sábado, 28 de abril de 2012

A Historinha de Aroldinho...

Hoje quero compartilhar com vocês a (não tão) bela história de Aroldo Caramelo. Nasceu pobre no subúrbio de uma metrópole qualquer, numa família de muitos filhos um pouco desestruturada pela estrutura icônica que seguiam como religião.

O pai era homem bruto, machão e duro com tudo e todos. Cuspia marimbondos até quando lhe perguntavam as horas na rua.
-Tá atrasado?... Sai mais cedo! Respondia com sua habitual certeza que o mundo inteiro estava sempre errado, se comparada à sua pessoa!

A mãe era dona de casa simples, carola, beata, cumpridora dos bons costumes e criara os filhos para serem, pelo menos um pouquinho, diferentes do pai. Sempre que podia, às escondidas, adoçava a boca das crianças com um pirulitinho colorido qualquer. Mas que o Deus Protestante nos livre de papai descobrir que andamos adoçando a boca... Cruz, credo, deve ser até pecado!

Um dia Aroldo ainda pequeno, sentiu-se tocado ao ver no céu belo arco íris. Como fazia parte de sua simplicidade herdada de mamãe, logo disse ao seu pai;
-‘Veja papai, que lindas cores o Deus Protestante pôs no céu!
Tomou logo um safanão pra não ficar abestalhado e mulherzinha, afinal arco íris é coisa de frutinha!
O pai nunca conseguiu entender pra que Deus pôs tantas cores no arco íris, num tava bom se fossem apenas cinzas e tons pastéis? Vai ver que coisa tão colorida foi criação do Demo, viu?!

Os anos se passaram e Aroldo Caramelo cresceu.
Seu pai havia morrido fazia pouco tempo. Morreu em casa mesmo, abraçado a um quilo de sal, que era pra fazer jus ao seu temperamento tão bem feito.

Mas a mãe resistiu bravamente, pois tinha o sonho de ver seu preferido Aroldinho virar doutor.
Poderia ser engenheiro, médico, ou coisa assim, mas dessas profissões não deveria abdicar, pois como mamãe iria ficar nos assuntos da vizinhança?
Enquanto falavam do filho da vizinha que está morando na França e manda postais com aquelas tanguinhas sensuais dizendo ser artista.
Meu Aroldinho não vai ficar pra trás, pôs os joelhos no chão e começou a pedir ao seu Deus Protestante que seu Aroldo tivesse a melhor profissão do mundo!

Como se o Deus Protestante tivesse ouvido, Aroldo já não tão doce como antes, chegara em casa com uma idéia fixa na cabeça. Vou ser pastor!
A mãe ficou com os cabelos (enrolados num coque) pro alto!
- Pastor, Aroldinho?  Tem certeza meu filho?
- É obvio mãe, o Deus Protestante falou comigo!

Como aquela senhora poderia questionar os santos-sacros desígnios divinos protestantes? Lembrou logo de suas preces recentes e calou-se.

Aroldinho matriculou-se no melhor curso teológico que a pensãozinha que mamãe recebia poderia pagar, ficou ali alguns anos. Formou-se com louvor, adoração, aleluias e hosanas, mas decidiu fazer doutorado, mestrado, a tantas outras coisas que o cursinho poderia lhe oferecer para focar mais perto da honra de seu chamado.

Aroldinho agora era um homem santo, religioso, cumpridor dos bons costumes como sua mãe, mas tornou-se durão, machão e amargo como seu pai.

Como todo bom pastor protestante seríssimo deveria ser, montou sua igreja baseado nos pilares da moral e dos bons costumes.
Fixou junto ao cartaz da igreja a seguinte frase: “Gayzinhos, lésbicas masculinas e coisinhas do tipo nem precisam entrar; primeiro vão se consertar, depois voltem e dêem o dizimo ao ‘Senhor Deus Protestante’!”
Assim ficou conhecido como o pastor mais duro e fundamentalista da paróquia, digo das redondezas.

