perguntas recorrentes são respondidas.
-Mas porque tudo tem sempre que parecer tão difícil? – pergunta o confuso protagonista:
-Nada é tão confuso para quem enxerga a vida com o olhar do Amor. Se ele rege sua vida, embora tristezas sejam inevitáveis e as dores até freqüentes, nota-se que tudo é resultado das escolhas que se faz durante a caminhada, abençoadas por esse sentimento.
-Você está dizendo que sofremos porque escolhemos a dor?
-Estou dizendo que, se o Amor é a meta, nem a dor pode fazê-lo desistir de seus sonhos de nunca estar só.

Apenas quando ele ouve essas últimas palavras se dá conta que estava trilhando um caminho errado na vida. Fugia de tudo com medo da dor, mas notou que ela o seguiria sempre no desvio que escolheu tomar, ou qualquer fosse seu destino.
Percebera também que não estava morto, e que aquele paraíso nunca fora o céus, mas que fizera uma estranha, curiosa e indecifrável viagem em si mesmo e que o saldo foi muito positivo.
O colo da mãe, as palavras do coração... Tudo lhe refez em força para seguir adiante em seu caminho em direção a ele mesmo!

Wendel Bernardes.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Eles Estão Entre Nós... Liel.




A guerra é vivida num nível cada vez mais intenso. Baixas de ambos os lados, enfraquece a batalha. Cada guerreiro cônscio de seu dever fará de tudo pela causa.

Nova Iorque – Dezembro de 2024.

O clima é cada vez mais louco. Deveria ser inverno na América do Norte, mas o calor se intensifica. Em menos de dez anos, especialistas dizem que se terá aqui um ‘natal tropical’.
O mundo mudou muito nessa última década. Embora os governos mundiais detenham ainda certo poder, perderam completamente a soberania e o domínio ficou por conta de uma mega-instituição religiosa chamada “O Culto” que nada mais é do que um conglomerado de várias segmentações religiosas unidas em franquias sob uma mesma bandeira; o poder
Há ainda alguma resistência no oriente. O mundo árabe e os hindus lutam bravamente, mas a cada dia as alianças monetárias e os boicotes financeiros enfraquecem até mesmo aos extremistas mais radicais. A ONU perdeu sua força até ser apenas uma lembrança insignificante num mundo globalizado ao extremo.

Fala-se uma mesma linguagem no meio corporativo e cada pessoa é agora, literalmente, cidadã do planeta e o centro nevrálgico de tudo só poderia ser mesmo a Velha Maçã. Nova Iorque abriga o centro político, cultural e religioso do mundo e não desacelera nem mesmo para que haja veneração da figura central do Culto; O Ungido!
Mistura de homem e mito, esse carismático homem de aproximadamente 45 anos é praticamente unanimidade na Terra! Os homens o invejam, as mulheres o desejam, as lentes são por ele enfeitiçadas, os autores de auto-ajuda o definem como padrão de sucesso e a filosofia contemporânea o encara como o novo messias para um mundo pós-moderno.

Brooklin – 23/12/2024.

As casas de todas as classes sociais, inclusive as classes mais baixas, possuem toda a infra-estrutura que cada ser humano necessita – Karl Marx ficaria orgulhoso – a não ser, quem sabe, se não soubesse que todo esse beneficio veio justamente do que chamara de ‘ópio do povo’; a religião!

Em cada casa há agora uma bandeira da nova fé, e pelo menos uma foto de seu messias. E as pouquíssimas famílias que ainda não as tem, sofrem todo tipo de abuso humanitário.
Têm dificuldade de arrumar comida, passam calor e frio sem energia elétrica e o mais cruel... Falta emprego, serviço de saúde e escola para essa gente.
A resposta para isso? Bem... Os líderes afirmam que os convertidos devem comer o ‘melhor dessa Terra’ enquanto os ímpios já estão ‘destinados ao fogo do inferno’... Talvez essa metáfora defina bem a vida de Carey.

