quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A história de Alonso, o incompreendido.




Num mundo tão diversificado, com grandes possibilidades e realidades, encontramos todo tipo de gente. Uma dessas ‘gentes’ é o Alonso.
Sempre se sentiu “o cara”. Era “o cara” no futebol e por isso os moleques da rua nunca o chamavam pra jogar pelada no campinho.
Era “o cara” entre as cocotas, por isso seus amigos sempre saíam sem convidá-lo pros agitos da juventude, afinal se ele fosse, pensava, não sobraria cocota sobre cocota!

Conheceu uma professorinha, moradora da zona rural de uma grande metrópole. Era moça simples, acanhada – tímida mesmo – porém jeitosa e formosinha à vista! Com a lábia que cria possuir, Alonso o garanhão do pedaço, adiantou-se na conquista. E não é que levou mesmo?
Será que conseguiu porque a professorinha era do interior e não conhecer as maldades da cidade, ou Alonso conseguira mesmo uma lábia pra ganhar as meninas de verdade? Ninguém sabe dizer, mas até hoje se perguntam todos.

Ficaram juntos uns oito anos. A professorinha era moça acostumada com vida dura, talvez por isso tenha havido tanta durabilidade na relação com esse cara. Mas vivia num inferno! Alonso era um cara chato. A última palavra sempre tinha que ser a dele, coisa característica de gente que não manda nem em treino de time de futebol de botão!

Nasceram lhes dois belos meninos, puxaram a mãe, é claro! Alonso tinha aquele jeito de neanderthal misturado com cara de tratante de filme dos anos cinquenta, desses 171 que permeavam as cidades grandes daquela época, e dessa também!
A professorinha não poderia aguentar mais tempo que isso, mandou Alonso pro sexto dos infernos, porque os quintos, como se diz, já estava lotado. Ele não queria descuidar, afinal, aquela ‘oferenda mal arriada’ não poderia voltar pra sua porta. Vai de retro!

Acha que isto o fez refletir seus gestos? Claro que não! O negócio é curtir a nova vida de solteiro, oras!
Procurou pela velha galera do futebol e pela turma das baladas com as cocotas e não encontrou ninguém. Bom, na verdade encontrou a todos, mas não estavam mais ‘disponíveis’. Todos estavam fazendo coisas realmente importantes tipo; faculdade,  emprego, casamento, especialização na carreira. Que gente chata!

Decidiu viver sua segunda adolescência com 35 anos, que são, segundo ele, os novos 17,5! Namorou, terminou. Morou junto, separou...  trabalhou, encheu o saco do trampo. Comprou carro tunado, vendeu... Foi pra academia, queria ficar sarado, quem sabe aparentar uns 10, 15 anos a menos, ou tantos quantos anos pudesse sugerir!

Mas cansou da segunda adolescência. Decidiu amadurecer também um pouco tardiamente. E o que mais deixaria alguém com cara de maduro senão uma boa religiãozinha. Não passava nem perto da igreja romana, aquela liturgia lembrava muito da professorinha que era bem carola... Ah, não!

Frequentou religiões afrobrasileiras, mas o ‘santo’ não baixava em sua presença. O pai de santo pediu que tão urucada figura caçasse seu rumo, quem sabe no budismo taoísta, no Jorei Center, ou quem sabe uma igreja crente...

Ele não sabia o que era Jorei e acha essa história de budismo e contemplação coisa pra monge dormir... Então só restava a igreja crente.

Passou na porta da Igreja Mundial Universal das Galáxias do Reino de Zeus e decidiu não ficar muito por lá afinal, se eles quisessem fazer um exorcismo não iria dar certo ao exemplo do que aconteceu no centro espírita.

Foi presbiteriano, mas não conseguiu entender esse tal Calvino. Não foi luterano, pois Lutero era por demais revolucionário!  Na assembléia tinha gente que gritava demais e ele não poderia aceitar alguém que gritasse mais que ele!

Difícil essa vida de chatinho, né?

Então se encontrou quando num bar, foi convidado a dar um pulinho na igreja da esquina... Perguntou pro mocinho que lhe evangelizou; “nessa Escola Dominical desce fogo?” o rapaz pensou que o bebum tava zonado com a cara dele, mas foi gentil, como os crentes tem que ser!

E ele foi.
Na aula, fazia diversos comentários que possuíam sempre uma conotação mais coloridinha da verdade. Queria participar do louvor mesmo sem tocar nenhum instrumento ou cantar. Deve ter imaginado que cantar na igreja era dar uma idéia nas irmãzinhas do coral protestante!
Ele explicou que de tantas vezes que ouvira sua musa inspiradora Ana Carla Faladão, poderia ‘ministrar’ em qualquer lugar.

Não passou no teste, mas ficava lá atrás cantando mais alto que os vocalistas pra mostrar seu vozeirão de Pavarotti semitonado.
Ao final do louvor dava notas; hoje foi 5... repetiram muito o refrão e não gostei daquela versão do hino que cantaram.
Um dia chegou azedo e disse assim pro líder do louvor: “Cara, seu louvor é sofrível!” o rapaz engoliu a seco e passou batido.

Foi assediado por uma solteirona, duas viúvas, e um seminarista meio estranho. Rejeitou a todos, ninguém estava no seu altíssimo padrão de mulher (e de homem).

Cansou daquilo também, decidiu seguir seu caminho sozinho, ninguém poderia lhe entender mesmo!
Sua ex, seus filhos, seus amigos, patrões, irmãos na fé... Nem Jesus! Ninguém poderia vislumbrá-lo direito. Era muito complexo, um universo inteiro num corpinho de quase quarenta com cara de trinta e nove e meio...

