segunda-feira, 27 de maio de 2013

Eles Estão Entre Nós... Arata/Lebiel



Não se ouve mais o som de trombetas de guerra, os tambores emudeceram. As bandeiras tremulantes estão a meio-mastro. A tristeza se faz lágrima até entre os eternos.

Rio de Janeiro – Século XX.

Samba, flores tropicais, praias maravilhosas e boa comida. Ele sempre acreditou que isso fosse mesmo pra ‘inglês ver’. Nunca teve tempo de ficar ‘de papo pro ar’ como se diz por aqui. Nasceu na classe operária e caía na luta tudo dia pra tentar ser alguém na vida.
Tudo andava bem na sua caminhada, afinal a batalha pra romper fazia parte de um todo. Era um cara sóbrio, e dificilmente ficava viajando nas idéias; pé no chão mesmo. Só sonhava quando o assunto era montar uma família. Aí sim, ele idealizava uma esposa amável e compreensiva. E com ela teria tantos filhos quantos pudessem bancar.
Carlos era mesmo gente boa, um cara ‘do bem’ como adoram dizer hoje em dia (como se alguém se declarasse ‘do mal’, pode?).

Sua mãe, uma senhora respeitadíssima na comunidade, era a responsável pela criação desse mulato de quase trinta. Mulher digna e honesta, apenas ‘errou’ quando escolhera o traste do pai do Carlinhos. Esse sumiu na poeira depois da notícia da gravidez. Porém criou o moleque com honra, respeito e um amor incomensurável. Nunca se esqueceu de lhe mostrar o caminho da fé, e de certa forma, sempre soube que seria um homem importante. E não é que era mesmo?

Carlos era funcionário de uma super construtora, que potencializava seus trabalhos com a grande iniciativa de crescimento imobiliário por conta dos programas habitacionais nacionais. Dizia que ‘subir na vida’ por enquanto, era levar o carrinho de tijolos até o vigésimo andar, ainda em término e sem elevador. Era um piadista!

No trabalho, mais ou menos uns três anos antes, conhecera Arata. Rapaz de origem oriental e estatura mediana, mas com cara de brazuca, queimado de sol de tanta labuta até lembrava um pouco nossos índios.
Era gente boa toda vida. Tinha por Arata certa simpatia até o dia em que tudo aconteceu.

Era final do mês e Carlos estava por demais preocupado. As contas não batiam e já sabia que teria de entrar no tal do cheque-especial pra poder fechar o período e bancar as dívidas, todas já no vermelho.
Talvez por conta dessa loucura toda não poderia notar a parede se descolar e vir a toda na sua direção desde o terceiro andar da obra. Estaríamos falando agora de sua morte se Arata não tivesse surgido como um raio pra lhe puxar com agilidade e força de um gigante.

Daí em diante a amizade nasceu fraterna, como verdadeiros irmãos separados na maternidade. Onde um estava, estava lá o outro. Em certos momentos pareciam pai e filho também, mesmo sem muita disparidade de idade aparente. Simplesmente eram um pro outro o que se precisava para o momento de ambos, e vida assim foi.

Hoje Carlos se lembra com carinho da conversa que tiveram tempos atrás na hora do almoço no trabalho.
-Aí, cara...
-Fala...
-Já se pegou pensando alguma vez se você nasceu com algum ‘destino maior’?
Arata fitou-o com olhar único.
-Todos os dias, meu velho. Mas me conta aí; o que se passa na sua cabeça?
-Sei lá cara, pode ser bobagem minha, mas creio que algo precisa mudar na minha vida, sabe? É como se do nada, eu começasse a pensar numa direção, como minha mãe sempre disse; como é mesmo?
-Um propósito!?
-Isso!
-Quem sabe o seu propósito seja encaminhar pessoas na vida, mano?!
-Como um orientador de escola, ou coisa assim?
-Na verdade, pensei nalgo parecido como um ‘irmão mais velho’ pra alguns, tipo isso.
-Mas em quê? Ajudar na profissão?
-Pode até ser, mas imaginei coisa mais abrangente.
Arata põe-se a falar como que preparado há séculos para aquele exato momento. Sem ser prolixo, explica seu precioso ponto de vista.

Sem saber, absorto na conversa, Carlos é observado por criatura que o contempla como que o estudando. Só que seu foco não é apenas em Carlos e suas dúvidas existenciais. Seu alvo principal é Arata!
Passaram tempo demais conversando e notaram o quanto estavam atrasados para voltar ao trampo. No final do trabalho andaram juntos até a plataforma do metrô. Carlos entra e Arata se vira na estação quase vazia. Era tarde, já que estavam numa obra acelerada, faziam serão. Já estava quase na hora de fechar o metrô.