Ele é segregado na rua. Esqueceu-se da última vez que ouvira um ‘bom dia’ ou um ‘olá’. Um sorriso cordial então nem se fala. A ajuda secreta de alguns caridosos vizinhos vem na forma de serviços para ganhar pelo menos comida e alguns trocados de new dollar. Assim sobrevive.
Como é um homem de fé, não perde a esperança na humanidade. Com todos costuma ser gentil, e transparece uma pureza herdada sabe-se lá de onde...
Mas é claro que o perigo sempre está presente. Está numa semana má, não conseguiu trabalho nem ajuda da comunidade. Tudo ficará enlouquecedor em pouco tempo. Ele sabe que isso tem a ver com a incisiva política que os Centurions administram. Eles são uma espécie de policia global e executam suas ordens ao extremo. O cerco sobre ele está se fechando, logo o pior acontecerá!

É antevéspera de Natal, porém ninguém ousa comemorar uma festa ligada a uma das antigas religiões. Carey entra em casa e como sempre, faz suas preces ao seu Deus agora pagão, até que alguém lhe chama na porta.
-Quem é?
-Abra por favor, são os Centurions!
-Claro... Mas está tudo em ordem aqui, oficial.
Assim que abre a porta, cinco fardados sinistros adentram sua propriedade já agindo com truculência.
-“Em ordem”, infiel? Sua vida está fora do eixo!
-Me desculpe, senhor... Mas foi assim que decidi viver.
-Logo se vê que foi a decisão errada, meu caro. Você não passa de um farrapo humano! Mendiga trabalho e comida, e tudo isso por conta apenas de uma filosofia de vida...
-Devo discordar senhor... Tudo isso por conta de uma fé livre!
Todos gargalharam ruidosamente, menos obviamente Carey, que já imaginava o que haveria de vir após isso.
-Não viemos aqui para nos divertir com você infiel, queremos apenas lhe participar da novidade.
-Qual?
-Esta casa foi confiscada pela administração pública.
-Mas minha casa é particular, senhor. Até onde sei está quitada, pois se trata de uma herança... em qual acusação se enquadra sua...?
Antes de terminar sua linha de raciocínio o Centurion conclui:
-Eu poderia lhe enumerar muitas acusações contra você, dentre elas perturbação da ordem, falta de zelo com patrimônio tombado, dente outras...
Embora esse... ‘casabre’ esteja ‘regular’ como você ousadamente frisou, está assentado em terreno governamental, ou seja; pertence à Ordem!
Poupe-me o trabalho, infiel... ponha-se na rua!
-Não precisa prosseguir, seus convites serão descartados, senhor.
-Ora, porque meu caro? Quanta falta de consideração com quem ‘tolerou’ sua presença aqui até hoje.
-Consideração? Bom... já sei o que virá depois...
-Você tem algumas horas para sair e para lhe ‘ajudar’ vamos lhe poupar o trabalho com suas tralhas!
Dito isso, quatro dos Centurions começam a quebrar o que lhe sobrara de mobília. Carey está estático, não poderia mesmo ter outra reação, afinal qualquer ação contra a polícia desse novo mundo gerava sansões muito severas, até mesmo a morte em alguns casos.

Ao final de tudo, apenas as paredes estavam no lugar e a mobília do rapaz igual ao seu coração; em pedaços. Insatisfeitos os cinco lhe cercam portando armas elétricas e bastões de nocaute. Carey sabia a motivação real dos cinco. As horas que lhe prometeram para evacuação nunca seriam cumpridas.
Os golpes começam covardemente pelas pernas, querem vê-lo implorar de joelhos por sua vida.
Seguem-se sucessões de maus tratos que deixariam horrorizados os mais insensíveis dos homens.
Carey portava agora lesões diversas, edemas, hematomas, contusões e provavelmente algumas fraturas também.
Um deles agarra-o pelo pescoço, tirando-o do chão com força inumana. Espantado e dolorido, o jovem fita seu agressor e aguarda sua sentença de morte como cordeiro diante da matança. Qual não é sua surpresa quando nota o rosto de seu algoz transfigurar nalgo terrível e inimaginável pela mente simples do rapaz.
Pele esverdeada, olhos grandes e vermelhos, dentes semi-serrados. Seu espanto é ainda maior quando ouve a voz sinistra que lhe diz:
-Peça a morte, caminhante!
Ele luta para falar, afinal sua respiração está por um fio. Porém, embora seu corpo flagelado esteja mesmo fraco, sua vontade é férrea...
-Jamais – e concluiu;
Senhor, dá-me o destino que me julgares melhor, dito isso, desfaleceu sem ar.

