domingo, 16 de junho de 2013

Inimigo...

Ele está cansado de esperar, afinal de contas é um homem de ação, um guerreiro! Seu coração anseia tanto por respostas quanto em sair do marasmo.

“Aguarde” - ele ouve de seu mestre – “seu coração ainda não está pronto para o que virá...”
Embora ele encontre sabedoria nas palavras do ancião, tudo lhe está confuso, nublado. Seu sangue praticamente ferve nas veias. Ele se levanta pronto para sair e no instante seguinte, se senta mais uma vez.
Não há medo em seus gestos, apenas a inquietação peculiar dos jovens.

Seu mestre sabe que tudo pode ser posto em risco. Que seu ímpeto pode arruinar não só a vida de seu amado discípulo, mas de todos que os cercam. Porém nesse momento confiar é a única coisa que lhe resta. Apenas acompanha a errante atitude de seu pupilo até que...

-Mestre, eu não agüento, devo seguir meu destino!
-Seu destino está em suas mãos, porém deve se lembrar que sobre seus ombros está não apenas o seu desejo, mas o destino dos seus. Um passo errado e tudo que você ama, desaparecerá!
-Mas não consigo esperar mestre, devo prosseguir.
-Nem sempre ouvir nosso coração é o bastante jovem guerreiro, lembre-se, ele é enganoso!

O discípulo falava de enfrentar seu destino, pondo em prova seu treinamento, adiantando muitas etapas. Estava à sombra de sinistra gruta que lhe atraía como o mar chama as águas do continente.
-Vou entrar, mestre!
-Deve entrar apenas se estiver pronto.
-Como vou saber se estou pronto? Alias como o senhor sabe se estou ou não pronto?
-Eu não sei, na verdade nunca sei... quem deve saber é você!
-Então, minha decisão está definitivamente tomada!

Ele se ergue derradeiramente, cinge seu corpo com sua armadura, apanha cada utensílio na certeza do uso de cada arma. Veste-se preparado para luta, mas a sombra de seu destino final ainda o aflige. Até que toma sua grande espada - a espada de um príncipe – e a embainha sabendo que dela fará uso brevemente, que dela, dependerá sua vida.
Seu mestre, triste em notar sua hesitação e saber que o que lhe motiva está mais nos fatores externos do que em seu desejo de cumprir seu papel, apenas lhe observa com olhar atento, fraterno...
-O que há lá dentro, mestre?
-Não há nada... apenas encontrará lá o que levar daqui!

O jovem aposta em seu destino e embrenha-se numa mata mortal, onde cada planta possui um propósito, cada animal lhe desafia, cada sombra lhe ameaça...
Caminha até que lhe surge, imponente e soturna a gruta macabra que lhe rouba a paz.
Assim que adentra desembainha seu aço nobre, talvez crendo que seu brilho constante lhe guiará na direção certa.

Ouve ruídos assustadores. Chamados, assovios, risos... Sente que cada centímetro ali quer roubar sua vida, fazer-lo perder o foco, envergonhar seu propósito. Mas agora crê que deve concluir sua intifada. Precisa provar a todos que não é mais um menino, que agora é um valente, precisa então agir como tal!
Diante dele surge figura encouraçada. Um monstruoso e gigantesco guerreiro trajando negro, empunhando sua espada afiada e mortal. Ameaçadoramente cruel, terrivelmente cabal!
Obviamente assustado o guerreiro se lembra das palavras de seu mestre e crê que lhe pregara uma mentira, afinal este demônio não é nada?
Salta sobre o mal como que querendo esmagar sua origem. Desfere-lhe golpes adestrados, ágeis, potentes. Embora pequeno em relação ao seu oponente acredita que a luta pode, e será vencida pela sua fé.
Golpe após golpe, vai costurando a possibilidade de sua vitória, mas não consegue deixar de ouvir os rosnados do inimigo, sua respiração metálica; quase pode sentir seu ódio materializado...
Então, tomado de um gesto inacreditavelmente veloz corta a cabeça do inimigo negro fazendo-o cair!

Cansado, porém vingado, o jovem vai em direção ao seu troféu e quer como principal espólio de guerra dessa luta ver a face de seu algoz.
Sem se importar com o sangue abundante tornando ainda mais sinistra aquela cena, ele se ajoelha diante da cabeça do guerreiro vencido e lhe abre o elmo.
Assustado cai de sua própria altura, como que vencido pelo demoníaco guerreiro, mesmo depois de sua morte.

Embevecido pelo caos que lhe atrapalha as idéias, nota tardiamente que o que seu velho mestre lhe disse era real afinal. Dentro do elmo do monstro, havia jaz e desfigurada sua própria face como um maldito espelho lembrando-lhe quem é realmente seu maior inimigo!

Wendel Bernardes.

[livremente adaptado da cena do filme O Império Contra-Ataca (Star Wars: Episode V - The Empire Strikes Back), de 1980]

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Caminhos...





Quando abriu os pequenos olhos tristes percebeu que não estava em nenhum lugar familiar. Era, na verdade, uma bucólica paisagem dessas que povoam as mentes coletivas a respeito do paraíso. Havia sim um clima de paz, ou quem sabe, na verdade, ausência de guerra. A cena era envolta numa fina névoa, bela, bailante que trazia um ar misterioso a tudo.

Óbvio que estava preocupado. Perguntava-se se isso era real e tangível, ou se estava materializando um sonho. Decide levantar-se e sondar o lugar. Sentia medo, pois vivia algo desconhecido, mas era desbravador por natureza, não poderia simplesmente deixar o acaso tomar conta de si. Percebeu que usava roupas leves, como se o motivo de estar ali fosse justamente esse; caminhar...

Espelhos d’água, pomares, árvores ornamentais. Ruídos de pássaros e sons de outros animais indicam a vida abundante nesse lugar. Porém nenhum dos outros sentidos citados lhe rouba mais a atenção que seu olfato. Os cheiros são arrebatadores; flores, frutas, terra molhada. Todos os odores estranhamente reconfortantes, característicos de uma parte específica de sua vida: a infância.

Não sabe se se cansou de desbravar o jardim, ou se fora mesmo vencido pelo excesso de informações contidas desse paraíso, o fato é que, debaixo de uma arvore ancestral faz seu descanso, deixando seus olhos ainda desconfiados cerrarem em pausa para arrazoar a respeito do que lhe trouxera ali. Não saberia precisar o tempo passou, tampouco poderia dizer quanto levou para perceber novos ruídos ao seu redor; sons de movimentos na grama alta.
Explodiu-se o medo, misturado a uma ponta de esperança, e despertando do descanso, ao procurar pela origem dos sons nota, não muito perto, mas nem tão longe, uma figura feminina envolta em paz.
Mas não era qualquer figura, mas alguém muito, muito familiar.

Possui um sorriso iluminador, cabelos presos sem esforço e uma bondade exalada nos olhos que lhe fitam.  ‘Como pode ser ela? Que saudades...’
Ela lhe chega e o perfume que sentira a vida inteira lhe atinge como chuva de verão. Porém não lhe diz palavra. Apenas se assenta ao seu lado e lhe puxa pelo braço trêmulo para confortá-lo em seu colo macio, e confiável.