Mamãe fica pensando nos motivos que Aroldinho teria para ser pastor.
Então um dia, já bem velhinha e cansadinha da vida religiosa que teve, pediu ao Deus Protestante a verdadeira resposta.
Foi numa noite fria de inverno, com seus ossinhos aquecidos por meias de lã multicoloridas feitas por ela mesma no dia posterior a morte do marido, que o Deus Protestante lhe visitou através de seu anjo com glória, psicodelia e muita luz.

Então o anjo tocou-lhe na testa e fê-la adormecer. No sonho, via seu Aroldinho ainda rapazote preocupado com seu futuro financeiro e com o sucesso que poderia lograr comparando-se ao filho da vizinha de sunguinha na França.

Foi aí que pensou; ‘Bom, como médico apenas ajudarei a curar doenças, aplacar a dor de alguns com terapias medicamentosas, não, isso não é nobre o bastante.
Como engenheiro, construirei arranha-céus, escreverei meu nome nas estrelas, mas meus projetos dependerão da aprovação dos donos da obra...’
Assim pensou com seus botões, que a única profissão que agregaria a nobreza de ajudar aos feridos, com a fama de escrever seu nome nos umbrais da humanidade seria a de pastor de ovelhas protestantes.

 Teve uma ‘epifania’ (que diabos é isso?) e viu seu Deus mostrar-lhe um caminho dourado a seguir, e no fim do caminho disse o Deus Protestante; ‘Aroldinho, crie um blog meu filho, e nele diga tudo o que se passa na sua alma!’

Assim, a mãe de Aroldinho já podia descansar em paz, afinal, o Deus Protestante estava no comando de tudo!

Wendel Bernardes.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

As Lendas de Ekklésia: O Monstro.



Era noite alta e as casas viviam tão trancafiadas quanto possível. A madrugada estava pra chegar e as nuvens espessas encobriam quase toda a luz da lua. Não há viva alma nos terreiros, os pássaros noturnos não piam aqui e os animais caseiros escondem-se nas tocas. O silêncio sepulcral envolve todo o lugarejo. Quem de longe vê, apostaria que Gadara é uma cidade fantasma, mas engana-se quem assim pensar. Há gente ali, mas o medo impede a circulação de quem juízo ainda possui.

Urros, grunhidos, gritos de desespero que fazem as almas dos mais corajosos gelar de pânico, ecoam por aqui. Há um grande mal à solta aguardando para vitimar aos desavisados.

Contam os nativos que uma criatura demoníaca com grandes garras de fera, dentes pontiagudos, pêlo alto espalhado pelo corpanzil é a responsável pelo terror implantado na cidade.

Ninguém sabe ao certo como nascera, ou como chegara até lá. Alguns abusando do atrevimento, dizem que a criatura emergiu do próprio inferno durante um ritual de culto do mal. Outros crêem que fora comissionada pelo próprio príncipe das trevas para matar homens e fazer carnificina na terra. E há ainda os afirmam que o ser maligno é estranha combinação de homens e animais devido aos seus sons e aparência assustadora. Falácias a parte, todos sabem da existência de tal malignidade e fazem coro confirmando a existência do Monstro.

Sua habitação preferida são os cemitérios. Os nativos não mais enterram seus entes por lá, pois a criatura ronda o local grunhindo ameaçadoramente no entorno dos bosques que dão acesso ao lugar.
São incontáveis os relatos de cortejos fúnebres que foram brutalmente interrompidos quando de longe observaram figura maior que um homem, gritando como um animal, cortando-se com pedras, debatendo-se com violência, portando-se como apenas os demônios poderiam fazer.
Sim, a criatura atormentada pelo mal impõe pelo horror de sua presença a ordem do medo em Gadara.

Um dia, um pequeno barco de pesca atraca no abandonado porto próximo ao cemitério. Certamente são forasteiros, nativo algum ousaria ainda que por bons motivos aportar em tal local.
Estava mesmo com ares de abandono o pequeno porto. Com cordas largadas como que deixadas em fuga alucinada, as plantas altas revelando que o homem normal não pisa ali faz tempos.

Saiu do barco pequeno grupo, cerca de treze homens que formavam estranha comitiva. Alguns sentiam que nada de bom lhes aguardava ali, outros confiavam que, quaisquer que fossem as tribulações encontradas, seu Mestre os protegeria por completo.