Quer saber? Antes só que mal acompanhado, disse isso enquanto passou no shopping pra compara umas roupinhas estilo meio colorè...
Renovou seu guarda roupas, seu estoque de chiclete tridents, comprou umas calças laranja fluorescentes dois números abaixo e foi viver sua “terceira segunda infância” pois os 40 são os novos 18!

Vai arrasa, ném!
Wendel Bernardes.

(Postado originalmente no Café com Leite Crente)


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Samba da Vida de Nice.




Nice era mulata formosa, daquelas que paravam quaisquer pagodes. Era carioquíssima da gema e da casca do ovo, como gostava de dizer ostentando um sorriso de perolado perfeito.

Conseguiu muitas de suas belas curvas nos sobe-e-desce das ladeiras das favelas. Isso mesmo; favelas no plural! Sua família honesta e temente a Deus, como dizia vó Maria, se mudava toda vez que o ‘bicho pegava’ na favela que viviam. 

Então era começar tudo de novo; invadir o lote, cercar o terreno, arrumar madeira pro barraco, ‘chamar na mão’ com o martelo...
Era uma família matriarcal, sua vó Maria e sua mãe Joana, só conheceram homem na hora do ‘bem bom’ como diziam, depois estavam sozinhas na vida, sambando pra não cair. Mas quem disse que Nice se abalava? Cantava sempre um refrão positivo dum partido alto e lá ia agarrar a vida à unha!

Ela fazia de tudo um pouco; faxineira, manicure, arrumadeira, passadeira, etc., mas seu divertimento estava em frequentar a quadra da escola preferida nos ensaios técnicos da bateria. Seu coração parecia explodir ao som dos surdos e tamborins. Era verdadeiro frenesi.

Mas quer saber? Nice tinha dúvidas se a vida era apenas isso. Às vezes, quando chegava de um dia de trabalho, ou mesmo do samba, depois de driblar os barbados louquinhos por um pouquinho mais de seu molejo, deitava sua cabeça no travesseiro de retalhos que vovó fizera e contemplava a majestade do céu estrelado do alto do morro pela fenda duma telha. Aquela mesma que fazia jorrar água nas chuvas de verão (e de inverno também, né?), mas agora a fenda fazia-lhe viajar no infinito enquanto se perguntava quem teria composto essa samba de céu estrelado. Foi talvez a primeira vez que Nice perguntou-se realmente sobre Deus.

Semanas depois, durante mais uma das faltas d’água que assolava a favela, sambando com vasilhames como adereço de cabeça nas vielas, passou num beco e ouviu alguém cantando uma canção que não era um samba, mas que com a mesma alegria falava das maravilhas da criação e de como Deus as fizera, uma a uma...

Pôs de lado a pesada lata d’água e não se fez de rogada, cariocamente bateu palmas e gritou: “Ô de casa!”
Então uma velhinha, mais acabadinha que sua vó Maria lhe saudou com um sorriso meio desdentado, porém franco e sincero.
- Bom dia minha filha, disse a velhinha.
Nice foi direto ao ponto;
- Eu ouvi uma música que falava da natureza, e de como Deus fez tudo nela... a senhora...
- Seu eu canto? Perguntou satisfeita a velhinha.
- Na verdade eu já cantei minha filha, isso que faço hoje é mais um sussurro que canto... e riu de si mesma.
Mais uma vez, de forma direta disse Nice:
- Na verdade quis saber se a senhora é... crente!?
O sorriso da velhinha transformou-se numa gostosa gargalhada vinda da alma e disse:
- Sou crente sim, minha filha, mas já me chamaram também de ‘bíblia’, ‘beata’ e até de coisa muito pior, disse meio corada de vergonha.
-É que eu estava pensando Nele esses dias. Foi Ele mesmo quem criou o mundo? A mim ou a senhora?
- Foi Ele sim, minha linda, Ele me criou, fez a natureza e desenhou você e cada beleza de seu corpo e de seu coração.

Até então Nice não havia imaginado dessa forma, criada pelas mãos de Deus, isso daria um samba-enredo, pensou.
- A qual igreja a senhora pertence? Perguntou já meio sedenta doutra água que sua lata não poderia carregar.
- Sou de Jesus minha linda, mas quando minha pernas fracas permitem, congrego naquela igrejinha azul, perto da Biquinha.
Claro que Nice conhecia a tal Biquinha, afinal a falta d’água no morro num dava tréguas e era de lá que essa moça tirava água, da famosa Biquinha que nada mais era do que um ‘gato’ no encanamento público que servia à comunidade na hora do sufoco.

Decidiu deixar o pagode desse domingo pra conhecer mais do Deus compositor do samba mais belo que já havia sido composto: a vida!
Chegando lá, depois de se arrumar muito bem com seus breguetes como se fora ao ensaio técnico, sentou na frente pra procurar sua amiga, curiosamente não a encontrou.

Embora não conhecesse nadica de nada, achou linda aquela cantoria toda e o pastor falava, segundo ela, igual político que visitava o morro em época de eleição. Sentiu-se honrada de estar ali, principalmente, pois os ‘irmãos’ não a olharam como um pedaço de carne, como os caras do samba a olhavam.

Sem pensar duas vezes, levou seu molejo a frente do altar na hora do ‘apelo’, e chorou muito ao ‘aceitar Jesus’, pelo menos foi isso que o pastor disse que fizera ao ir lá na  frente. Nice gostou.
Seu coração sincero batia ainda mais forte que cada bumbo da bateria da agremiação que frequentava...
Aliás, frequentava mesmo!
Deixou de sambar, parou de ir à quadra da escola. Agora sua rotina era ir aos cultos da igrejinha azul da Biquinha.