Ele possui a sensação que o mundo realmente poderia acabar ali e nada faria em seu pensar mais sentido do que findar seus dias nesse Éden de sentimentos, matando sua saudade dessa mulher ímpar.
Quando finalmente adormece profundamente sente seus medos mais cruéis e suas dúvidas mais profundas, serem curadas pela comunhão desse encontro.
Terapiando o que nunca abrira para ninguém – por não fazer sentido fazê-lo senão para esse ser – sentia-se entendido em cada palavra que não disse, em cada atitude que revelou apenas em estar com ela.

Não saberia mais uma vez precisar o tempo que isso levou, mas acorda cônscio que não foram apenas instantes dadas as circunstâncias. A leveza do corpo, a força da mente, a coragem para prosseguir. Olha em volta e a bela paisagem – agora sem a névoa – esconde o lugar que seu anjo particular foi. Mas sente paz a ponto de não se entristecer mais como foi com sua primeira partida. Sabia que de alguma forma, era tudo necessário para sua cura. Ensaia um tímido sorriso deixando seus olhos menos tristes.

Até que percebe agitação numa colina, coisa de uns quinhentos metros dali, então decide ir ao encontro das pessoas nessa subida, e no seu caminho ouve voz muito familiar ao seu lado:
-Está pronto?
Ele se assusta tanto pela proximidade, quanto em notar que conhece não somente a voz desse personagem de sua vida.
-O que você faz aqui?
-Bom, eu estou ‘aqui’ todo esse tempo, nunca saí de perto e foi você quem quis assim...
-Como assim?
Ele sorri confiante enquanto prossegue sua explicação.
-Eu vim para lhe ajudar com algumas respostas e uso essa forma tão familiar a você, pois sei que confia nele e é mais fácil fazer isso por você, como já disse, no seu interior foi você quem quis assim!

O homem lhe indica o caminho e começam ambos a passear mais lentamente enquanto aquele ser, notadamente mais elevado, lhe tranqüiliza ao passo que dúvidas austeras e perguntas recorrentes são respondidas.
-Mas porque tudo tem sempre que parecer tão difícil? – pergunta o confuso protagonista:
-Nada é tão confuso para quem enxerga a vida com o olhar do Amor. Se ele rege sua vida, embora tristezas sejam inevitáveis e as dores até freqüentes, nota-se que tudo é resultado das escolhas que se faz durante a caminhada, abençoadas por esse sentimento.
-Você está dizendo que sofremos porque escolhemos a dor?
-Estou dizendo que, se o Amor é a meta, nem a dor pode fazê-lo desistir de seus sonhos de nunca estar só.

Apenas quando ele ouve essas últimas palavras se dá conta que estava trilhando um caminho errado na vida. Fugia de tudo com medo da dor, mas notou que ela o seguiria sempre no desvio que escolheu tomar, ou qualquer fosse seu destino.
Percebera também que não estava morto, e que aquele paraíso nunca fora o céus, mas que fizera uma estranha, curiosa e indecifrável viagem em si mesmo e que o saldo foi muito positivo.
O colo da mãe, as palavras do coração... Tudo lhe refez em força para seguir adiante em seu caminho em direção a ele mesmo!

Wendel Bernardes.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Eles Estão Entre Nós... Liel.




A guerra é vivida num nível cada vez mais intenso. Baixas de ambos os lados, enfraquece a batalha. Cada guerreiro cônscio de seu dever fará de tudo pela causa.

Nova Iorque – Dezembro de 2024.

O clima é cada vez mais louco. Deveria ser inverno na América do Norte, mas o calor se intensifica. Em menos de dez anos, especialistas dizem que se terá aqui um ‘natal tropical’.
O mundo mudou muito nessa última década. Embora os governos mundiais detenham ainda certo poder, perderam completamente a soberania e o domínio ficou por conta de uma mega-instituição religiosa chamada “O Culto” que nada mais é do que um conglomerado de várias segmentações religiosas unidas em franquias sob uma mesma bandeira; o poder
Há ainda alguma resistência no oriente. O mundo árabe e os hindus lutam bravamente, mas a cada dia as alianças monetárias e os boicotes financeiros enfraquecem até mesmo aos extremistas mais radicais. A ONU perdeu sua força até ser apenas uma lembrança insignificante num mundo globalizado ao extremo.

Fala-se uma mesma linguagem no meio corporativo e cada pessoa é agora, literalmente, cidadã do planeta e o centro nevrálgico de tudo só poderia ser mesmo a Velha Maçã. Nova Iorque abriga o centro político, cultural e religioso do mundo e não desacelera nem mesmo para que haja veneração da figura central do Culto; O Ungido!
Mistura de homem e mito, esse carismático homem de aproximadamente 45 anos é praticamente unanimidade na Terra! Os homens o invejam, as mulheres o desejam, as lentes são por ele enfeitiçadas, os autores de auto-ajuda o definem como padrão de sucesso e a filosofia contemporânea o encara como o novo messias para um mundo pós-moderno.

Brooklin – 23/12/2024.

As casas de todas as classes sociais, inclusive as classes mais baixas, possuem toda a infra-estrutura que cada ser humano necessita – Karl Marx ficaria orgulhoso – a não ser, quem sabe, se não soubesse que todo esse beneficio veio justamente do que chamara de ‘ópio do povo’; a religião!

Em cada casa há agora uma bandeira da nova fé, e pelo menos uma foto de seu messias. E as pouquíssimas famílias que ainda não as tem, sofrem todo tipo de abuso humanitário.
Têm dificuldade de arrumar comida, passam calor e frio sem energia elétrica e o mais cruel... Falta emprego, serviço de saúde e escola para essa gente.
A resposta para isso? Bem... Os líderes afirmam que os convertidos devem comer o ‘melhor dessa Terra’ enquanto os ímpios já estão ‘destinados ao fogo do inferno’... Talvez essa metáfora defina bem a vida de Carey.

Ele é segregado na rua. Esqueceu-se da última vez que ouvira um ‘bom dia’ ou um ‘olá’. Um sorriso cordial então nem se fala. A ajuda secreta de alguns caridosos vizinhos vem na forma de serviços para ganhar pelo menos comida e alguns trocados de new dollar. Assim sobrevive.
Como é um homem de fé, não perde a esperança na humanidade. Com todos costuma ser gentil, e transparece uma pureza herdada sabe-se lá de onde...
Mas é claro que o perigo sempre está presente. Está numa semana má, não conseguiu trabalho nem ajuda da comunidade. Tudo ficará enlouquecedor em pouco tempo. Ele sabe que isso tem a ver com a incisiva política que os Centurions administram. Eles são uma espécie de policia global e executam suas ordens ao extremo. O cerco sobre ele está se fechando, logo o pior acontecerá!