Tratava-se do Rei de Ekklésia. Sua Majestade fora para Gadara em busca de descanso; havia servido às multidões por horas a fio. Detentor de grandes e miraculosos poderes curou a uns, libertou a outros. Porém mesmo esse Ser poderosíssimo era ainda um homem e por tanto precisava de descanso. Mas logo em Gadara? Não teria ouvido Sua Majestade do mal que assola essas paragens? Ou será mesmo que ouvira?!

Antes de instalarem-se e acenderem a usual fogueira ouviram os costumeiros urros! Os mais jovens do grupo esconderam-se por detrás do Rei, os mais velhos queriam fazer o mesmo, mas contiveram-se. Os ecos reverberantes maquiavam de onde o som vinha de fato, mas estranhamente estavam os ruídos cada vez mais perto. Um deles sugeriu que era hora de sair. Falou enquanto ainda a voz não era completamente consumida pelo medo, que aquele lugar não era para o Mestre. O Rei lhe sorriu, mas apenas discordou com a cabeça.

Subitamente os gritos malignos cessaram. Foram momentos de medo, apreensão e certo pânico por parte de alguns. Menos do Rei, Ele sabia o que Lhe aguardava, também sabia exatamente a arma que deveria usar contra tal adversário.

Um som único se ouviu enquanto uma criatura animalesca saltou de detrás das rochas. Tinha sim um semblante monstruoso, desfigurado, demoníaco. Os homens não sabiam que reação tomar, esperavam assim pelo Rei que prontamente acenou para acalmar os ânimos. Um deles estava pronto para sacar sua espada.

A criatura tomada por nada menos que ódio buscou forças em seu interior para o espanto de muitos; falar.
-“Que fazer aqui, Rei?” Sua voz parecia uma multidão agoniada e
os presentes se entreolharam com espanto peculiar dos homens curiosos; ao perceberem que o Monstro era nada mais nada menos que; um homem! Maltratado, possesso por forças malignas, mas ainda um homem!

O Mestre lhe esquadrinhou com apenas um olhar enquanto a agonia tomava conta de quem o possuiu.
-“Porque vem nos afligir antes do tempo? Que queres conosco?” Sim, era uma multidão de demônios que assolava a vida daquele vivente. O Rei sabia como agir, e tinha a batalha de nervos sob domínio em Sua vontade de ferro.

Outro olhar Ele deu e outro urro se ouviu! Ninguém maligno poderia suportar a arma que o Rei usara.
-“Muito bem, vamos deixá-lo... Permita então que possuamos aqueles animais e assim seu caminho estará livre!”
Por sorte ou razão do destino, alguns porcos desavisados que Gadara era terra amaldiçoada pastavam por ali.
O Rei mais uma vez apenas acenou com a cabeça e num piscar o Monstro temido por todo um povo estava definitivamente livre!

Fazia tempos que sua mente não conseguia elaborar uma sentença, só havia negritude, angústia e dor. Sabia do medo que sentiam dele, e depois de um ou outro instante lembrou-se de sua família... Que saudade!

Prostrou-se aos pés de Sua Majestade, agora também Seu Rei e Salvador pessoal e lhe agradeceu pela liberdade. Aquele homem, antes um monstro, ficou tão grato que agora em seu coração fincara estandarte que anunciava a novidade de Ekklésia e de como fora salvo pelo Rei em pessoa!

Depois do acontecido e da magistral libertação do homem, um de seus seguidores Lhe perguntou:
-“Meu Rei, que olhar era aquele? Que arma usou contra tamanho mal e tão vil situação?”
-“Não sabes meu amigo? Usei com ele a mais poderosa arma existente... Usei o Amor!”

Wendel Bernardes.

domingo, 18 de março de 2012

As Lendas de Ekklésia – O Pescador.



Vida dura. Madrugar todos os dias, às vezes nem dormir! Passar tempos no rio, nos lagos, passar dias no mar e ainda correr os risco de não pescar absolutamente nada mais do que um homem pode comer num dia.
As lendas antigas falam de peixes em abundância, de redes fartas e se partindo, mas ele está nessa vida desde menininho e jamais viu essa abundância.