Achando que o mataram, os demônios ignorantes mais uma vez gargalham continuamente, porém essa alegria parece passageira. Uma figura sisuda e corpulenta opõe-se entre os monstros e a saída.
-Um anjo? Quanto tempo não via um desses... Dizendo isso o chefe do bando puxa uma risada nervosa que não é seguida pelos demais. Todos sabem que um desses, embora raro, significaria problemas na certa.
-Veio levar o corpo do caminhante?
-Não seja tolo - disse outro – se está aqui, o mortal ainda vive.
O guerreiro alado abra sua boca e se manifesta:
-Pelo menos não são todos assim tão burros!
A fúria pelo insulto os faz tremer de gana por batalhar e armam-se prontos a luta.  O ser moreno de longos cabelos negros, usa em mãos lança mística, porém antes de singrar em direção a batalha lhes sorri dizendo:
-Não haverá quem sinta saudades de vocês, criaturas...

A luta desleal começa. Cinco grandes demônios contra apenas um anjo. Todos são exímios guerreiros e as cenas de violência têm por palco o casebre de subúrbio em meio aos entulhos dos móveis que os próprios demônios geraram.
Saltos, gritos de dor, sangue, feridas abertas e o primeiro demônio cai. Ele vibra seu bastão firmemente sobre seus ombros fazendo assim o segundo tombar, decepando-lhe a cabeça.
Os três covardes restantes ensaiam uma fuga, mas Liel lhes impede.
-É chagada a hora de vocês, vermes.
O líder deles lança um dos corpos dos comparsas mortos na luta em direção ao anjo visando ganhar tempo para a fuga. Liel desvencilha-se facilmente do engodo, saltando em direção a seu oponente agarrando-lhe pelo pescoço e lhe atravessa o abdômen com sua arma. Usando velocidade ímpar, estende suas asas atingindo outro fugitivo, ao derrubar-lhe, não perde tempo e lhe pisa a cabeça furiosamente.  Os atos de guerra desse anjo beiram a barbárie e não poderia ser diferente, já que seus inimigos lhe superavam em número e força.

O último, já quase em liberdade, chega a ver a luz da rua onde por instantes mantém a grata sensação da impunidade.
Nesse instante é agarrado pela farda e arrastado de volta pra dentro.
-Dê um recado ao seu meste-direto. Diga-lhe que as coisas estão mudando por aqui, e que seu até então bem sucedido levante de horror termina hoje!
-N-no-nós somos muitos - gagueja o demônio - sua guerra é inútil - revela o centurion.
-Quando foi que isso importou?
Terminado sua linha de raciocínio, o guerreiro místico devolve o demônio às ruas, onde certamente levará a noticia da derrota e o recado ao seu mestre. Obviamente seu destino será pior do que apenas morrer em suas mãos. Pensando assim, se vira e sorri ironicamente.

De volta ao interior da casa, junta os corpos podres banhados nesse sangue laranja e gosmento e só aí, saca sua espada que flameja assim que entra em contato com o ar.
Ele queima os corpos num fogo dourado e sobrenatural, que estranhamente apenas consome os corpos dos seres malignos, deixando intacta a casa já em desolação. Cada demônio é transformado em cinzas, logo depois bate forte duas vezes suas asas e as leva para longe, como se nunca estivessem no local.