É antevéspera de Natal, porém ninguém ousa comemorar uma festa ligada a uma das antigas religiões. Carey entra em casa e como sempre, faz suas preces ao seu Deus agora pagão, até que alguém lhe chama na porta.
-Quem é?
-Abra por favor, são os Centurions!
-Claro... Mas está tudo em ordem aqui, oficial.
Assim que abre a porta, cinco fardados sinistros adentram sua propriedade já agindo com truculência.
-“Em ordem”, infiel? Sua vida está fora do eixo!
-Me desculpe, senhor... Mas foi assim que decidi viver.
-Logo se vê que foi a decisão errada, meu caro. Você não passa de um farrapo humano! Mendiga trabalho e comida, e tudo isso por conta apenas de uma filosofia de vida...
-Devo discordar senhor... Tudo isso por conta de uma fé livre!
Todos gargalharam ruidosamente, menos obviamente Carey, que já imaginava o que haveria de vir após isso.
-Não viemos aqui para nos divertir com você infiel, queremos apenas lhe participar da novidade.
-Qual?
-Esta casa foi confiscada pela administração pública.
-Mas minha casa é particular, senhor. Até onde sei está quitada, pois se trata de uma herança... em qual acusação se enquadra sua...?
Antes de terminar sua linha de raciocínio o Centurion conclui:
-Eu poderia lhe enumerar muitas acusações contra você, dentre elas perturbação da ordem, falta de zelo com patrimônio tombado, dente outras...
Embora esse... ‘casabre’ esteja ‘regular’ como você ousadamente frisou, está assentado em terreno governamental, ou seja; pertence à Ordem!
Poupe-me o trabalho, infiel... ponha-se na rua!
-Não precisa prosseguir, seus convites serão descartados, senhor.
-Ora, porque meu caro? Quanta falta de consideração com quem ‘tolerou’ sua presença aqui até hoje.
-Consideração? Bom... já sei o que virá depois...
-Você tem algumas horas para sair e para lhe ‘ajudar’ vamos lhe poupar o trabalho com suas tralhas!
Dito isso, quatro dos Centurions começam a quebrar o que lhe sobrara de mobília. Carey está estático, não poderia mesmo ter outra reação, afinal qualquer ação contra a polícia desse novo mundo gerava sansões muito severas, até mesmo a morte em alguns casos.

Ao final de tudo, apenas as paredes estavam no lugar e a mobília do rapaz igual ao seu coração; em pedaços. Insatisfeitos os cinco lhe cercam portando armas elétricas e bastões de nocaute. Carey sabia a motivação real dos cinco. As horas que lhe prometeram para evacuação nunca seriam cumpridas.
Os golpes começam covardemente pelas pernas, querem vê-lo implorar de joelhos por sua vida.
Seguem-se sucessões de maus tratos que deixariam horrorizados os mais insensíveis dos homens.
Carey portava agora lesões diversas, edemas, hematomas, contusões e provavelmente algumas fraturas também.
Um deles agarra-o pelo pescoço, tirando-o do chão com força inumana. Espantado e dolorido, o jovem fita seu agressor e aguarda sua sentença de morte como cordeiro diante da matança. Qual não é sua surpresa quando nota o rosto de seu algoz transfigurar nalgo terrível e inimaginável pela mente simples do rapaz.
Pele esverdeada, olhos grandes e vermelhos, dentes semi-serrados. Seu espanto é ainda maior quando ouve a voz sinistra que lhe diz:
-Peça a morte, caminhante!
Ele luta para falar, afinal sua respiração está por um fio. Porém, embora seu corpo flagelado esteja mesmo fraco, sua vontade é férrea...
-Jamais – e concluiu;
Senhor, dá-me o destino que me julgares melhor, dito isso, desfaleceu sem ar.

Achando que o mataram, os demônios ignorantes mais uma vez gargalham continuamente, porém essa alegria parece passageira. Uma figura sisuda e corpulenta opõe-se entre os monstros e a saída.
-Um anjo? Quanto tempo não via um desses... Dizendo isso o chefe do bando puxa uma risada nervosa que não é seguida pelos demais. Todos sabem que um desses, embora raro, significaria problemas na certa.
-Veio levar o corpo do caminhante?
-Não seja tolo - disse outro – se está aqui, o mortal ainda vive.
O guerreiro alado abra sua boca e se manifesta:
-Pelo menos não são todos assim tão burros!
A fúria pelo insulto os faz tremer de gana por batalhar e armam-se prontos a luta.  O ser moreno de longos cabelos negros, usa em mãos lança mística, porém antes de singrar em direção a batalha lhes sorri dizendo:
-Não haverá quem sinta saudades de vocês, criaturas...

A luta desleal começa. Cinco grandes demônios contra apenas um anjo. Todos são exímios guerreiros e as cenas de violência têm por palco o casebre de subúrbio em meio aos entulhos dos móveis que os próprios demônios geraram.
Saltos, gritos de dor, sangue, feridas abertas e o primeiro demônio cai. Ele vibra seu bastão firmemente sobre seus ombros fazendo assim o segundo tombar, decepando-lhe a cabeça.
Os três covardes restantes ensaiam uma fuga, mas Liel lhes impede.
-É chagada a hora de vocês, vermes.
O líder deles lança um dos corpos dos comparsas mortos na luta em direção ao anjo visando ganhar tempo para a fuga. Liel desvencilha-se facilmente do engodo, saltando em direção a seu oponente agarrando-lhe pelo pescoço e lhe atravessa o abdômen com sua arma. Usando velocidade ímpar, estende suas asas atingindo outro fugitivo, ao derrubar-lhe, não perde tempo e lhe pisa a cabeça furiosamente.  Os atos de guerra desse anjo beiram a barbárie e não poderia ser diferente, já que seus inimigos lhe superavam em número e força.

O último, já quase em liberdade, chega a ver a luz da rua onde por instantes mantém a grata sensação da impunidade.
Nesse instante é agarrado pela farda e arrastado de volta pra dentro.
-Dê um recado ao seu meste-direto. Diga-lhe que as coisas estão mudando por aqui, e que seu até então bem sucedido levante de horror termina hoje!
-N-no-nós somos muitos - gagueja o demônio - sua guerra é inútil - revela o centurion.
-Quando foi que isso importou?
Terminado sua linha de raciocínio, o guerreiro místico devolve o demônio às ruas, onde certamente levará a noticia da derrota e o recado ao seu mestre. Obviamente seu destino será pior do que apenas morrer em suas mãos. Pensando assim, se vira e sorri ironicamente.

De volta ao interior da casa, junta os corpos podres banhados nesse sangue laranja e gosmento e só aí, saca sua espada que flameja assim que entra em contato com o ar.
Ele queima os corpos num fogo dourado e sobrenatural, que estranhamente apenas consome os corpos dos seres malignos, deixando intacta a casa já em desolação. Cada demônio é transformado em cinzas, logo depois bate forte duas vezes suas asas e as leva para longe, como se nunca estivessem no local.

Nesse momento Carey começa a acordar mas, surpreendentemente dá de cara com jovem de feições étnicas que lhe diz...
-Fique tranqüilo, eu vim ajudar.
-Quem...?
-Descanse, eles se foram, sou apenas um amigo.
Carey desmaia mais uma vez por conta dos ferimentos e da dor, mas agora está em bóias mãos.
O guerreiro, em sua forma de arauto, leva-o a uma reserva onde outros caminhantes na mesma situação de Carey são cuidados, se escondem e se curam.
Na reserva, discute-se os rumos do levante que planejam para trazer de volta a liberdade. Sabem que muito há de ser feito, mas o tempo de se esconder e correr está terminando
É tempo de guerra!!!!