Aos poucos largou também seu molejo, suas roupas coloridas foram trocadas por vestidões retos e de cores sóbrias, sem decotes e lascas, como dizia o pastor, andando como ‘convém a uma serva do Senhor’.

Seu sorrisão perolado foi virando agora simples saudação com a cabeça. Os barbados que a seguiam nas ladeiras louvando a Deus por seu rebolado já não a perseguiam mais. Parecia que a igrejinha azul da biquinha ganhara mais uma fiel, mas que o morro perdera muito em não ver aquela alegria desfilando em suas vielas.

Tempos depois, Nice passou com sua lata na cabeça em frente a casa da velhinha que não vira mais. Havia ainda lá uma janela aberta onde uma senhora, bem mais jovem que a velhinha, lhe explicou que Dona Selmira, havia ido cantar seus louvores mais perto de Deus.
Nice entristeceu-se e contou àquela senhora, que julgou ser filha da velhinha, de seu encontro com a doçura que recebera dela.

A senhora com olhos lacrimejantes disse:
“-Então é você?”
Tirou de dentro dum bibelô papelzinho dobradinho várias vezes, meio mal escrito dizendo:
“Mulatinha, nunca deixe de encontrar o Criador em seu coração, é lá que mora tanto Ele, quanto a alegria que Ele mesmo te deu ao nascer!”
Agora eram duas a chorar!
Nice entendeu o recado.

Havia encontrado o maior Tesouro do mundo, mas perdera a alegria e o desejo de manifestar quem Ele é no sorriso sincero que sempre carregara.
Deu uma guinada na vida e percebeu, mesmo com respeito e devoção, que achar o Criador não era perder o que Ele criara!

Hoje em dia Nice samba em louvor ao Senhor que lhe criou e lhe deu vida, e sabe que em seu coração há um bem maior que tudo que o mundo pode dar.
Seu sorrisão está mais brilhante do que nunca, e agora quando olha pras estrelas na mesma fenda do barraco, sabe de onde vem seu ‘brilho interior’, sua alegria, sua paixão pela vida.
Vem do Criador!

Moral da história:
A religião engessa as curvas e o molejo alegre que Deus criou, mas o contato com Ele, liberta de tudo!

Wendel Bernardes.



 (Texto postado originalmente no Café Com Leite Crente e no Conexão da Graça).

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Saudades de Nosso Antigo Grêmio tão Querido!




Aquela era uma ruazinha pacata de subúrbio, quase não passava carro, quase não passava gente.
Suas casinhas eram típicas das vielas suburbanas cariocas. Noutros tempos, ouvia-se nas esquinas o som do violão, do pandeiro e do bandolim, em roda de choro com galantes rapazes cantando o amor à moda antiga. Mas hoje, nem isso se vê.
Da boa época só restou mesmo o galpão abandonado do grêmio, onde se fazia de festa de criança a batizado de boneca.
Tudo era motivo de celebração. Bem... era!

Até que um dia, um carro meio estranho chegou por aquelas bandas. Reluzente, fazia-se destacar dos fusquinhas desbotados e dos chevettes oxidados parados nas calçadas, quase cimentados lá, sem uso, afinal, nessa rua quase não passava carro.

Os vizinhos por detrás das cortinas, esticavam os olhos pra ver onde iria estacionar tão importante automóvel, alguns espantaram-se ao perceber que o destino era de fato o velho grêmio abandonado.
Sujeito não muito alto, aparentando meia idade, saltou do veiculo ajeitando as calças lusitanamente. Balançou o molho de chaves e pendurou o celular à vista, entre a pançorra a e pochete. Acompanhava-o cidadão de dois metros pelo menos, com terno negro e óculos escuros. Clássica definição de leão de chácara, segurança, guarda-costas, mas ele o chamava carinhosamente de ‘meu diácono’.

Olhou como “espia” que visa tomar uma terra de assalto. Viu no galpão a oportunidade de colher grandes cachos de uvas, que só poderiam ser carregadas por corpulentos ajudantes. Enxergou, com seu olhar empreendedor, uma terra que emanava leite e mel de possibilidades. Diferente de espias doutros tempos, sorriu e entrou de novo em seu carrão cintilante.

Semana e meia se passou e quase sem sentir, o grêmio ganhou cara nova. Bela e moderna pintura de cores fortes por fora, ar condicionado por dentro, cadeiras longarinas reclináveis, piso de mármore branco na entrada e no velho salão de baile, antes com gastos tacos de madeira, agora revigorado com bom e caro porcelanato italiano.
Até o humilde palquinho, acostumado a servir de base para o célebre ‘parabéns pra você’ de cada final de semana, ganhou ares de Broadway. Belo carpete azul profundo nos entornos, madeiramento nobre e claro no chão, e no teto bons refletores que eram comandados de dentro de um quartinho suspenso metro e meio do chão, ao fundo do salão.

Começou o burburinho entre vizinhos. O mais exaltado sugeriu um ‘bolão’ pra ver quem adivinhava o que se tornara o antigo grêmio tão querido.
Dona Moça, que viera da Zona Sul após a triste separação e sempre foi meio esnobe apostou cinco cruzados em seu maior sonho; um Teatro! Já se imaginava atravessando a rua desaposentando seu escarpin vermelho e seu casaco de vison, frutos doutras épocas, de vacas mais gordinhas.
Seu Gastão apostou vinte e cinco na sua maior esperança; um Bingo! Visualizava o aparecimento dos caça-níqueis piscantes, e o desaparecimento de seu dinheirinho. Verdadeiro frenesi!
A galerinha teen pediu aos deuses olimpianos Stephenie Meyer, J.K. Rowling, e C.S. Lewis, todos inspiradores de livros adaptáveis que fosse um Cinema. Imagina assistir às intermináveis sagas “Senhor dos Anéis Crepusculares das Crônicas Narnianas” ali bem pertinho... seria o céu, ou o a Terra Média, ou o Inferno, sei lá! Apostaram 15,75, foi tudo que possuíam nos bolsos, junto aos chicletes e fotos do Justin Bieber.