Dizem que nas terras frias, nos altos mares há essa abundância de pescado, mas contam também as lendas sobre os Leviatãs, monstros marinhos que devoram gente, que viram e destroem embarcações inteiras com seus tentáculos infernais.
Nos mares do leste há tempestades de gelo, frio que faz a alma gelar... Triste vida essa de pescador; morre-se de fome perto do lar, morre-se buscando alimento longe dele.

Mas esse era seu destino. Veio de uma longa e antiga linhagem de pescadores. Seu pai, seu avô, seus irmãos, tios e primos ganham a vida nas águas e com os peixes, como poderia fugir dessa vida, dessa sina agora vil e torturante?

Quando não está nas águas, esta pensando nos peixes. Grandes, suculentos... cardumes inteiros! Na praia costura sua rede já velha e partida não pelo excesso de pescados, mas talvez pelo desuso. Ali mesmo acende pequena fogueira, mais feita para se aquecer do frio noturno do que para assar peixe qualquer.

Faz dias que não visita sua família, a vergonha o impede de chegar com cestos vazios. O que diriam da casa de seu pai? Da fama de bom pescador, homem de fibra e raça...? Já pode ouvir o coro das mulheres da vizinhança rindo de sua parentela, de sua família e do que ele representa.
Afagou-se mesmo com fome na margem pedregosa e dura e foi vencido pelo sono e o cansaço.

Abriu os olhos e estava só. Era o oceano o seu cenário; escuro, profundo, ameaçador e mortal. Notou que estava em pequenina embarcação que mal cabia um ou dois homens e seus temores. Procurou nela velas, mas sabia que não encontraria. Do que adiantaria uma vela nessa desgraça sem vento? Havia ali pequeno e carcomido remo, desgastado pela maresia que mais se parecia com um sinal de mau agouro do que salvação, praticamente uma sentença de morte.

Não via estrelas, não havia luz, não sabia onde era a margem mais próxima. De súbito, formou-se vento mortal cortando lhe o rosto, levando pra trás seus ralos cabelos crescidos. As ondas formam-se em segundos e mesmo para um bom nadador, experiente como ele, a morte chegaria em poucos segundos depois do barquinho ir a pique, pois as ondas negras e violentas levariam seu corpo para o fundo do mar, em direção à morte certa.

Pra onde remar? Qual direção? O que fazer? Deus, que desastre é esse?
Foi quando num turbilhão de pensamentos, olhou e viu a silhueta do que parecia um homem. Figura fantasmagórica flutuando ou caminhando sobre as águas em sua direção.

Águas geladas, violentas e uma alucinação, combinação que o levou apenas à um pensamento: "Será que morri e isto aqui é o inferno?" Quem sabe essa seria mesmo a definição de inferno prum pescador?!

Seu coração  tomado pelo medo duplamente qualificado agora está gelado. Quando a figura lhe chega perto, percebe que não passa de um rapaz. Nem alto, nem baixo, meio magro e com semblante de sofrido, cabelos e barbas crescidos.

O que um homem faz aqui? Sem barco, sem remos ou velas... e pior, não está nadando, mas andando!
Então, Ele lhe chega perto o suficiente para lhe sorrir e balbuciar palavras de ordem aos ventos e às águas. Quem é Ele? O quê é Ele?

O barquinho mal cabia um, agora aloja dois.
- Onde está sua rede, pescador?
- Está... aqui? Como pode, se a deixei na praia, pensou.Porém, revendo os últimos acontecimentos, e em como foi parar alí, isso não tinha importância nenhuma agora.
- Lança tua rede, amigo... pesque pra mim!
O que Ele quer? Peixe? Não consigo nem pescar pros meus! Mesmo assim, tomado por força da curiosidade e um tantão de medo, lança a rede e vê o barquinho quase virar. A emoção de ver os peixes lhe faz agir como louco e sorrir como criança. Nunca vira tantos peixes.

Ouve gritos e percebe que é dia, e que não está no mar...tudo não passou de sonho. A tempestade, os peixes, o rapaz... tudo um sonho! Ufa!
Ele se levanta e vê que os gritos são da multidão que agora ocupa a praia. Porque todos estão aqui? Percebe que há alguém no meio deles... Quem sabe é um homem?
O que será? Um apedrejamento? Uma prisão de alguém importante? Não... percebeu que as vozes eram mais de curiosidade do que de protestos.