Se você tivesse seus ouvidos adestrados, poderia agora mesmo ouvir o som dos tambores de guerra. Estão mais frenéticos do que nunca. Seu som é ouvido a quilômetros e seu reverberar agora faz a espinha de seus oponentes gelar de medo. Não há mais ordem para se esconder, a batalha se revelará... Em breve!

Wendel Bernardes.





sábado, 1 de junho de 2013

Eles Estão Entre Nós... Hyllel e Kallore.




Uma lança se ergue enquanto garras monstruosas incidem contra o adversário. Brados e urros mesclam-se ao som do aço rasgando a pele... Mas nem sempre é assim.

Moscou – 1973.

O frio toma as ruas numa nevasca furiosa e hostil. As almas sãs estão agora completamente agasalhadas sentindo o crepitar da chama alta na lareira. Mas Piotr segue seu rumo completamente solitário na missão que outorgou a si mesmo.
Saiu da casa quente e confortável num bairro bem situado para dar algum tipo de auxílio aos abandonados à margem da sociedade, num subúrbio qualquer onde filosofia e política perdem a voz.

Lá o frio é ainda mais cruel já que a pobreza impede a manutenção de um sistema decente de aquecimento – que é alias indispensável nessa parte do mundo. Famílias costumam até queimar seus móveis e objetos inflamáveis na esperança, ás vezes vã, de fazer a chama viva por mais um tempo.
Sempre com uma palavra amiga e um sorriso, Piotr leva sempre o que pode. Agasalhos, comida e vez ou outra até ajuda a obter lenha. Quando pode, leva ele mesmo em sua caminhonete, adquirida justamente visando a coletividade que o governo diz manter.
Porém, gestos apaixonados do piedoso homem de meia idade, embora bem vindo a cada pobre que ajudou, não é bem visto por alguns. E estes em particular, têm o poder de mudar essa realidade de uma forma inimaginável.

Piotr chega ao seu destino imbuído de fé, coragem e compaixão, mal sabendo o que lhe aguarda.
É uma noite estranha essa - pensa ele - já que não é assim tão tarde e as luzes estão apagadas. Nesse horário sempre há alguém disposto a receber auxílio, e uns poucos outros a ajudar na mão de obra, ainda mais ajudar a alguém que já é amigo dessa comunidade.
Ele bate nas portas, chama, assovia sem obter resposta.
Tenta então noutra casa, e noutra, e noutra, porém a mesma cena se repete. Só ecos de seus próprios ruídos são audíveis.

Até que figura sombria lhe aparece do nada, trajando sobretudo negro, chapéu de aba e estranho sorriso enigmático.
-Assustou-se, amigo?
-Desculpe, na verdade sim... Estava fazendo tanto barulho na esperança de ser ouvido que nem ouvi sua chegada na neve.
Nesse momento se vira e quando olha no redor do estranho, percebe que a neve em seu entorno está intacta. Sem pegada alguma ou rastro qualquer que indicasse de onde teria vindo estranha figura.
-Não se preocupe, estou acostumado com a reação de todos em relação a mim... Noite fria para um passeio, não?!
-Na verdade vim ajudar alguns amigos, o senhor também não é daqui, não é?
-Absolutamente meu amigo, sou daqui sim. Percorro essas paragens há tanto tempo que me acostumei a ver geração após geração declinar, uns sob a vida dura das ameaças da vida do homem simples, outros simplesmente perderem-se nas trevas... É um homem religioso, amigo?
-Não me considero assim exatamente, apenas sigo meus instintos e alguns bons costumes. Alguém disse certa vez, que a maior religião seria ajudar aos necessitados. De certa forma é o que faço, mas não é apenas uma obra de fé, mas sim, de compaixão!
Perdoa-me, acho que devo ir já que não posso ajudar ninguém hoje, vou fugir desse frio... Uma boa noite!
-Ah, mas poderia me ajudar então?
-Ajudar? Sim... No que posso lhe ser útil?
-Simplesmente me dando uma carona...
-Ah, claro, entre...

O sujeito com ar de desdém empurra os donativos não usados nessa noite e ajeita-se como pode na caminhonete.
-Mas pra onde o senhor vai mesmo, se posso lhe perguntar...?
-Em breve você saberá, apenas dirija meu caro.
A petulância do estranho lhe incomodava, mas aceitou tudo como parte do que lhe cabia para aquela noite. Tinha realmente um coração nobre esse Piotr!
Cerca de vinte minutos de estrada, com pouca neve que insistiu em precipitar, o sujeito lhe apontou casa grande, com ares aristocráticos, porém visivelmente atingida pelo tempo.
-Ali, por favor.
-Estranho... eu passo aqui faz algum tempo e nunca notei essa casa.
-Não há nada de estranho nisso, notamos apenas o que queremos ver nos cenários em que vivemos. Tudo obra da subjetividade.
Ele decide se calar diante dessa declaração. Manobra seu carro e diz:
-Pronto.
-Por que não entra e me faz companhia num chá, café ou algo mais forte?
-Sinto muito, mas...
-Creio que devo insistir, meu caro Piotr.
Ele se espanta que a figura lhe saiba o nome e por conta disso o segue até a velha mansão. Não sabia se fora apenas curiosidade ou algo mais lhe impulsionara, mas obedeceu a ordem quase como se precisasse disso
-Aqui é sempre mais quente.
-... Como sabe meu nome?
-Sei muito mais do que apenas seu nome, caminhante!
-De que me chamou?
-Aquiete-se. Sei de sua compaixão amenizando a dor desses desgraçados, de sua fé no homem, na sua esperança de um mundo melhor, essas bobagens todas... Você é sectário demais! É por conta disso que vim pessoalmente acabar com sua cumplicidade com o ‘bem’, humano!

Dito isso, o homem já estranho, agora se revela na frente de Piotr. A cena sui generis dura instantes e logo diante dele está, no lugar do fidalgo, criatura com mais de dois metros seguramente, pele acinzentada, cabelos ralos, olhos esbugalhados, garras acentuadas porém, mantém estranhamente o sorriso soturno e sínico de sempre.

-Meu Deus, o que é isso?
-Não tente fugir, caminhante. O que agora paralisa seu corpo inútil não é apenas o medo. Sinta meu poder agindo em você.
Piotr não consegue mesmo se mexer, e sente agora dor aguda no seu cérebro e ao mesmo tempo, algo faz que seu sangue ferva nas veias. A dor é tão desconhecida quanto indescritível.
-Meu Deus, me ajude...!!!
-Cale-se boçal... Seu destino está traçado e sua morte é certa... Levarei sua alma comigo para o inferno!
Nesse momento ouve-se terceira voz que se revela dizendo;
-Como você pode dar por certo algo que nem mesmo teve fim, demônio?
-Quem está aí? Revele-se, eu ordeno!!!