Seu Eclético apostou 10 contos. Quando lhe perguntaram a opinião, disse que poderia ser de tudo um pouco. Cinema, Teatro, Bingo, quem sabe até Cabaré? As mulheres se benzeram por fora e por dentro, os homens pediram a Deus em seu íntimo que se fosse inferninho, que ao menos, tivesse saída para os fundos.

Até o dia da inauguração foi febre de 40 graus. O bolão só crescia. Uma placa foi afixada de madrugada, devidamente obliterada por sacos negros, clima teatral, pensou Dona Moça; ares de Bingo clandestino, achou Gastão... Mas todos estavam aflitíssimos.
No portão, feito a mão, cartaz dizia assim; “Aos membros da comunidade, convidamos para a inauguração neste domingo às 19:00, venha e traga sua família”.

Às 18:00 do domingo fazia-se fila na porta do antigo grêmio. Seu Eclético misturava tudo que seu armário continha. Já os teens, preferiam cores cítricas misturadas com cabelos alisados, All Stars nos pés e Tridents nos cantos da boca. Até a banda do chorinho, já não tão belos, mais igualmente elegantes, foi representada por dois ou três dos que sobrevivem dos tempos de romantismo.

Ao abrirem os portões, um mundo de cores sóbrias e clima de montanha abraçavam os visitantes ao som dum hino neopentecostal, berrado por uma gordinha gospel ao centro do palco. Quando todos perceberam era tarde demais. Estavam num culto de inauguração da mais nova filial da “Igreja Evangélica Apostólica Renovada Universal do Poder de Jeová”. Já não dava pra correr, seriam pegos pelos diáconos treinados como leões de chácara pela família Gracie.

Subiu no palco o senhor da pançorra, agora menos enigmático, dono do carrão reluzente que dizia:
“Meus caros amigos e futuros irmãos, a partir de hoje estaremos zelando por suas almas como bom rebanho do Senhor”... “estaremos disponibilizando curas, revelações, correntes fortes, unções e muito mais”... “preparem suas carteiras, pois um mundo de possibilidades proféticas vos aguarda”.

A tensão rolava no ar. Descobriram naquele instante, enquanto caminhavam para o batistério, que não tinha mais como voltar atrás, não sem topar com os diáconos discípulos dos Gracie. Agora era torcer pra pelo menos, conseguir a salvação parceladinha no cartão de crédito, pois à vista tava caro pra c...aramba!
Aleluia, Jesus!

Wendel Bernardes.

(Postado originalmente no Café Com Leite Crente)


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Vidas Suburbanas...




Tarde-noite no Centro do Rio, mas poderia ser numa outra metrópole qualquer. O cenário em nada lembrava as lindas canções de Tom e Vinicius. Na verdade tudo se parecia mais com um pesado samba canção, daqueles de dor de cotovelo, composto no subúrbio, num ‘Divino’ qualquer.

Eram semblantes pesados, preocupados, sofridos e cansados. Gente e mais gente acotovelando-se num ponto de ônibus, mas poderia ser numa estação de trem ou metrô, ou ainda num píer de barca qualquer, que levasse a lugar qualquer.

Não se falavam. Não se tocavam a não ser pelo óbvio esbarrão que se sente nesse ambiente. Na verdade as caras eram mesmo de poucos amigos. Os noticiários fomentam um medo coletivo que faz com que o próximo... (ou seja, aquela pessoinha ao seu lado), não seja exatamente seu ‘semelhante’, mas sim na verdade seu inimigo em potencial!

Em meio a fumaça de gazes tóxicos ‘permitidos’ emerge um coletivo amarelado, já lotado, com gente igualmente cansada, aguardando pelo ponto seguinte onde mais ‘próximos’ entrarão fazendo daquela viajem verdadeira sucursal do inferno.

Muitos vinham em pé. Na verdade eram maioria absoluta. Certamente mais de uma centena de sofridos cariocas, alguns fluminenses (e diversos imigrantes) se entreolhavam de rabos de olhos certamente pedindo a um deus qualquer que aquela viagem logo tivesse fim.

Amendoim salgado, com casca ou sem casca... bala halls, cerveja geladinha... promete a única voz que quebra o gelo, isso se não considerarmos o ronco daquele motor volvo um grito. Alguns se motivam e mastigam. Outros sedentos de mosto apenas aliviam sua sede de mais nada, num lugar comum, numa viajem comum, numa vida incomum demais.

Até que uma criatura pequena, de mãos dadas a uma idosa adentra como pode no coletivo. Os rostos em redor torcem narizes, fecham as caras e maneiam as cabeças. Mais gente, e ainda por cima velhinhas e crianças... Onde está o governo que não cuida do transporte urbano de massa? Esse é o pensamento que permeia a mente de um ou outro, mas poderia ser o pensamento de todos, em qualquer lugar caso vissem a cena.

Era uma menininha, aparentando não mais que quatro aninhos ou coisa assim... Já o tempo que faltava à menininha sobrava na velhinha que a guiava. Alias quem guiava quem?
Usava um vestido com rendas e babados, como que remetendo a épocas passadas, onde tudo parecia ser mais fácil, onde o engano se fazia presente apenas por despertar essa aparência.