Apressa-se para ver, vence a multidão e quando por fim está frente a frente com o motivo do tumulto ele leva um susto; conhece aquele rosto! É Ele, o jovem do sonho!
Ele lhe estende as mãos carinhosamente enquanto lhe diz:
"Vinde pescador, vou lhe fazer pescar gente...!"

Wendel Bernardes.

sábado, 10 de março de 2012

Uma 'lenda' bem real.

Irrequieto seguia pela rua enquanto ruía as unhas. Olhava para os lados freneticamente como se estivesse sendo perseguido e de fato estava. Notadamente havia uma sombra que pairava sobre ele. Fazia tanto calor que vestia apenas um short, camiseta regata e sandálias. O termômetro de rua de Bangu marcava 42º, mas ele tremia como se fosse junho.

O calçadão estava lotado, ninguém estava disposto a ficar em casa mais que o necessário. Porém ele não estava ali para fazer compras ou outro compromisso fugaz.
Assustado, um pouco ofegante e falando sozinho, o rapaz posicionou-se próximo a faixa de pedestres entre a calçada e a ciclovia. O sinal tanto fechou como abriu pares de vezes e ele, ainda irrequieto continuava sua estranha sina parado anormalmente sob o sol causticante.

Buzinas, frenagens, funk, anunciantes de porta de loja e um vendedor de água mineral faziam um complicado fundo musical da ópera da vida daquele cara. Foi quando, como em meio a uma mudança de ato, seu semblante trocou. O ar meio transloucado e frenético deu lugar a um olhar firme, decidido... O sinal estava fechado e ele posicionou-se para, ao contrário das outras pessoas, aguardá-lo abrir! Contei alguns ônibus, caminhão de entregas de loja e um gigante carro de som imitando trio elétrico baiano. Era notadamente um suicida em plano de curso.

Travei exatamente no momento que percebi sua atitude. Os instantes foram os mais angustiantes que se pode imaginar. Minhas pernas pesaram toneladas e minha vontade fútil não mais as comandava. Agora era eu que agia como louco.

Então meus olhos foram estranhamente direcionados a outro lugar. Na direção oposta  vinha guiando sua bicicleta cidadão pardo, de meia idade, bermuda cargo, camisa pólo virada do avesso, boné atravessado e semblante sereno... Parecia trabalhar em alguma obra ou reforma ali por perto (coisa comum no centro de Bangu uns anos atrás). No exato momento da abertura do sinal largou abruptamente sua bicicleta à própria sorte, direcionou-se com veemência ao suicida segurando-lhe o braço vigorosamente.

Os olhos (esbugalhados do rapaz certamente iguais aos meus de tanto espanto) mostraram que nunca se viram. Começaram ali mesmo uma conversa de não mais que 20 ou 30 segundos, aproximei-me o máximo que pude (sim, minhas pernas agora trêmulas, resolveram obedecer-me), porém não ouvi palavra, nem precisava. Estava estampado na face do rapaz que se tratava de uma bela bronca, mas sem mudança de voz ou coisa que chamasse tanta atenção aos demais.

Caiu ali mesmo no meio fio com as mãos no rosto denotando choro e certa tristeza. O homem, sem extravagância alguma, montou sua bicicleta entes largada em lugar qualquer, tomou seu caminho (inverso ao que fizera para ali chegar) e foi-se serenamente, como se nunca ali estivera.

Aí sim pude ouvir a voz do rapaz, ainda embargada pela emoção, com as mãos no rosto mostrando vergonha, agradecendo a Deus por mais uma chance de vida. Eu tolo, imaginei que seu choro fosse de simples tristeza.

Enquanto umas moças e o vendedor de água mineral curiosos sobre os fatos o acudiam, notei o Amor que envolvia aquela cena. Uma segunda chance dado por Deus por meio dum arauto que, como um Felipe (evangelista) veio e se foi, apenas cumprindo seu papel.