Das sombras de uma ante-sala surge ser iluminado, trajando vestes simples, rosto de homem comum, cabelos curtos, expressão firme, barba rala e um belo par de asas pálidas...
-Você não pode se intrometer aqui, Hyllel, ele é uma vítima limpa!
-Demônio, desde a queda sua visão do que é limpo ou sujo foi de fato comprometida. Largue o controle da mente do caminhante... Já!
Dizendo isso, o guerreiro alado ergue o braço em direção aos dois e uma guerra invisível tem inicio. O demônio, visivelmente fraquejado com a aparição angelical, começa a expressar ares de dor e de súbito, solta um grito aterrador enquanto é obrigado a largar o controle mental que matinha em Piotr.
Caída e humilhada a criatura volta a ter uma aparência humana...
-O que está fazendo aqui, guerreiro de luz? O tratado me dá plenos direitos de explorar essa gente.
-Um tratado firmado entre um ex-governante delirante diante de sua figura assombrosa? Ora, com quem você pensa que está lidando, Kallore? Não sou um dos seus para cair na sua lábia suja, e estou aqui atendendo a prece do caminhante.
O anjo dotado de uma autoridade ímpar prossegue em sua sentença.
-Você bem sabe que diferentemente de meus irmãos eu não preciso de lâmina espiritual para lhe destruir, demônio.
-Ora... É vaidade que noto em sua afirmação Hyllel?
-Eu não uso poder senão o que me fora dado, criatura profana. Não use seus engodos para ludibriar a mente de Piotr mais uma vez. Deixe já esse lugar!
-Essa casa, é minha!
-Nada aqui pertence a você, criatura insana... Suma!

O brado de Hyllel cria um vórtice quase imperceptível a olho nu, porém as emanações são sentidas facilmente em todo o ambiente e até Piotr, pasmo com toda a cena surreal, sente forte compressão no peito. Quando procura por seu agressor nada mais encontra.
Ele tenta erguer-se e conta com a ajuda de Hyllel para tal.
-Segure meu braço, caminhante.
-Porque me chamaram assim?
-Simples você está trilhando pelo Caminho, não é mesmo? Mas,  duvido que esta seja sua única pergunta, estou certo?
Apenas o olhar do homem responde a retórica do anjo.
-Bem, você agora está ciente que existe um mundo onde coisas sobrenaturais acontecem...
-Isso é incrível!
-Incrível é ter alguém que por pura compaixão, simplesmente abdica de seu conforto pondo sua própria vida em risco apara ajudar ao próximo. Por isso me ordenaram em seu auxílio. Você é o verdadeiro anjo salvador aqui.

Piotr observa as asas lindas e vastas do guerreiro de estatura mediana se dobrarem e sumirem em sua frente, tornando o anjo num homem de aparência costumeira, normal.
-Ainda há muito a fazer. Duas guerras distintas estão se formando, Piotr. Uma você já escolheu seu lado quando decidiu ajudar a esses pobres coitados, e por conta disso alguns serão postos a lhe ajudar..
-Será incrível, mas e a outra guerra?
O ser místico, agora agindo como homem qualquer estende o braço, descansando-o no ombro de Piotr e prossegue:
-A outra guerra, meu amigo, já dura uma eternidade, e nesses dias que virão terei muitos compromissos.
-Em quê?Se posso perguntar, claro...!?
-Proteger você e os que estarão por despertar pro trabalho das hostes que Kallore irá convocar!
-Não entendi porque não o derrotou, entende?
-Está me perguntando por que não o matei?
-Sim..
-Embora seja um guerreiro, apenas cumpro ordens e o demônio será peça fundamental para o plano que se desenrola. Mas tudo correrá bem, agora você sabe que sempre houve um Alguém em seu auxílio, não?
-Na verdade, nunca duvidei.
O anjo sorri confiante que agora ganhou um aliado a sua altura.

A manhã começa a despontar no horizonte gélido, Piotr agora mais cônscio de sua missão e das implicações que ela trará retorna para sua caminhonete e quando procura por Hyllel, vê ainda mais duas silhuetas ao longo da colina ao lado da mansão.

A batalha não pode parar enquanto houver justificados em perigo. Cada guerreiro sabe que as armas diversas são eficazes nessa peleja e que a prece tem um poder certeiro em seus efeitos.
Mas, onde será próxima etapa da batalha?

Wendel Bernardes.





segunda-feira, 27 de maio de 2013

Eles Estão Entre Nós... Arata/Lebiel



Não se ouve mais o som de trombetas de guerra, os tambores emudeceram. As bandeiras tremulantes estão a meio-mastro. A tristeza se faz lágrima até entre os eternos.

Rio de Janeiro – Século XX.

Samba, flores tropicais, praias maravilhosas e boa comida. Ele sempre acreditou que isso fosse mesmo pra ‘inglês ver’. Nunca teve tempo de ficar ‘de papo pro ar’ como se diz por aqui. Nasceu na classe operária e caía na luta tudo dia pra tentar ser alguém na vida.
Tudo andava bem na sua caminhada, afinal a batalha pra romper fazia parte de um todo. Era um cara sóbrio, e dificilmente ficava viajando nas idéias; pé no chão mesmo. Só sonhava quando o assunto era montar uma família. Aí sim, ele idealizava uma esposa amável e compreensiva. E com ela teria tantos filhos quantos pudessem bancar.
Carlos era mesmo gente boa, um cara ‘do bem’ como adoram dizer hoje em dia (como se alguém se declarasse ‘do mal’, pode?).

Sua mãe, uma senhora respeitadíssima na comunidade, era a responsável pela criação desse mulato de quase trinta. Mulher digna e honesta, apenas ‘errou’ quando escolhera o traste do pai do Carlinhos. Esse sumiu na poeira depois da notícia da gravidez. Porém criou o moleque com honra, respeito e um amor incomensurável. Nunca se esqueceu de lhe mostrar o caminho da fé, e de certa forma, sempre soube que seria um homem importante. E não é que era mesmo?

Carlos era funcionário de uma super construtora, que potencializava seus trabalhos com a grande iniciativa de crescimento imobiliário por conta dos programas habitacionais nacionais. Dizia que ‘subir na vida’ por enquanto, era levar o carrinho de tijolos até o vigésimo andar, ainda em término e sem elevador. Era um piadista!

No trabalho, mais ou menos uns três anos antes, conhecera Arata. Rapaz de origem oriental e estatura mediana, mas com cara de brazuca, queimado de sol de tanta labuta até lembrava um pouco nossos índios.
Era gente boa toda vida. Tinha por Arata certa simpatia até o dia em que tudo aconteceu.

Era final do mês e Carlos estava por demais preocupado. As contas não batiam e já sabia que teria de entrar no tal do cheque-especial pra poder fechar o período e bancar as dívidas, todas já no vermelho.
Talvez por conta dessa loucura toda não poderia notar a parede se descolar e vir a toda na sua direção desde o terceiro andar da obra. Estaríamos falando agora de sua morte se Arata não tivesse surgido como um raio pra lhe puxar com agilidade e força de um gigante.

Daí em diante a amizade nasceu fraterna, como verdadeiros irmãos separados na maternidade. Onde um estava, estava lá o outro. Em certos momentos pareciam pai e filho também, mesmo sem muita disparidade de idade aparente. Simplesmente eram um pro outro o que se precisava para o momento de ambos, e vida assim foi.

