quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Salvo Pelo Amor...

Ele tinha apenas 12 anos e achava a sua vida um tédio... Tudo era motivo pra ficar “bolado”. Sua casa não era lá grande coisa, mas veio de uma família boa e honesta. Mesmo assim achava a vida um saco.

Porque sua casa não poderia ser melhor?
Porque seu pai não tem um carro?
Porque tudo não era como na casa ao lado?
Lá tem ar condicionado no quarto das crianças! Eles fazem ‘computação’ (assim era chamado o curso de informática em 'Eras Passadas'...), inglês, natação... Vão até de van para a escola.

Falando em escola, claro que nada era “perfeito” lá também.
Ele era o próprio conceito do “bullying”. Magricela ao ponto de se envergar ao sabor duma brisa de outono. Cara espinhenta, deixou de ser chamado ‘carinhosamente’ de “Chokito” e migrou (obrigatoriamente, claro...) para a alcunha de “Chapisco”. Preciso dizer mais?

Ninguém queria se relacionar com ele desde a terceira série. Bom, ninguém senão a Carlinha. Era menina boa. Boa filha; a irmã do meio, amada pela mais velha e exemplo para a caçula. Tirava ótimas notas, ganhou bolsa em ciências na quinta série e pretendia fazer o mesmo em quaisquer outras matérias.

Ela gostava dele, achava-o engraçado, curioso... e de certa forma enxergava seu jeito ranzinza como um ‘charme meio ao contrário’. Coisa de doido pensar assim, mas vá entender a cabecinha de Carlinha.

Ela foi gentil tantas vezes com ele que acabou vencendo-o pelo cansaço. Começaram a namorar na sétima série, ele com 14, ela com 13 (mas possuía maturidade e doçura para os dois, diga-se bem...).

As amigas quase tiveram espasmos múltiplos ao saber do namorado que Carlinha arrumara.
- O Chapisco? Cê ta doida? Num é porque ele é feio amiga, mas porque é chato que dói!!
Ela se divertia com as amigas rindo dela mesma e foi obrigada a concordar com a galera que ele era mesmo chatinho e bem feinho, mas agora era tarde, estava caidinha por aquela criatura.

Chapisco tava indo na onda até o dia em que brigaram, e brigaram feio... Alias era tudo culpa dele mesmo. Como poderia Carlinha se indispor com alguém, mesmo como ele? Impossível!!!

A casa ficou mais chata, a escola mais tediosa e a zoação dos moleques ainda mais sacal! Ele agora não tinha mais quem o ouvisse, quem sorrisse de seus lamentos, quem o abraçasse nas reclamações familiares e quem o afogasse livrando-o de sua própria chatice.
Percebeu que estava amando. Na verdade, sacou que estava viciado na empatia e doçura que Carlinha exalava pelos poros.

Hoje com 29 anos ainda tem seu charme pessoal.
Chatinho como é quase não recebe convite de seus companheiros de trabalho para as happy hours depois do expediente.
Sua família quase se esquece dele nas datas festivas.
Ele mesmo às vezes quase não se aguenta.
Isso mesmo... quase...
É que Carlinha agora faz parte definitivamente de sua história. É ela quem dá graça à sua vida descolorida.

Chegou em casa ontem e ouviu dela;
- Como foi o trabalho hoje, amor?
- Uma chatice como sempre...
Ela sorriu, maneou com a cabeça ao passo que colheu os sapatos espalhados pela sala e foi preparar-lhe o banho enquanto gratinava perfumada torta de frango para o jantar.

Ele a olhava de costas enquanto se afagava em seu sofá (quase) sem graça, deu meio sorriso e se sentiu salvo pelo amor daquela mulher doce...
Salvo pelo amor de Carlinha.

Wendel Bernardes.

(Postado originalmente no BORA LER, Blog da amiga Regina Farias.)

2 comentários:

  1. Oi Wendel!
    Que escritor hein?
    Gosteiii de ler....rsrs.
    Era mesmo, "computação" na nossa época...rsrsrs.
    Ei... a Carlinha me lembrou uma amiga com esse nome e com esse jeito.
    Realmente, esse foi salvo pelo amor. Ainda bem que sempre tem uma que gosta dos "chatos"....rsrsrs.
    Desculpe a brincadeira, mas foi inevitável.
    Amigo, fiquei feliz em vir aqui, mas olha a demora que foi né?
    Essa semana foi muito corrida, tô aproveitando o feriado pra dar uma visitada nos amigos blogueiros.
    Abraços!

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  2. Cida, fique à vontade pra vir quando puder e fazer quantas 'brincadeirinhas' quiser... (kkk) essa é a proposta do Blog. falar da vida sem a dureza da religiosidade, porém sob uma ótica positiva.

    Legal saber que a "Carlinha" da ficção lembrou você de sua amiga, isso prova que nem sempre o que escrevemos por aqui fica apenas nas 'lendas'.... Tomara que ela tenha 'salvo' a vida de alguém também!

    Muito feliz em te ver aqui. Bom final de semana e fique tranquila, quando puder faça uma visita, mas se num der os amigos entendem, né?

    Abraços pra você e sua família!

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Aqui escreve-se sobre ficção, ou sobre fatos à luz da mente do escritor. Assim sendo, cada um deles pode ser tão real quando uma mente pode determinar.
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