Percebi o motivo de meus ‘pés de chumbo’ e o fato curioso de parar na rua alguns minutos para ver a cena (isso não é de meu costume). Alguém queria me mostrar que estava no controle de absolutamente tudo e que move céus e terras em beneficio dos seus por meio do Amor.

Continuei meu dia sabendo que sou observado (e cuidado) todo o tempo e que desde as minúcias da vida, até a iminência da morte estão em suas sabias mãos. Certamente mais vidas do que a do rapaz e a minha foram tocadas pelos Seus gestos!

Wendel Bernardes.

sábado, 3 de março de 2012

Na Loja de Brinquedos Encantados...


Numa linda loja de brinquedos encantada, havia um boneco amado por quase todos. Possuía muitos pontos de articulação, falava com apenas um toque muitas frases em pelo menos três línguas, que fazia o sucesso entre a maioria da molecada. Isso porque vou omitir todos aqueles apetrechos multiusos que vinham inclusos!

Foi um sucesso de lançamento, e pouco depois, para não ficar pra trás no mercado, foi relançado com vários upgrades. E como era boneco de ação, podia-se escolher entre suas muitas facetas. Agente secreto, Espião internacional, Guerrilheiro, Ninja cibernético e tantos outros modelos, todos devidamente equipados, para não deixar ninguém insatisfeito.

Mas num dia pra ele assim não tão belo, bateu tristeza no coração. Porque será que um brinquedo assim tão especial não poderia ser o mais vendido? Não poderia ser o mais amado? Porque ele não poderia simplesmente, ser uma unanimidade entre a gurizada?

Sua frustração o fez cair nas vendas. Estava lá nos displays com a cara mais deprê do mundo. Poderia vencer qualquer vilão se a arma secreta de combate ao crime fosse sua cara de melancolia.

As crianças que antes o amavam, agora passavam de largo onde era exposto. Estavam acostumadas a verem sua cara de mal, sempre suja de barro, ou com máscara contra gás letal, ou ainda usando camuflagem de guerra. Mas cara triste? Isso não!

Decidiu então, que por causa de seus muitos fãs, deveria buscar ajuda, pra ver se além de reconquistar os piás perdidos, ainda ganhava status de primeiro colocado nas vendas da loja encantada.

Decidiu que apenas alguém muito articulado, saberia resolver seus problemas. Foi se consultar então com o boneco de papagaio, na loja encantada não havia ninguém mais sabichão.

- Papagaio?
- Curupaco!
- Estou com problemas!
- Quais?
- Acho que me esqueceram, não me dão mais ideia e as crianças quando vêm à loja, mal me olham ou mesmo, me ignoram!
- Ora meu amigo, seu problema é mesmo triste, quem não sabe o que é isto é o novo boneco de palhaço!
- Quem?
- O novo boneco de palhaço que chegou essa semana, esgotou as vendas num piscar, parecia natal e dia das crianças junto.... verdadeira loucura!

Os olhos plásticos de nosso herói de brinquedo brilharam como cristal polido, uma idéia lhe passara na cabeça. Pra ser mais popular era só agregar as qualidades que o palhaço possuía!

Sem pestanejar pulou logo da prateleira do papagaio e correu para o setor de acessórios de brinquedos. Saiu de lá com a cara pintada, calça colorida e cabeleira verde. Correu para seu lugar ansioso para a abertura da loja encantada no dia seguinte.

 Quando a mesma se abriu, qual não foi sua surpresa, uma turba louca entrou pelo seu setor (que por coincidência ou não, dava para o corredor do boneco do palhaço, verdadeiro frenesi infantil) e quando se depararam com sua figura explodiram de gargalhadas. Munidos da ausência de modos pertinente a cada moleque puserem-se a rolar pelo chão, quase em cólicas, rindo aos tubos de tão ridícula figura!

- O que é isso?
- Sei lá, deve ser o novo agente palhaço combatente do crime!
- Ou é isso, ou ele foi pra alguma balada estranha ontem, bebeu e não se recompôs, emendou um pai revelando de onde o filho herdara tanta maldade.

O coração de plástico já nem batia mais. Pobre coitado do boneco de ação.
Nem ligou pra quem poderia vê-lo, saiu pela tangente e pôs-se a chorar no cantinho, perto dos brinquedos didáticos de madeira, setor quase esquecido.