Hoje Carlos se lembra com carinho da conversa que tiveram tempos atrás na hora do almoço no trabalho.
-Aí, cara...
-Fala...
-Já se pegou pensando alguma vez se você nasceu com algum ‘destino maior’?
Arata fitou-o com olhar único.
-Todos os dias, meu velho. Mas me conta aí; o que se passa na sua cabeça?
-Sei lá cara, pode ser bobagem minha, mas creio que algo precisa mudar na minha vida, sabe? É como se do nada, eu começasse a pensar numa direção, como minha mãe sempre disse; como é mesmo?
-Um propósito!?
-Isso!
-Quem sabe o seu propósito seja encaminhar pessoas na vida, mano?!
-Como um orientador de escola, ou coisa assim?
-Na verdade, pensei nalgo parecido como um ‘irmão mais velho’ pra alguns, tipo isso.
-Mas em quê? Ajudar na profissão?
-Pode até ser, mas imaginei coisa mais abrangente.
Arata põe-se a falar como que preparado há séculos para aquele exato momento. Sem ser prolixo, explica seu precioso ponto de vista.

Sem saber, absorto na conversa, Carlos é observado por criatura que o contempla como que o estudando. Só que seu foco não é apenas em Carlos e suas dúvidas existenciais. Seu alvo principal é Arata!
Passaram tempo demais conversando e notaram o quanto estavam atrasados para voltar ao trampo. No final do trabalho andaram juntos até a plataforma do metrô. Carlos entra e Arata se vira na estação quase vazia. Era tarde, já que estavam numa obra acelerada, faziam serão. Já estava quase na hora de fechar o metrô.

O clima estranho demais faz Arata entender que aquilo se tratava de um ambiente possuído pelo mal. Olha mais ao fundo e percebe vir em sua direção um ser obviamente espiritual, do alto de mais de dois metros certamente, e ao se aproximar, nota que suas vestes parecem-se mais com roupas de bárbaro.

Arata se espanta com a ousadia do demônio em aparecer ‘revelado’ assim naquele ambiente, mas não se amedronta.
Numa voz macabra falando como numa tediosa melodia aguda, o ser pergunta:
-Preparado para seu destino, arauto?
-Meu destino nunca esteve em suas mãos, Ottar!
Ouve-se uma gargalhada animalesca e os pouquíssimos presentes, mesmo sem ver nada, fogem por puro medo do desconhecido.
Ottar ergue uma besta e dispara sua seta mortal, porém o alvo desta vez não é Arata, mas sim o painel de força que se encontra um pouco atrás do pequeno arauto.
-Agora estamos no meu ambiente, pequenino; as trevas!
-A escuridão nunca me assustou, potestade. Você sabe muito bem como me adapto aos ambientes.
-Por pouco tempo pequeno guerreiro, por pouco tempo!
Dito isto, o covarde gigante convoca seus asseclas. Demônios de várias classes aos pares. Contavam na verdade, dezenas deles.
O pequeno com feições orientais, com um brado, libera seu par de asas cinzentas.
-Ah, o arauto volta às suas feições de anjo, não é “Arata”?
-Me chame de Lebiel, infiel!

Nesse exato instante, cada fera mística cai sobre o guerreiro com ferocidade ímpar. Ele se protege como pode. Garras e dentes pontiagudos rasgam sua carne, seu sangue jorra de forma alucinada. Se tivesse em mãos seu aço místico a luta atingiria outro patamar, mas tudo isso faz parte do plano covarde de Ottar. Enfrentar alguém 'despreparado' aumenta as certezas da vitória.

Socos, chutes, giros velozes, golpes de asas.... Ele luta com bravura inigualável e cada demônio, antes confiante da vitoria, percebe a honra que há no pequeno guerreiro que luta de mãos limpas. Porém ele sabe que não resistirá por muito tempo sem uma arma, ainda que improvisada.
Um a um, ele derruba cada demônio com esforço hercúleo. O adestrado guerreiro faz uso da cada utensílio que aparece em sua frente. Todos, tornam-se armas letais! E assim ele pouco a pouco logra êxito, até restar apenas...
-Ottar... Agora somos apenas eu e você!
A potestade sai das sombras, enquanto desfila sua cara desfigurada com voz nasalizada e com tom doentio:
-Tem certeza, ser inferior? Suas forças estão minadas pela luta destemida que conduziu, ou será que suas forças se foram por conta da vida ‘fácil’ que possui como arauto, vivendo escondido entre os caminhantes? Admira-me não ter sido morto pelos demônios inferiores...
O guerreiro angelical se ergue mesmo com feridas lancinantes, e lhe fita com olhar irado, apenas digno dos mais bravos:
-Me explique demônio, como um ser eterno pode ficar enfraquecido em poucos anos como arauto, se lutou milhares de anos como guerreiro?
Não me desonre com seus artifícios mentais, porco!

Eles se encaram, se medem, se estudam, até que Ottar inicia sua tentativa de frustrar os sonhos do Ser maior.
A luta é animalesca. Ambos são guerreiros eficientes e farão de tudo para a defesa de suas respectivas missões. Eles arriscarão a própria existência se preciso for.

A batalha épica já dura horas num balé amedrontador e duro. Ambos, obviamente cansados, querem terminar logo com isso, porém Lebiel sabe que a paciência precisa ser exercitada contra um demônio tão descabido como Ottar.
O anjo conta que em algum momento ele confiará em sua força e estatura e fará algo errado.
Mas, inexplicavelmente o guerreiro alado sabe que de alguma forma, o sujo tem alguma razão. Ele se sente enferrujado, exausto.
E desarmado de seu aço místico, sabe que apenas um milagre o fará vencer esse gigante demoníaco.
Olha para o céu e balbucia por ajuda em prece. Mas antes que miríades despenquem do céu em seu auxilio, Ottar aproveita a distração e atravessa o pequeno anjo com uma cimitarra negra sobrenatural! Ele não grita, mas a dor que sente só poderia ser suplantada pela vergonha....

Ottar sabe que deve se recolher logo. Matar um anjo possui implicâncias seríssimas e conseqüências mortais. Mas antes, ouve a voz sibilante de Lebiel que diz com leve sorriso:
-Você perdeu demônio burro! Com minha morte, dezenas dos meus irmãos ainda mais poderosos que eu, virão em sua caça. Os planos do Eterno se cumprirão mesmo em minha morte!
O demônio se agacha, furta seu aço negro do moribundo guerreiro e parte da mesma forma que surge; covardemente!

Há um hino de dor no ar quando os anjos chegam a tardio reforço. Eles choram, lamentam e fazem promessas de vingança diante do corpo do irmão ainda quente. Até que um deles, Agniel, se voluntaria para estar no lugar de ‘Arata’ na vida de Carlos.
-A obra de meu irmão não será em vão! Viva os sonhos do Eterno!!!
Erguem suas armas e bradam ao anjo morto.

É domingo de manhã quando rapaz alto e magro bate a porta de Carlos.
-Bom dia...
-Sim?
-Vim te trazer noticia triste, amigo. É sobre Arata...
-Ele...?
-Sim, infelizmente nosso amigo partiu.
-Como aconteceu?
-Não é tão importante agora, Carlos, mas saiba que tinha grande apreço por você e que seu desejo certamente era ver cumprido em ti, seu destino, o propósito que vocês conversaram tanto.