Nesse momento Carey começa a acordar mas, surpreendentemente dá de cara com jovem de feições étnicas que lhe diz...
-Fique tranqüilo, eu vim ajudar.
-Quem...?
-Descanse, eles se foram, sou apenas um amigo.
Carey desmaia mais uma vez por conta dos ferimentos e da dor, mas agora está em bóias mãos.
O guerreiro, em sua forma de arauto, leva-o a uma reserva onde outros caminhantes na mesma situação de Carey são cuidados, se escondem e se curam.
Na reserva, discute-se os rumos do levante que planejam para trazer de volta a liberdade. Sabem que muito há de ser feito, mas o tempo de se esconder e correr está terminando
É tempo de guerra!!!!

Se você tivesse seus ouvidos adestrados, poderia agora mesmo ouvir o som dos tambores de guerra. Estão mais frenéticos do que nunca. Seu som é ouvido a quilômetros e seu reverberar agora faz a espinha de seus oponentes gelar de medo. Não há mais ordem para se esconder, a batalha se revelará... Em breve!

Wendel Bernardes.





sábado, 1 de junho de 2013

Eles Estão Entre Nós... Hyllel e Kallore.




Uma lança se ergue enquanto garras monstruosas incidem contra o adversário. Brados e urros mesclam-se ao som do aço rasgando a pele... Mas nem sempre é assim.

Moscou – 1973.

O frio toma as ruas numa nevasca furiosa e hostil. As almas sãs estão agora completamente agasalhadas sentindo o crepitar da chama alta na lareira. Mas Piotr segue seu rumo completamente solitário na missão que outorgou a si mesmo.
Saiu da casa quente e confortável num bairro bem situado para dar algum tipo de auxílio aos abandonados à margem da sociedade, num subúrbio qualquer onde filosofia e política perdem a voz.

Lá o frio é ainda mais cruel já que a pobreza impede a manutenção de um sistema decente de aquecimento – que é alias indispensável nessa parte do mundo. Famílias costumam até queimar seus móveis e objetos inflamáveis na esperança, ás vezes vã, de fazer a chama viva por mais um tempo.
Sempre com uma palavra amiga e um sorriso, Piotr leva sempre o que pode. Agasalhos, comida e vez ou outra até ajuda a obter lenha. Quando pode, leva ele mesmo em sua caminhonete, adquirida justamente visando a coletividade que o governo diz manter.
Porém, gestos apaixonados do piedoso homem de meia idade, embora bem vindo a cada pobre que ajudou, não é bem visto por alguns. E estes em particular, têm o poder de mudar essa realidade de uma forma inimaginável.

Piotr chega ao seu destino imbuído de fé, coragem e compaixão, mal sabendo o que lhe aguarda.
É uma noite estranha essa - pensa ele - já que não é assim tão tarde e as luzes estão apagadas. Nesse horário sempre há alguém disposto a receber auxílio, e uns poucos outros a ajudar na mão de obra, ainda mais ajudar a alguém que já é amigo dessa comunidade.
Ele bate nas portas, chama, assovia sem obter resposta.
Tenta então noutra casa, e noutra, e noutra, porém a mesma cena se repete. Só ecos de seus próprios ruídos são audíveis.

Até que figura sombria lhe aparece do nada, trajando sobretudo negro, chapéu de aba e estranho sorriso enigmático.
-Assustou-se, amigo?
-Desculpe, na verdade sim... Estava fazendo tanto barulho na esperança de ser ouvido que nem ouvi sua chegada na neve.
Nesse momento se vira e quando olha no redor do estranho, percebe que a neve em seu entorno está intacta. Sem pegada alguma ou rastro qualquer que indicasse de onde teria vindo estranha figura.
-Não se preocupe, estou acostumado com a reação de todos em relação a mim... Noite fria para um passeio, não?!
-Na verdade vim ajudar alguns amigos, o senhor também não é daqui, não é?
-Absolutamente meu amigo, sou daqui sim. Percorro essas paragens há tanto tempo que me acostumei a ver geração após geração declinar, uns sob a vida dura das ameaças da vida do homem simples, outros simplesmente perderem-se nas trevas... É um homem religioso, amigo?
-Não me considero assim exatamente, apenas sigo meus instintos e alguns bons costumes. Alguém disse certa vez, que a maior religião seria ajudar aos necessitados. De certa forma é o que faço, mas não é apenas uma obra de fé, mas sim, de compaixão!
Perdoa-me, acho que devo ir já que não posso ajudar ninguém hoje, vou fugir desse frio... Uma boa noite!
-Ah, mas poderia me ajudar então?
-Ajudar? Sim... No que posso lhe ser útil?
-Simplesmente me dando uma carona...
-Ah, claro, entre...