A pequena pôs-se a cantar coisa qualquer aos ouvidos desacostumados a melodias infantis. Ou seriam esses ouvidos desacostumados a melodias quaisquer? A questão é que cantarolava sem parar num pequeno fôlego só, cantigas antigas ou cantos novos
Mas sempre com aquela pequena voz de quem mal fala, de quem mal sabe o que faz.

Até que uma senhora decidiu abolir seus fones de ouvido e passou a fitar a pequena com olhar ao mesmo tempo curioso e terno. Não demorou nem meio ponto de distância pra que ela mesma, acompanhasse balbuciando errante a letra à pequena de vestido retro.

Agora o incômodo era maior. Não fosse apenas a menina a cantar, mas era já uma dupla que oscilava entre as canções diversas.

Um rapaz com pinta de Office boy com seu jeito peculiar passou a improvisar algo como que uma batucada de canto de boca. A linha percussiva estava assim por se definir. Algum tempo que eu não saberia precisar depois, o gelo estava completamente quebrado. A menina agia quase como uma mestra de cerimônias e geria seu público com ares de quem o fazia há décadas.

A viagem ainda demoraria muito a dar cabo à agonia de contar com serviços públicos numa metrópole, mas agora, entorpecidos pela inocência, pela alegria e pela vida da criança. Os adultos estavam menos angustiados. Pra alguns o final da viagem até chegou rápido. Pra outros demoraria o mesmo tempo, mas o fato é que o destino que levaria aquela princesinha ali mudou a viagem e talvez a vida de muitos dos que viajavam no ônibus.

Foram pra casa, pra faculdade, pras igrejas, ou visitar as mães, mas agora o caminho era embalado por nova perspectiva. Mostrando que uma canção pode influenciar não só um dia, mas despertar a inocência perdida dentro de cada um, fazendo seguir em frente para quem sabe focar a dor, ou a anestesia de viver amanhã mais um dia, em mais um coletivo qualquer, em mais uma estrada qualquer.

Wendel Bernardes.

(Postado originalmente no Blog BORA LER de Regina Farias)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Onde Menos se Espera...



Ela acordou e o sol já havia sumido do céu. Chegara em casa exausta, com suas pernas formigando de tanto andar nos saltos de um lado pro outro durante toda aquela sexta-feira suja.

Abriu a janela e, como sempre, se perguntara se fazia um café ou se preparava o jantar. Olhou-se no espelho e viu o reflexo de alguém que sonhava ser quando era criança. Era bela, mas desprovida de viço. Era um subproduto da moda e do conceito de beleza comercial do mundo. Fora enganada pelo falso glamour da vida no Rio de Janeiro.

Enquanto fazia o café, foi levada por alguns instantes na memória até a cidadezinha no interior de Minas Gerais de onde veio. Lembrou do cheiro do café roceiro, em que se cozinha o pó ao invés de somente coá-lo com água quente. Lembrou do coador de pano, do perfume da manteiga feita pela avó, derretendo sobre o aipim cozido e do odor do bolo de fubá com erva-doce.

Os odores da fazenda lhe lembravam de tudo, menos pureza e tranqüilidade. Logo, o clima bucólico e agradável mudou em sua mente. Lembrou dos abusos e violência de seu padrasto, que a usava de madrugada e a largava com ameaças e xingamentos. Criticava suas roupas na frente dos outros para manter a pose de moralista, enquanto gritava sem pudores que ela, só daria mesmo para ser p#t@ na cidade grande!

Acordou daquele pesadelo quando o apito da cafeteira soou.
Engoliu o café, tomou um bom banho, vestiu seu lamê e foi à luta na orla de Copa.

A brisa oceânica lhe cortava o rosto que lhe aparentava talvez uns dezesseis, mas sabia que o peso dos vinte e quatro estavam sendo cobrados pela vida. Vivia pernoitada quase sempre, por isso descobriu as drogas. Elas simulavam o conforto dum descanso e a energia pra trabalhar, encarando os caras que a intimidavam com olhares sujos, como objeto de desejo, ou pedaço de carne em varal de açougue.

Às vezes se sentia suja, usada. Mas aí lembrava que hoje se julgava livre dos males daquele traste que a vida lhe fez de padrasto.

Quase sem querer notou um belo rapaz que fazia sua malhação naquela hora ali na orla. No Rio é assim, qualquer hora é tempo de aproveitar a areia da praia, nem que seja pra deixar o corpo em dia, já que sua mente estava longe...

Ela o abordou e ofereceu-lhe seus serviços... Foi ignorada!
Pasma, reposicionou-se em frente ao rapaz, tocou-lhe o rosto com pose de ‘femme fatale’ e disse:
- Tá a fim de um programinha, gostosão?
- Oi, desculpa... Nem te vi... O que disse?
Ela irou-se com o descaso, mas continuou:
- E aí, quer agitar hoje?
- Poxa, foi mal, sou compromissado!
Ela soltou uma gargalhada desprovida de alegria, porém sonora.
- Não estou querendo saber da tua namorada, garoto! Quero fazer um programa... E aí? Topa ou não?
- Eu não tenho namorada, falei de outro compromisso, emendou ele.
- Gay? Que desperdício! Falou ela meio sem pensar...
Agora era ele quem gargalhava ruidosamente.
- Nãããão... Sou macho mesmo, ok?!
- Ué... isso que dá ficar só de malhação... Exercitou o corpo e a mente endoideceu, alfinetou ela. Você disse ser compromissado...
- Eu disse pra você que tenho compromisso, não disse nem que sou gay, nem que tenho namorada. Você é que deixou a vida te fazer isso, que nem tempo para entender uma frase você tem!
Dizendo isso, levantou-se enquanto limpava o excesso de areia que lhe agarrava o corpo e vestia a camiseta que estava sobre o “case” do violão de 12 cordas que tocava como poucos.
Ela, por sua vez, estava vermelha de ira! Tomada pela vergonha da verdade que tomou pela cara.