Ele se vira, e com um semi-sorriso se despede, porém o rapaz mantém a sensação que o verá de novo.  Mas muitas perguntas movem seu pensar. E quanto a conversa com Arata, como ele poderia saber de tudo?
Parece que realmente existe entre céu e terra mais coisa do que imagina sua pequena filosofia.

Carlos fecha a porta, abre o coração e pergunta a Deus o que virá? A resposta em seu coração diz que apenas Ele realmente sabe. Embora essa perda aponte para uma derrota, a guerra haverá de continuar. Onde será da próxima vez?

Wendel Bernardes.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Eles Estão Entre Nós... O Poderoso Auriel.



Fileiras se perfilam. Há tambores que roubam o som dos trovões. A ira no olhar do inimigo, por mais notória e significativa, não faz com que nenhum guerreiro sequer sinta medo. A ferocidade da batalha apenas cerca o vencedor.

Europa – Século XVI D.C.

Os ventos trazem boas novas. São ainda pequenas, porém importantes mudanças no mundo. Embora os impérios surjam cada vez mais ferozes, aqueles que se sentem livres, levam sua liberdade a sério!
Ele é um simples lavrador. Anos a fio buscando o sustento dos seus. Luta para sobreviver com as sobras do que planta, afinal o melhor de seu trabalho acaba mesmo nas mesas dos poderosos. Seja nalgum palácio, seja num mosteiro rico.

Seu velho pai, mesmo igualmente pobre, ensinou-lhe coisas preciosas; ler, escrever e... pensar!! Assim, possuidor de parcos recursos, mas de espírito nobre, ele se opõe em seu coração a todas as corrupções vigentes em sua época. E não são poucas.


Ouviu-se em determinada corte os gritos dum clérigo poderoso, que de tão preocupado com os rumos (dos cofres) de sua religião, esbravejava aos quatro ventos, maldições indizíveis até mesmo a um camponês, um bucaneiro, ou até um guarda de infantaria.
Seus planos seriam postos em prática antes que ventos reformistas sequer atravessassem as fronteiras do reino. E ele sabia que o ‘bom exemplo’ deve ser aplicado onde mais pode possuir eficácia; nas classes mais baixas!

Embora triste com os rumos da fé, ele une os seus em prece. Inicialmente esposa e filhos lhe servem de congregação, mas pouco depois amigos e vizinhos lhes fazem companhia. Na pequena vila todos conheciam a piedade e o zelo do homem simples ao falar de coisas importantes descritas nas Escrituras Santas, que ele mesmo traduziu e leu a cada um que sedento lhe pediu.
Possuíam uma estranha ligação, como sagrada simbiose, ou comunhão fraterna. Não havia entre eles mais pobre, ou remediado. Cada homem exatamente igual ao seu semelhante.

Porém, o mal assume formas com contornos belos mascarando-se de bem, simulando piedade. O clérigo, sabedor da filosofia que partilhava tudo na pequena vila, adiantou-se e mandou prender o pobre homem, inicialmente ‘apenas para uma lição’, mostrando assim sua ‘benevolência e misericórdia’.
Mas o pobre homem, não desistiu de sua liberdade. Assimilou seu flagelo, e mais uma vez gozando de sua ‘liberdade’ pôs-se a fazer o que sempre fizera, ou seja, continuou a comungar das palavras santas, mas por consciência, dispensou os que não seriam do lar, achando assim que geraria menos dor e mal aos seus semelhantes. 

Cônscio dessa nova realidade o clérigo, imbuído de inveja, ou quem sabe ainda de sentimento mais nocivo, não iria deixar de demonstrar seu poder e toda a ira por ter sido menosprezado por tão simples figura. O poder da coroa e da fé não poderiam ser zombados assim, principalmente pela rebeldia de um camponês!

Acordou num susto como da outra vez, só que agora os guardas com lanças em punho notadamente não possuem a mesma motivação de antes. As tochas que possuíam nas mãos não pareciam ser apenas para iluminar o caminho na noite fria.
A brutalidade torna-se a bandeira e as desconfianças confirmam-se. Enquanto ele é levado cativo, amarrado pelas mãos atado a um cavalo, olha para trás e contempla sua choupana arder, iluminando a madrugada, confirmando o horror da força do opressor.

As feridas múltiplas, principalmente as internas o fazem ceder e seus olhos cerram-se como que buscando esquecer-se de tudo. Acorda atado a um poste. A escuridão e o cheiro indescritível confirmam que está numa masmorra, desta vez, ainda mais sinistra que a anterior.
Assim que seus olhos acostumam-se com a falta de luz, percebe coisa estranha e inimaginável até para a mais fértil das mentes provincianas.
São olhos! Acesos, vermelhos como fogo e mergulhados no mal. Ele apenas sente um frio que percorre sua espinha e numa tentativa natural tenta tranquilizar seu coração, até que ouve rosnados, e em meio destes uma voz ainda mais terrível e indescritível.

-O que fará agora, caminhante? Seu Deus abandonou-o junto de sua liberdade...
Ele apenas tenta localizar, sem sucesso, o locutor dessa sentença.
-Eu sinto seu medo e não é sem razão, sua morte está próxima!
Sombras o circundam e nesse momento ele percebe o terror que pinta o contorno de cada criatura, certamente, nenhuma delas conhecidas pelo homem, ou pelo menos não catalogadas.
Ele ensaia uma prece entregando seu espírito e quem sabe, pedindo a Deus que morrer nas mãos desses monstros não seja seu destino.
Subitamente, algo realmente inesperado acontece.
Uma luz assustadoramente intensa enche o ambiente outrora mergulhado em trevas. E surge ele! Alto, negro, de roupas tribais, longas asas alvas e uma cintilante espada nas mãos.
-Ninguém toca no caminhante!
-Auriel, murmuraram os demônios...
-Eu disse ninguém, ouviram?
-Ora Auriel, irá libertá-lo?
-Minha missão não lhe diz respeito, cão!
-Fiquem calmos, ele não pode contra todos nós, sugere um deles protegido pelas sombras restantes.
-Quer apostar?
Silêncio profundo.

O guerreiro decide não mais aguardar e vibra seu aço místico por cima de sua cabeça e abre suas asas como que protegendo o pobre flagelado. O brado que solta faz metade dos demônios recuarem, a outra metade não recua por um único motivo; falta de tempo hábil. Foram absolutamente todos atingidos, partidos ao meio, estripados, mutilados...
A voz outrora horripilante, agora sem confiança alguma, profere a seguinte promessa antes de sumir nas sombras:
-Haverá outra oportunidade, guerreiro...
-Vou aguardá-la ansioso, demônio!
Sumiram... fugiram agindo covardemente, como sempre.

-Você veio me soltar? Sussurra o camponês numa mistura de alívio e espanto.
-Sinto, amigo... mas não.
-E o que veio fazer?
-Lhe proteger de perecer nas mãos deles, mas não posso livrá-lo de seu destino, porém, lhe trago boas novas.
-Novas?
-Há um levante na fé, seu exemplo de amor e caridade contaminou a outras, em breve esses campos estarão prontos para a seara, entende?
-Embora nunca tenha pretendido ser um exemplo, entendo perfeitamente...
-E não é tudo..
-Sim?
-Trago dois recados para você de seu Mestre.
-E...?
-Sua esposa e filhos estão em seus braços e felizes por sua atitude.
Ele não profere palavra, mas as lágrimas que correm como riachos em seu rosto traz a mensagem de alegria que explode em seu coração!
-E o outro recado?
-Seu lugar, amigo... Também está reservado e seu Mestre sente saudades suas.
Foi o único sorriso que ele usará pelo resto da vida.