Em meio a sua tristeza, lembrou-se que não só os meninos o desprezavam, mas as meninas nunca lhe deram a menor bola! Ainda com sua idéia fixa de agradar, passou de novo no setor de bugigangas brinquedológicas e descolou vestido de chita, coração remendado, e cabelo de crochê!

Pronto, estava agora lindo, nenhuma criança, menino ou menina, poderia rejeitá-lo!
Mas ao abrir a loja no dia posterior qual não foi a troça.
Na verdade, prefiro nem mesmo reportá-la. A vergonha me impede.

O boneco agora era o próprio conceito de tristeza. Não sabia mais o que fazer e não entendia o porquê de não ser amado já que havia cumprido todos os requisitos para a popularidade.

Juntou seus trapinhos minúsculos de brinquedo e foi pro lado mais escuro da loja encantada, prevendo em sua cabecinha de vento que nunca seria amado dessa forma, ou, de nenhuma outra.

Moral da história:
Quem somos nós?
Somos para o que nascemos, ou nos tornamos um amontoado de peças e retalhos alheios?

Wendel Bernardes.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Lembranças do Futuro...



Quando abriu seus lindos olhos verdes amendoados, a bela jovem de 22/23 anos continuou quietinha na cama, ajeitada desajeitadamente, com as pernas em forma de ‘quatro’, mania herdada de papai.

Uns minutos depois se levantou e antes de tudo ligou o PC. Era mais ou menos 10:00 e o sol já brilhava com tanta intensidade... Um belo sábado, 22 de Dezembro. O termômetro fervia. Da janela do pequeno apê que dava para a rua, notou um turbilhão de gente que se acotovelava buscando mais uma grande promoção de natal. Fazem jus ao que dizem dos brasileiros, deixamos tudo pra última hora... pensou e riu sozinha; quem sabe do povo de onde faz parte, quem sabe de sí mesma.

Ajeitou a longa cabeleira encaracolada cor de mel e pôs cachos atrás da orelha, como mamãe faria... “Mamãe...” lembrou dela de estalo!
Quando checou seu celular havia mais de dez chamadas perdidas, dois SMS, um correio de voz e um e-video, todos da mulher que ela mais ama na vida, também... só poderia ser assim, coisa de mãe e filha!

Era seu aniversario e mamãe jamais deixaria essa data passar sem lembrar, mesmo estando tão distante. Ela ganhou bolsa pra medicina em famosa instituição de ensino da maior cidade do país. Estava ainda se ambientando em Sampa. Aquele seria seu primeiro aniversário e natal fora de casa.

Quando checou sua caixa de correio notou duas cartas endereçadas a ela por seu irmão mais velho. Uma era um lindo cartão digital de natal com fotos da família e da infância dela, adolescência dele.... imagens em 5D de festas da família quando ainda eram quatro. O outro envelope, uma carta de aniversário escrita a mão (coisa difícil de se ver em pleno 2022), de cunho bastante emocionado que terminava com a seguinte frase; “Te amo, filha...” era assim que seu irmão a chamava desde quando ele tinha uns 10 e ela não passava de bebê de colo.

Pegou uma caneca de café e sentou-se em frente ao computador onde as lembranças fizeram-na achar dois velhos e desusados blogs, um de tom escuro, outro com cara de pergaminho...  Ambos continham fotos peculiarmente familiares
“Papai...”

Procurava naqueles sites antigos por algo escrito num 22 de Dezembro de 20 anos atrás e ao achar ficou muda. As lembranças vinham como que em ondas num maremoto de recordações profundas e únicas. Era impossível não chorar diante da saudade de seu velho agora não mais ‘aqui’. Os pensamentos lhe faziam perceber que ele, ausente hoje, foi também muito ausente antes...

Mas estava feliz em saber que era amada por sua família ‘perfeitamente imperfeita’ e que seu futuro, com ares de boa moça, havia sido traçado a base de muita intercessão e não pouca força humana.