O sujeito com ar de desdém empurra os donativos não usados nessa noite e ajeita-se como pode na caminhonete.
-Mas pra onde o senhor vai mesmo, se posso lhe perguntar...?
-Em breve você saberá, apenas dirija meu caro.
A petulância do estranho lhe incomodava, mas aceitou tudo como parte do que lhe cabia para aquela noite. Tinha realmente um coração nobre esse Piotr!
Cerca de vinte minutos de estrada, com pouca neve que insistiu em precipitar, o sujeito lhe apontou casa grande, com ares aristocráticos, porém visivelmente atingida pelo tempo.
-Ali, por favor.
-Estranho... eu passo aqui faz algum tempo e nunca notei essa casa.
-Não há nada de estranho nisso, notamos apenas o que queremos ver nos cenários em que vivemos. Tudo obra da subjetividade.
Ele decide se calar diante dessa declaração. Manobra seu carro e diz:
-Pronto.
-Por que não entra e me faz companhia num chá, café ou algo mais forte?
-Sinto muito, mas...
-Creio que devo insistir, meu caro Piotr.
Ele se espanta que a figura lhe saiba o nome e por conta disso o segue até a velha mansão. Não sabia se fora apenas curiosidade ou algo mais lhe impulsionara, mas obedeceu a ordem quase como se precisasse disso
-Aqui é sempre mais quente.
-... Como sabe meu nome?
-Sei muito mais do que apenas seu nome, caminhante!
-De que me chamou?
-Aquiete-se. Sei de sua compaixão amenizando a dor desses desgraçados, de sua fé no homem, na sua esperança de um mundo melhor, essas bobagens todas... Você é sectário demais! É por conta disso que vim pessoalmente acabar com sua cumplicidade com o ‘bem’, humano!

Dito isso, o homem já estranho, agora se revela na frente de Piotr. A cena sui generis dura instantes e logo diante dele está, no lugar do fidalgo, criatura com mais de dois metros seguramente, pele acinzentada, cabelos ralos, olhos esbugalhados, garras acentuadas porém, mantém estranhamente o sorriso soturno e sínico de sempre.

-Meu Deus, o que é isso?
-Não tente fugir, caminhante. O que agora paralisa seu corpo inútil não é apenas o medo. Sinta meu poder agindo em você.
Piotr não consegue mesmo se mexer, e sente agora dor aguda no seu cérebro e ao mesmo tempo, algo faz que seu sangue ferva nas veias. A dor é tão desconhecida quanto indescritível.
-Meu Deus, me ajude...!!!
-Cale-se boçal... Seu destino está traçado e sua morte é certa... Levarei sua alma comigo para o inferno!
Nesse momento ouve-se terceira voz que se revela dizendo;
-Como você pode dar por certo algo que nem mesmo teve fim, demônio?
-Quem está aí? Revele-se, eu ordeno!!!