Auriel continua de guarda o resto daquela noite. Não exatamente por acreditar que os demônios irão voltar, na verdade ele sabe que o ‘recado’ a eles já foi dado. Ele permanece em companhia, por solidariedade e vê que a exemplo de outros mártires, o camponês canta canções alegres mesmo depois do susto e do medo.
Ele sabe que quando a manhã despertar, sentirá a maior dor física que jamais sonhara, porém ao menos, seu espírito estará livre!

Em outro lugar, um farfalhar faz fundo ao som do aço místico cortando carne pútrida. A guerra jamais termina. Onde agirão da próxima vez?

Wendel Bernardes.










sábado, 13 de abril de 2013

Um Conto Estranho?



Era uma pequena cidade do interior nada sofisticada e com hábitos bastante provincianos se comparada às metrópoles cosmopolitanas por natureza.
Mas se engana quem acredita que esses hábitos se traduzem por abandono. Muito pelo contrário. A prefeitura de Singela, numa administração bastante longeva de um prefeito orgulhoso, cuida de cada detalhe fazendo daquele lugar quase um pedacinho do céu. Principalmente incentivando a religiosidade do povo.

São sobrados tombados pelo patrimônio público e cedidos para igrejas neopetencostais, barracões de santo com contornos estruturais invejáveis aos da cidade grande e cuidado carinhoso com a igreja da matriz, essa sim o xodozinho de todos!

Podia-se dizer que o prefeito estava feliz com a instituição da religião na vida do povo em seu mandato. Quando argüido do por que de tal paixão pela religiosidade, respondia cheio de si; ‘A Religião alimenta minha alma!! Note nossos jovens, dizia; são participantes de quermesses, cultos, missas, congressos, sessões e assim ausentes da pagina policial!’
E era fato; o consumo de drogas ilícitas era mesmo muito baixo, quase nulo, fazendo daquela terra uma utopia com endereço fixo.
E continuava: ‘Chequem os obituários. Morre-se aqui de velhice e mui raramente de doença – pois ninguém está imune – mas ainda assim a fé de nosso povo cura a muitos!’

Nada se poderia dizer a respeito, era exatamente verdade cada dado apresentado pelo líder político de Singela. Ele mesmo imbuído de autoridade outorgada a ele (segundo ele mesmo) pelo próprio Deus, examinava de perto cada instituição religiosa, cada agremiação de fé.
Freqüentava batismos evangélicos, festas de santos da umbanda, batizados católicos, reuniões de ação social espírita. Até tomou certa vez o tal do ‘santo daime’. Sentia-se responsável por afastar os charlatões da fé do meio do povo. Perdeu-se a conta dos caras-de-pau que botou pra correr da cidade apenas em perceber suas motivações. O negócio com ele era sério! ‘Com religião não se brinca’; dizia!

Não se cansava nunca. Seu compromisso era esse em primeiríssimo lugar e por incrível que pareça, sua vitalidade era invejável. Por mais que batalhasse e que passassem os anos, estava cada vez mais jovial, mais vivaz!  
Alguém duvidaria de sua missão? Jamais!!!

Num radiante domingo, dia de contemplação religiosa para a maioria das seitas, quase se podia notar o ambiente cheio de espiritualidade solta no ar, como em ondas douradas pelo céu...
E assim aquele homem guardava em seu coração segredos que nem mesmo o mais puxa-saco de seus assessores poderia sequer desconfiar.

Era noite alta naquela sexta-feira quente de lua minguante, quando entrou em seu modesto carro usando roupas estranhas e grande chapéu que lhe cobria o rosto.
Ia em direção a uma fazenda abandonada, perto de onde tempos atrás se dizia ter um cemitério de escravos mortos por rebelião nas antigas fazendas ricas de cana-de-açúcar do Brasil Colônia. Lá, grupo seleto de distintas figuras, em sua maioria vindas de outras paragens, preparava-se para oculto ritual pagão de louvor a divindades desconhecidas pela maioria.
Mantos negros tomam o lugar de roupas civis. Faixas escarlates cingem os peitos, utensílios dourados figuram nas mãos como estandartes loucos para serem exibidos reservadamente.
Um estranho cântico macabro que emite apenas uma nota grave e contínua (cuja letra desejo ocultar) se faz ouvir em meio a tochas de fogo acesas por queima de pólvora seca. A vista de longe seria bela, caso não se tratasse da visão do mal!

Assentado na primeira fila, perto do púlpito de madeira arcaica com entalhes rústicos estava o tal prefeito local, porém, suas feições estavam diferentes; velhas, cansadas e bizarramente deformadas como se atingido por dor lancinante. Mas seus olhos brilhavam como o fogo embevecido das tochas. Algo que o interessava estava por acontecer.

Figura alta, de semblante sínico tomou a palavra.
- Caros irmãos, quero aqui dizer de minha alegria em encontrar esse lugar em plena ordem. Essa cidadezinha, como todos sabem, bebe do cálice da fé direcionada, focada na religião e na prática das cerimônias que tanto faz crescer nosso poder místico.
Cada celebração, culto, missa, reunião ou sessão, lançam forças inimagináveis pelos fiéis que acrescenta significavelmente o nosso poder!

A platéia enfeitiçada ouve atentamente:
- Hoje queremos realizar a cerimônia que dá renovo às nossas forças místicas, e em particular a um de nossos mais ilustres membros.
Sem mais palavra alguma, ergue-se o prefeito e dirige-se para tomar posição atrás de um biombo onde uma chama tênue revela sua silhueta. É na verdade alguém curvado, envelhecido. Aquela era sem dúvida alguma a sombra de um ancião!
O sacerdote com expressão sínica faz uso de uma grande urna, onde repousa um notável liquido dourado. Mergulha ali um de seus inúmeros utensílios, colhendo generosamente o líquido para depois o espargir sobre o corpo quase morto do velho. Ele o unge... não, ele o embalsama!
A magia age instantaneamente e não há mais um velho decrépito diante dos olhos da congregação macabra, mas de novo um homem jovem, forte e robusto. Seu corpo está incrivelmente renovado, ereto e funcional! Em nada lembra a figura anterior.

O milagre místico se deu em meio à histeria coletiva e ao êxtase dos presentes!
- Esse líquido precioso, irmãos, colhido das celebrações e louvores nos trás vida e longevidade. A religião flui em vida para nós! Não mais repetiremos o erro de nossos ancestrais que mataram em nome das religiões. Agora em nome dela teremos vida!
Que vivam as instituições religiosas e suas preces contínuas.
Que vivam suas louvações frenéticas e práticas sacras.
Que viva nosso culto onde nos beneficiamos do poder jamais antes provado por homem algum...
Que o medo da morte e danação eterna os persiga e cada dia mais sejamos...
Imortais!!!

Wendel Bernardes.