- Garoto estúpido! Disse e saiu desbaratada...
Ele sorriu, mas não de alegria... Sabia que a tocara de alguma forma.
- Hei... Peraí!
Ela sem entender sua própria reação, virou-se e atendeu ao chamado. ‘Será que ele desistiu de me esnobar’? Disse em voz baixa...
- O que você quer playboy?
- Não sou playboy coisa nenhuma, se você olhar naquela direção, lá no alto e focar os olhos, verá aquele luzinha laranja lá no morro... É lá que moro!
- Na favela?
- Isso mesmo! Trabalho aqui perto, faço faculdade noutro bairro, congrego aqui em Copa e moro na favela, disse enquanto sorriu fazendo seu rosto iluminar.

- E aí, porque me chamou? E que troço é esse de ‘congregar’?
- Te chamei, pois estou indo encontrar uns amigos e queria mesmo te convidar para dar uma chegada lá comigo.
- Uma festa?
- Mais ou menos... respondeu ele.
- Meu tempo é dinheiro cara e eu ainda não sei o que é essa coisa de ‘congregar’...
- Bem, sou o que você chamaria de ‘crente’ e congregar é estar perto de quem possui a mesma fé... Ou não, sei lá... Disse isso sorrindo meio sem graça pela explicação um tanto evasiva.

- Tá me chamando pra ir ‘na’ igreja, ou pra sair? Se for pra igreja, tô fora, nem pensar! Se for pra sair, pode desembolsar 100 contos adiantados, pois percebi que tu é doido!
- Ok, e se eu pagar pelo seu tempo? Teoricamente você num perde grana e ainda pode vir comigo... Num vou deixar de ser ‘cliente’, e aí, te levo pra onde eu quiser, que tal?

Ela ficou espantada com a insistência do crentinho, também ficou caidinha com o charme dele e pelo seu jeito simples e honesto de ser. Já que iria ganhar uma grana, decidiu ir à tal ‘congregação’...

Chegou lá constrangidíssima, achava que suas roupas não condiziam com uma igreja. Ele percebeu e disse; - Fica tranqüila, cê tá ‘em casa’...
Ela sorriu sem jeito, mas fora contagiada pela alegria daqueles jovens naquela noite de sábado. Eles tinham uma cara bem descolada pra crentes, mas o que mais a tocou foi ver o modo como aquele rapaz vivia sua vida sem os vínculos religiosos que ela cria ter um ‘crente’, principalmente pelo carinho que ele a tratava e pelo amor que possuía. Foi aí que ela entendeu o que ele quis dizer com ‘compromisso’... Não era com ninguém menos do que com Deus!

Analisou a sua vida e quando percebeu, estava mergulhada em lágrimas. Não era autocomiseração, era tristeza profunda por perceber que nunca fora feliz de verdade.

Pensou em sair correndo dali e foi o que fez assim que fecharam os olhos em prece. A orla nem era tão longe assim... Enxugou o rosto choroso, refez a maquiagem pesada no retrovisor dum carrão parado na esquina da Rua Nossa Senhora de Copacabana e foi correr atrás do prejuízo de ‘perder’ aquelas horas ali...

Não conseguia abordar ninguém. Os carros passavam, os convites chegavam, mas ela permanecia fixa naquele ponto da praia. Percebera que fora contaminada pela liberdade que aquela gente parecia irradiar. Eles eram livres mesmo, pensou. Eles estavam felizes em ser quem eram. Quanto tempo ela não estava feliz em ser ela mesma?

Ao olhar do outro lado da rua, notou aquele rapaz com semblante compenetrado, parecia balbuciar alguma coisa. Ele atravessou a rua quando se julgou preparado e reencontrou-a.
- O que faz aqui? Vá pra sua igreja! Vá ‘louvar’...
- Estou cultuando a Deus aqui mesmo com você!
Mesmo sem entender ela disse:
- Cara, vai viver sua vida, tá?
- Não conseguiria vivê-la se não te ajudasse a ser livre de quem o mundo te fez ser... Respondeu carinhosamente.

- Não quero ser crente, disse indignada!
- Não é esse o convite que tenho pra lhe fazer. Vim te oferecer Vida, e Vida abundante. Essa Vida que eu também já achei! Continuou seu sermão de beira de praia dizendo; Jesus nunca julgou a ninguém, pois possuía amor para entender cada pessoa como se fosse a única vida na Terra. Ele entende você e por isso te ama... muito!

As lágrimas voltaram a percorrer o rosto da garota, enquanto era abraçada pelo rapaz;  sentia o Amor sem interesses percorrer seu corpo, partindo de seu sofrido coração. Permitiu-se deixar Alguém entrar em sua vida. Desbloqueou as travas que a impediam de ter fé em si mesma e laçou-se naquele momento.

Hoje, ela encontrou a liberdade que tanto queria. Sua vida não é mais uma sucessão de tristezas, mas uma busca de resgatar quem Deus queria que ela fosse desde o principio. Não se sente uma religiosa. Foi escrava da vida tanto tempo que decidiu ser livre e dar a direção de sua vida a quem a conhece melhor que ela mesma. Ela busca a liberdade das regras sem sentido, observando a Graça como ponto crucial de sua caminhada.