Das sombras de uma ante-sala surge ser iluminado, trajando vestes simples, rosto de homem comum, cabelos curtos, expressão firme, barba rala e um belo par de asas pálidas...
-Você não pode se intrometer aqui, Hyllel, ele é uma vítima limpa!
-Demônio, desde a queda sua visão do que é limpo ou sujo foi de fato comprometida. Largue o controle da mente do caminhante... Já!
Dizendo isso, o guerreiro alado ergue o braço em direção aos dois e uma guerra invisível tem inicio. O demônio, visivelmente fraquejado com a aparição angelical, começa a expressar ares de dor e de súbito, solta um grito aterrador enquanto é obrigado a largar o controle mental que matinha em Piotr.
Caída e humilhada a criatura volta a ter uma aparência humana...
-O que está fazendo aqui, guerreiro de luz? O tratado me dá plenos direitos de explorar essa gente.
-Um tratado firmado entre um ex-governante delirante diante de sua figura assombrosa? Ora, com quem você pensa que está lidando, Kallore? Não sou um dos seus para cair na sua lábia suja, e estou aqui atendendo a prece do caminhante.
O anjo dotado de uma autoridade ímpar prossegue em sua sentença.
-Você bem sabe que diferentemente de meus irmãos eu não preciso de lâmina espiritual para lhe destruir, demônio.
-Ora... É vaidade que noto em sua afirmação Hyllel?
-Eu não uso poder senão o que me fora dado, criatura profana. Não use seus engodos para ludibriar a mente de Piotr mais uma vez. Deixe já esse lugar!
-Essa casa, é minha!
-Nada aqui pertence a você, criatura insana... Suma!

O brado de Hyllel cria um vórtice quase imperceptível a olho nu, porém as emanações são sentidas facilmente em todo o ambiente e até Piotr, pasmo com toda a cena surreal, sente forte compressão no peito. Quando procura por seu agressor nada mais encontra.
Ele tenta erguer-se e conta com a ajuda de Hyllel para tal.
-Segure meu braço, caminhante.
-Porque me chamaram assim?
-Simples você está trilhando pelo Caminho, não é mesmo? Mas,  duvido que esta seja sua única pergunta, estou certo?
Apenas o olhar do homem responde a retórica do anjo.
-Bem, você agora está ciente que existe um mundo onde coisas sobrenaturais acontecem...
-Isso é incrível!
-Incrível é ter alguém que por pura compaixão, simplesmente abdica de seu conforto pondo sua própria vida em risco apara ajudar ao próximo. Por isso me ordenaram em seu auxílio. Você é o verdadeiro anjo salvador aqui.

Piotr observa as asas lindas e vastas do guerreiro de estatura mediana se dobrarem e sumirem em sua frente, tornando o anjo num homem de aparência costumeira, normal.
-Ainda há muito a fazer. Duas guerras distintas estão se formando, Piotr. Uma você já escolheu seu lado quando decidiu ajudar a esses pobres coitados, e por conta disso alguns serão postos a lhe ajudar..
-Será incrível, mas e a outra guerra?
O ser místico, agora agindo como homem qualquer estende o braço, descansando-o no ombro de Piotr e prossegue:
-A outra guerra, meu amigo, já dura uma eternidade, e nesses dias que virão terei muitos compromissos.
-Em quê?Se posso perguntar, claro...!?
-Proteger você e os que estarão por despertar pro trabalho das hostes que Kallore irá convocar!
-Não entendi porque não o derrotou, entende?
-Está me perguntando por que não o matei?
-Sim..
-Embora seja um guerreiro, apenas cumpro ordens e o demônio será peça fundamental para o plano que se desenrola. Mas tudo correrá bem, agora você sabe que sempre houve um Alguém em seu auxílio, não?
-Na verdade, nunca duvidei.
O anjo sorri confiante que agora ganhou um aliado a sua altura.

A manhã começa a despontar no horizonte gélido, Piotr agora mais cônscio de sua missão e das implicações que ela trará retorna para sua caminhonete e quando procura por Hyllel, vê ainda mais duas silhuetas ao longo da colina ao lado da mansão.

A batalha não pode parar enquanto houver justificados em perigo. Cada guerreiro sabe que as armas diversas são eficazes nessa peleja e que a prece tem um poder certeiro em seus efeitos.
Mas, onde será próxima etapa da batalha?

Wendel Bernardes.





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