O clima estranho demais faz Arata entender que aquilo se tratava de um ambiente possuído pelo mal. Olha mais ao fundo e percebe vir em sua direção um ser obviamente espiritual, do alto de mais de dois metros certamente, e ao se aproximar, nota que suas vestes parecem-se mais com roupas de bárbaro.

Arata se espanta com a ousadia do demônio em aparecer ‘revelado’ assim naquele ambiente, mas não se amedronta.
Numa voz macabra falando como numa tediosa melodia aguda, o ser pergunta:
-Preparado para seu destino, arauto?
-Meu destino nunca esteve em suas mãos, Ottar!
Ouve-se uma gargalhada animalesca e os pouquíssimos presentes, mesmo sem ver nada, fogem por puro medo do desconhecido.
Ottar ergue uma besta e dispara sua seta mortal, porém o alvo desta vez não é Arata, mas sim o painel de força que se encontra um pouco atrás do pequeno arauto.
-Agora estamos no meu ambiente, pequenino; as trevas!
-A escuridão nunca me assustou, potestade. Você sabe muito bem como me adapto aos ambientes.
-Por pouco tempo pequeno guerreiro, por pouco tempo!
Dito isto, o covarde gigante convoca seus asseclas. Demônios de várias classes aos pares. Contavam na verdade, dezenas deles.
O pequeno com feições orientais, com um brado, libera seu par de asas cinzentas.
-Ah, o arauto volta às suas feições de anjo, não é “Arata”?
-Me chame de Lebiel, infiel!

Nesse exato instante, cada fera mística cai sobre o guerreiro com ferocidade ímpar. Ele se protege como pode. Garras e dentes pontiagudos rasgam sua carne, seu sangue jorra de forma alucinada. Se tivesse em mãos seu aço místico a luta atingiria outro patamar, mas tudo isso faz parte do plano covarde de Ottar. Enfrentar alguém 'despreparado' aumenta as certezas da vitória.

Socos, chutes, giros velozes, golpes de asas.... Ele luta com bravura inigualável e cada demônio, antes confiante da vitoria, percebe a honra que há no pequeno guerreiro que luta de mãos limpas. Porém ele sabe que não resistirá por muito tempo sem uma arma, ainda que improvisada.
Um a um, ele derruba cada demônio com esforço hercúleo. O adestrado guerreiro faz uso da cada utensílio que aparece em sua frente. Todos, tornam-se armas letais! E assim ele pouco a pouco logra êxito, até restar apenas...
-Ottar... Agora somos apenas eu e você!
A potestade sai das sombras, enquanto desfila sua cara desfigurada com voz nasalizada e com tom doentio:
-Tem certeza, ser inferior? Suas forças estão minadas pela luta destemida que conduziu, ou será que suas forças se foram por conta da vida ‘fácil’ que possui como arauto, vivendo escondido entre os caminhantes? Admira-me não ter sido morto pelos demônios inferiores...
O guerreiro angelical se ergue mesmo com feridas lancinantes, e lhe fita com olhar irado, apenas digno dos mais bravos:
-Me explique demônio, como um ser eterno pode ficar enfraquecido em poucos anos como arauto, se lutou milhares de anos como guerreiro?
Não me desonre com seus artifícios mentais, porco!

Eles se encaram, se medem, se estudam, até que Ottar inicia sua tentativa de frustrar os sonhos do Ser maior.
A luta é animalesca. Ambos são guerreiros eficientes e farão de tudo para a defesa de suas respectivas missões. Eles arriscarão a própria existência se preciso for.

A batalha épica já dura horas num balé amedrontador e duro. Ambos, obviamente cansados, querem terminar logo com isso, porém Lebiel sabe que a paciência precisa ser exercitada contra um demônio tão descabido como Ottar.
O anjo conta que em algum momento ele confiará em sua força e estatura e fará algo errado.
Mas, inexplicavelmente o guerreiro alado sabe que de alguma forma, o sujo tem alguma razão. Ele se sente enferrujado, exausto.
E desarmado de seu aço místico, sabe que apenas um milagre o fará vencer esse gigante demoníaco.
Olha para o céu e balbucia por ajuda em prece. Mas antes que miríades despenquem do céu em seu auxilio, Ottar aproveita a distração e atravessa o pequeno anjo com uma cimitarra negra sobrenatural! Ele não grita, mas a dor que sente só poderia ser suplantada pela vergonha....

Ottar sabe que deve se recolher logo. Matar um anjo possui implicâncias seríssimas e conseqüências mortais. Mas antes, ouve a voz sibilante de Lebiel que diz com leve sorriso:
-Você perdeu demônio burro! Com minha morte, dezenas dos meus irmãos ainda mais poderosos que eu, virão em sua caça. Os planos do Eterno se cumprirão mesmo em minha morte!
O demônio se agacha, furta seu aço negro do moribundo guerreiro e parte da mesma forma que surge; covardemente!