Agora quando se olha no espelho vê alguém que ela realmente sempre quis ser...
Feridas? Bem, existem marcas...! Nem de perto há nela o semblante preocupado de antes. Ela ainda pensa em sua terra natal quando sente cheiro de café fresco, mas agora sonha em visitar a parentela pra apresentar a sua família!
Ah, ia me esquecendo... Faz mais ou menos dois anos que se casou com o rapaz da praia. Ela o ama e sente ser correspondida. Estão aguardando a chegada de seu primeiro filho e decidiram chamá-lo de Victor, afinal, a vida venceu a morte e uma nova história se fez!

Wendel Bernardes.

(Postado originalmente no Blog Café Com Leite Crente)








sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Vida de Joãozinho.




A vida nem sempre é um mar de rosas, já diz o ditado. Ditado nada, assim o diga o Joãozinho. Menino simples do subúrbio do Ro, mas poderia ser de subúrbio qualquer, de lugar qualquer, de sorte qualquer.

Era o primogênito dum casal que pouco conviveu. Parece mesmo que juntos estiveram apenas para que o menino nascesse. Mas tinha muitos irmãos, de um lado e do outro também. Teve a vida de menino pobre mesmo, acostumado a algumas privações e sufocos. Mas ‘normal’ na vida era isso mesmo, não nasceu ‘virado pra lua’, então, como dizia com muita propriedade contemplando o próprio rosto no espelho; luta é pra ser vencida!

Ficava sozinho em casa quando ainda era pequeninho vigiando seus irmãos enquanto a mãe, agora sozinha, ia trabalhar. Como bom moleque, aprontava de tudo, mas sempre dava um jeito de se safar.
Era um tanto caladão, parecia que vivia dia e noite pensando na vida, no futuro, no mundo de tapas que tinha que dar ou levar pra tentar ‘ser feliz’.

Gostava de tudo que gosta moleque qualquer. De TV, videogame, futebol... mas agora se pensa você que o sonho do Joãozinho era virar Ronaldo, está muito enganado! Claro que gostaria de ‘ser alguém’, mas tinha seus dois pés firmados no chão enquanto sua cabecinha viajava no infinito dos sonhos. Se bem que sonho de menino pobre, se realiza com qualquer merreca, não? Obvio que não! Joãozinho era pobre só nas vistas, mas seu espírito era rico... nobre mesmo.

Já com doze anos, decidiu sair de casa. Não batia opinião com a mãe... tinhoso como era ‘sartou de banda’ lá pra casa da vó Nilde. Era mãe do pai, e como bem sabido, tinha uma simpatia imensa pelo neto, mas ficava por aí no quesito simpatia. vó Nilde era meio azeda, como que curtida no sal da vida para conservar a caminhada. Pra ela nem tinha como vir de conversinha fiada que num tinha tempo pra gastar com bobagem. Mas com Joãozinho não, nunca perdiam tempo discutindo, claro, que isso se devia mais ao espírito safo do garoto do que ao jeito de onça da vovó!

Moravam perto da Central de Abastecimento de Hortifrutis, lugar frequentadíssimo por todo o comércio carioca e de boa parte do Brasil. Quando o negócio ficava feio em casa, vó Nilde e Joãozinho iam à cata da vida por lá.
Pra muita gente isso é um fim, digno de relatos com fundo musical sensacionalista de programinha de quinta. Mas pra eles era só o meio. Viviam um dia depois do outro, como Deus queria. Falando em coisas divinas, Joãozinho um dia pensou que esse Deus até que poderia dar uma forcinha na vida.  Mas nada de favorzinho que a vida num tá pra dever nada a ninguém, nem pra Ele...Mas caladão como era, preferiu deixar isso só no coração mesmo!

Fez o caminho inverso a quase 100% dos moleques cariocas, não esqueceu o futebol, mas meteu a cara nos livros, imaginou que dando braçadas largas, ganharia a vida à remadas, como poucos garotos suburbanos pensam em ganhar; numa sala de aula!

Sua vó quase caiu sentada quando Joãozinho, doidinho da silva, disse que queria ser matemático!
- Matemático? Ganhando a vida fazendo o que? Vendendo calculadora na Uru?* (*rua Uruguaiana , a 25 de Março do Rio)
- Não vó, meu sonho um dia é entrar na faculdade, cursar matemática e dar aulas pra gente miúda, como eu fui um dia!
A vó emudeceu. Num sabe ao certo até hoje porque. Será que foi porque era voto vencido? Ou ainda por causa da emoção e orgulho que lhe sufocava o peito?

Então, decidido em lutar sua luta mais voraz, Joãozinho agora rapaz, olha pro céu como que em prece e pensa em pedir a Deus uma chance, mas não proferiu palavra. Ele até sabia como orar, o que não sabia era pedir! Sempre acostumado a cair na pancada com a vida.

Calou-se como sempre, mas sentiu que não estava só como nunca sentira! Uma quentura lhe envolveu o corpo de não mais que metro e meio de gente e seu coração parecia explodir, seus olhos marejados sentiam algo que jamais se deram ao luxo de sentir; AMOR!
Acho que esse negócio é coisa de Deus!

Descobriu Jesus quando o próprio filho de Deus se revelou a ele no caminho da vida. E não é assim com todos? pensava! Ao conhecer Jesus dedicou sua vida a Ele e usou seu corpo e sua alma pra dançar pra Ele, coisa que faz até hoje com o mesmo amor que sentiu lhe ser dispensado na vida! Falando em vida, ela ainda tá dura, obrigado! Mas agora as forças eram dobradas na tentativa de ganhar seu lugar ao sol.