Há um hino de dor no ar quando os anjos chegam a tardio reforço. Eles choram, lamentam e fazem promessas de vingança diante do corpo do irmão ainda quente. Até que um deles, Agniel, se voluntaria para estar no lugar de ‘Arata’ na vida de Carlos.
-A obra de meu irmão não será em vão! Viva os sonhos do Eterno!!!
Erguem suas armas e bradam ao anjo morto.

É domingo de manhã quando rapaz alto e magro bate a porta de Carlos.
-Bom dia...
-Sim?
-Vim te trazer noticia triste, amigo. É sobre Arata...
-Ele...?
-Sim, infelizmente nosso amigo partiu.
-Como aconteceu?
-Não é tão importante agora, Carlos, mas saiba que tinha grande apreço por você e que seu desejo certamente era ver cumprido em ti, seu destino, o propósito que vocês conversaram tanto.

Ele se vira, e com um semi-sorriso se despede, porém o rapaz mantém a sensação que o verá de novo.  Mas muitas perguntas movem seu pensar. E quanto a conversa com Arata, como ele poderia saber de tudo?
Parece que realmente existe entre céu e terra mais coisa do que imagina sua pequena filosofia.

Carlos fecha a porta, abre o coração e pergunta a Deus o que virá? A resposta em seu coração diz que apenas Ele realmente sabe. Embora essa perda aponte para uma derrota, a guerra haverá de continuar. Onde será da próxima vez?

Wendel Bernardes.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Eles Estão Entre Nós... O Poderoso Auriel.



Fileiras se perfilam. Há tambores que roubam o som dos trovões. A ira no olhar do inimigo, por mais notória e significativa, não faz com que nenhum guerreiro sequer sinta medo. A ferocidade da batalha apenas cerca o vencedor.

Europa – Século XVI D.C.

Os ventos trazem boas novas. São ainda pequenas, porém importantes mudanças no mundo. Embora os impérios surjam cada vez mais ferozes, aqueles que se sentem livres, levam sua liberdade a sério!
Ele é um simples lavrador. Anos a fio buscando o sustento dos seus. Luta para sobreviver com as sobras do que planta, afinal o melhor de seu trabalho acaba mesmo nas mesas dos poderosos. Seja nalgum palácio, seja num mosteiro rico.

Seu velho pai, mesmo igualmente pobre, ensinou-lhe coisas preciosas; ler, escrever e... pensar!! Assim, possuidor de parcos recursos, mas de espírito nobre, ele se opõe em seu coração a todas as corrupções vigentes em sua época. E não são poucas.


Ouviu-se em determinada corte os gritos dum clérigo poderoso, que de tão preocupado com os rumos (dos cofres) de sua religião, esbravejava aos quatro ventos, maldições indizíveis até mesmo a um camponês, um bucaneiro, ou até um guarda de infantaria.
Seus planos seriam postos em prática antes que ventos reformistas sequer atravessassem as fronteiras do reino. E ele sabia que o ‘bom exemplo’ deve ser aplicado onde mais pode possuir eficácia; nas classes mais baixas!

Embora triste com os rumos da fé, ele une os seus em prece. Inicialmente esposa e filhos lhe servem de congregação, mas pouco depois amigos e vizinhos lhes fazem companhia. Na pequena vila todos conheciam a piedade e o zelo do homem simples ao falar de coisas importantes descritas nas Escrituras Santas, que ele mesmo traduziu e leu a cada um que sedento lhe pediu.
Possuíam uma estranha ligação, como sagrada simbiose, ou comunhão fraterna. Não havia entre eles mais pobre, ou remediado. Cada homem exatamente igual ao seu semelhante.

Porém, o mal assume formas com contornos belos mascarando-se de bem, simulando piedade. O clérigo, sabedor da filosofia que partilhava tudo na pequena vila, adiantou-se e mandou prender o pobre homem, inicialmente ‘apenas para uma lição’, mostrando assim sua ‘benevolência e misericórdia’.
Mas o pobre homem, não desistiu de sua liberdade. Assimilou seu flagelo, e mais uma vez gozando de sua ‘liberdade’ pôs-se a fazer o que sempre fizera, ou seja, continuou a comungar das palavras santas, mas por consciência, dispensou os que não seriam do lar, achando assim que geraria menos dor e mal aos seus semelhantes. 

Cônscio dessa nova realidade o clérigo, imbuído de inveja, ou quem sabe ainda de sentimento mais nocivo, não iria deixar de demonstrar seu poder e toda a ira por ter sido menosprezado por tão simples figura. O poder da coroa e da fé não poderiam ser zombados assim, principalmente pela rebeldia de um camponês!