Quando chegou o dia do vestibular não titubeou, a matemática o esperava lá na frente e seu Deus o instigava à seguir. Passou não só pra uma, mas pra duas faculdades públicas do Estado do Rio de Janeiro...
Pode então escolher a melhor grade curricular e o campus mais próximo de casa.
Ficou bobo de ver como ganhou ares de importância a sua vida.

Começou a dar aulas este ano e seu sonho está cada vez mais concreto, mais palpável.
Dia desses perguntei pro Joãozinho se ele sentia orgulho de sua vida, de seu caminho, afinal ele é o primeiro membro de sua família inteira a chegar na faculdade.

Com rosto enigmático e com testa franzida me disse: - Cara, num sei... Acho que não... e sorriu! Só pude sorrir junto com ele, pois a vida lhe ensinava a não ser tolo e viveu cada momento saboreando a verdade como um fruto vindo do céu, mas sem deslumbre!

Parabéns Joãozinho, sua vida me inspira!

Wendel Bernardes.

(Postado originalmente no Blog Café Com Leite Crente)


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Distante Reino sem Sonhos

Há muito tempo atrás num reino perdido e distante nasceu uma criança. Poderia ser um momento de júbilo para seus pais, ou quem sabe a alegria de sua parentela. Porém era um bebê não planejado, num reino onde tudo deveria seguir duríssimas regras de condita de vida.
Nasceu e criou-se em meio ao desdém, quase sem atenção alguma senão aquela mínima e indispensável a cada criança para sobreviver.

Apenas quando maior é que a criança pôde ver o mundo com seus próprios olhos. Antes, trancafiada como que numa quarentena eterna, apenas via o sol, a lua e algumas estrelas rebeldes que cismavam em parecer naquele estranho retângulo na parede que as pessoas chamavam; janela.

Mas quando viu as plantas, sentiu o cheiro da relva... quando vira o riacho e ouvira seu som contínuo e belo... quando tocou a areia o notou sua textura é que percebera o quanto lhe fora roubado, o quanto perdera. A vida era maior, mais profunda e larga numa escala jamais sequer concebida pela criança.

A tristeza poderia ter se apoderado dela, mas havia em seu íntimo um estranho dom... Tinha dentro de si, emaranhado em seu âmago o talento da fé. Cria fortemente que tudo que vivera até então possuía um estranho propósito. Cada dia obscuro, cada noite em claro poderia um dia tornar-se liberdade.

Além desse estranho dom, possuía também a criança um curioso poder; o de sonhar.
Agora que conhecera a relva macia, que sentira o cheiro das águas, que vivera instantes com os elementos, projetava em seu pequeno coração realidades inteiras.

Suas projeções mentais lhe permitiam não só produzir o que vira nos instantes de liberdade, mas criar verdadeiros universos paralelos onde ela era o centro, onde era o poder pra realizar seus próprios sonhos... ou planos!

Certo dia alguém mal intencionado olhou mais de perto a criança e notou curiosamente em seu quarto que as paredes, antes pintadas num tom sem graça qualquer, agora cintilava vida. Eram ramos, flores, raios de sol!
Como poderia fazer surgir tudo aquilo? Não se poderia permitir! A própria existência do pequeno ser afrontava as duras leis do reino perdido.
Além de desobedecer a todos ingenuamente, a poderosa mente da criança usou da ‘bruxaria de sonhar’... projetando ao seu redor felicidade, liberdade.

Mesmo criança deveria pagar! Trancafiaram-na num fosso, ou numa torre... Sabe-se lá qual calabouço! Esqueceram-na a ponto de nem sequer olhar pela fresta no momento de alimentá-la. Qualquer gesto era proibido!

Meses e anos se passaram até que mesmo num reino que está fadado a ranhura da dor, a vida trouxe esperança na figura de um novo rei que surgiu, nascido em meio a sentimentos tão conhecido, tão doloridos. E curioso fitou o calabouço escondido enquanto observava suas posses. Sem saber do ‘mal’ ali escondido fora ele mesmo conferir, com a curiosidade peculiar dos jovens, qual o motivo de tamanho esquecimento, tamanha dor.

Os ferrolhos quase não o obedeceram quando sua chave fez atravessar a fenda da porta. Ao forçar a pesada madeira viu inacreditavelmente uma porta para outro mundo, ou outra dimensão. Eram cores e calor, brilhos e texturas incríveis, jamais sonhados nem pelas mentes mais férteis (se é que isso existe nesse reino).

O que seria aquilo, magia negra? Bruxaria perdida? Ciência desconhecida? O medo tomou conta do jovem monarca, porém depois de alguns instantes de receio, deliberou em aventurar-se no mundo da criança.

Criança? Sim, ainda era uma criança mesmo depois de anos e anos... Com um coração intocado, envolta em fé e sonhos!  Engendrando planos e criando um universo perfeito onde nem paredes de pedra moldada, nem ferrolho ou escuridão poderiam trancafiar!

Os momentos tornaram-se dias onde o monarca perdido em conhecimento decidiu abolir as duras leis do reino pedido. Percebera que embora duras, austeras e sisudas, tinham poder algum sobre a mente de seus súditos e o coração sonhador daquela poderosa criança.

A última noticia sobre o reino perdido antes de desaparecer completamente dos escritos antigos é que se encontrava em plena restauração. Novas leis estavam sendo criadas tendo como base a liberdade de cada individuo, onde o sonho é permitido e até cultivados. Onde o maior poder está na fé e no desejo do coração. O novo rei percebeu que a verdadeira autoridade não está contada nas leis e no medo imposto, mas na liberdade de escolher servir a partir da admiração. Tudo isso vem por meio da fé, da liberdade, do sonho. Tudo isso a partir de olhar a vida sob a mente de uma criança.

Wendel Bernardes.

(Texto inédito)