Acordou num susto como da outra vez, só que agora os guardas com lanças em punho notadamente não possuem a mesma motivação de antes. As tochas que possuíam nas mãos não pareciam ser apenas para iluminar o caminho na noite fria.
A brutalidade torna-se a bandeira e as desconfianças confirmam-se. Enquanto ele é levado cativo, amarrado pelas mãos atado a um cavalo, olha para trás e contempla sua choupana arder, iluminando a madrugada, confirmando o horror da força do opressor.

As feridas múltiplas, principalmente as internas o fazem ceder e seus olhos cerram-se como que buscando esquecer-se de tudo. Acorda atado a um poste. A escuridão e o cheiro indescritível confirmam que está numa masmorra, desta vez, ainda mais sinistra que a anterior.
Assim que seus olhos acostumam-se com a falta de luz, percebe coisa estranha e inimaginável até para a mais fértil das mentes provincianas.
São olhos! Acesos, vermelhos como fogo e mergulhados no mal. Ele apenas sente um frio que percorre sua espinha e numa tentativa natural tenta tranquilizar seu coração, até que ouve rosnados, e em meio destes uma voz ainda mais terrível e indescritível.

-O que fará agora, caminhante? Seu Deus abandonou-o junto de sua liberdade...
Ele apenas tenta localizar, sem sucesso, o locutor dessa sentença.
-Eu sinto seu medo e não é sem razão, sua morte está próxima!
Sombras o circundam e nesse momento ele percebe o terror que pinta o contorno de cada criatura, certamente, nenhuma delas conhecidas pelo homem, ou pelo menos não catalogadas.
Ele ensaia uma prece entregando seu espírito e quem sabe, pedindo a Deus que morrer nas mãos desses monstros não seja seu destino.
Subitamente, algo realmente inesperado acontece.
Uma luz assustadoramente intensa enche o ambiente outrora mergulhado em trevas. E surge ele! Alto, negro, de roupas tribais, longas asas alvas e uma cintilante espada nas mãos.
-Ninguém toca no caminhante!
-Auriel, murmuraram os demônios...
-Eu disse ninguém, ouviram?
-Ora Auriel, irá libertá-lo?
-Minha missão não lhe diz respeito, cão!
-Fiquem calmos, ele não pode contra todos nós, sugere um deles protegido pelas sombras restantes.
-Quer apostar?
Silêncio profundo.

O guerreiro decide não mais aguardar e vibra seu aço místico por cima de sua cabeça e abre suas asas como que protegendo o pobre flagelado. O brado que solta faz metade dos demônios recuarem, a outra metade não recua por um único motivo; falta de tempo hábil. Foram absolutamente todos atingidos, partidos ao meio, estripados, mutilados...
A voz outrora horripilante, agora sem confiança alguma, profere a seguinte promessa antes de sumir nas sombras:
-Haverá outra oportunidade, guerreiro...
-Vou aguardá-la ansioso, demônio!
Sumiram... fugiram agindo covardemente, como sempre.

-Você veio me soltar? Sussurra o camponês numa mistura de alívio e espanto.
-Sinto, amigo... mas não.
-E o que veio fazer?
-Lhe proteger de perecer nas mãos deles, mas não posso livrá-lo de seu destino, porém, lhe trago boas novas.
-Novas?
-Há um levante na fé, seu exemplo de amor e caridade contaminou a outras, em breve esses campos estarão prontos para a seara, entende?
-Embora nunca tenha pretendido ser um exemplo, entendo perfeitamente...
-E não é tudo..
-Sim?
-Trago dois recados para você de seu Mestre.
-E...?
-Sua esposa e filhos estão em seus braços e felizes por sua atitude.
Ele não profere palavra, mas as lágrimas que correm como riachos em seu rosto traz a mensagem de alegria que explode em seu coração!
-E o outro recado?
-Seu lugar, amigo... Também está reservado e seu Mestre sente saudades suas.
Foi o único sorriso que ele usará pelo resto da vida.

Auriel continua de guarda o resto daquela noite. Não exatamente por acreditar que os demônios irão voltar, na verdade ele sabe que o ‘recado’ a eles já foi dado. Ele permanece em companhia, por solidariedade e vê que a exemplo de outros mártires, o camponês canta canções alegres mesmo depois do susto e do medo.
Ele sabe que quando a manhã despertar, sentirá a maior dor física que jamais sonhara, porém ao menos, seu espírito estará livre!

Em outro lugar, um farfalhar faz fundo ao som do aço místico cortando carne pútrida. A guerra jamais termina. Onde agirão da próxima vez?

Wendel Bernardes.










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