Viu fotos, leu textos de papai, ouviu as mensagens de mamãe, guardou as missivas do irmão. Então uma frase antiga a fez chorar (mais uma vez). Era do saudoso pai, que escrevia em sua homenagem no seu Blog:
“Minha Estrelinha,
Meu amor por você é como uma árvore,
Mas o amor de Jesus por você é toda uma floresta...”

Essa frase, que o irmão também lembrava, era dita quase que diariamente antes de dormir e agora, ela não se sente mais tão só mesmo tão longe, pois sabe que além de sua família, pode contar com Aquele que lhe ama e que lhe acolhe nesses momentos únicos de vida.

Ouviu a buzina vinda da janela dos fundos. Era um rapaz alto, magro, moreno, simpático (e com um cabelo esquisitíssimo) que numa moto a aguardava descer para passar o dia junto dela, passeando ao sabor do vento.

Ela enxugou as lágrimas, deu meio sorriso e pediu uns minutinhos a mais... estava 'atrasada, igual a mamãe', pensou. Ao sair minutos depois, olhou o céu, jogou um beijo pro sol e saiu pra comemorar a vida com agora 23 anos...

Estava feliz e sabia que tudo correria bem enquanto confiasse nos ensinamentos de sua gente.
Seu nome é Sarah e ela não é mais um bebê, mas em seu coração sempre será a pequena de seus pais e de seu irmão.

Na lembrança dos vivos, ainda está seu chorinho de bebê e seu cheirinho de flor...
'Te amo, filha...
Parabéns pelos seus (agora) dois aninhos de vida,'



P.S.
Esse texto tem pelo menos três meses e fora escrito pela ocasião do aniversário da minha Sarinha e seria postado em meu Blog antigo, mas como alguns sabem ele foi desativado em meados de Dezembro último (portanto, antes do aniversário da minha pequenininha, que é no final do mesmo mês). Esse texto me leva às lágrimas sempre que leio e mesmo passando a data, não passou sua importância dele pra mim.
Grato.

Wendel Bernardes.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

As Lendas de Ekklésia: O Encontro.



Há muito tempo, num lugar um pouco distante daqui, havia um grande Príncipe. Ele era muito mais do que um simples ‘príncipe encantando’, na verdade Ele era o próprio conceito de que um príncipe deveria ser. Franco, honesto, humilde e popular.

Era alguém extremante apaixonado por seus súditos, mas estava distante da idéia do príncipe convencional. Não se vestia com o luxo dos trajes reais; na verdade, suas roupas pareciam-se mais com as que os pescadores, ou os carpinteiros usavam. Roupas de operários; verdadeiros trapos na visão de alguns!
Não montava um belo corcel branco, com crinas esvoaçantes e galopadas trovejantes.  Usou vez ou outra jumentinho novo, com passadas leves e jeito manso, aliás, como seu Amo e Senhor.
Mas numa coisa, Ele não destoava dos outros príncipes. Estava em busca de Sua amada, de Sua futura bela princesa.

Ela era plebéia e estava ‘desamparada’ por assim dizer. Não vivia trancafiada em calabouço fétido com correntes nos pés. Não estava aprisionada em torre alta, inacessível, tendo por companhia ratos e morcegos. Não era refém de trolls ou cíclopes. Alguns acreditavam que esteve à mercê de um dragão maligno, e isso não posso negar, não deixa de ser verdade, mas essa futura princesa estava mesmo era nas ruas, atribulada, sofrida, errante. Estava nas casas de família, nos bordéis, nas esquinas, nas escolas, ou no poço de Jacó. Estava enferma, coxa, manca, aleijada. Estava triste, estava só.
Perdida em si mesma, desesperançosa e carente de Amor.

Houve momentos em que pensou em se aventurar nos braços de outros príncipes. Houve momentos em que acreditou que seu Prometido não passava de uma lenda. Um belo e utópico mito que os velhos contavam para que os jovens não perdessem a esperança no futuro e na vida.
Mas então, a velha profecia se cumpriu e o Noivo Príncipe encontrou sua Noiva plebéia.

Foi um breve momento numa eternidade plena, mas bastou! A esperança havia voltado ao coração da pobre princesinha. Uma explosão de contentamento, misturada aos flashes de tudo que os antigos lhe contaram por séculos veio à tona.

Ele era tudo que lhe disseram e muito mais!
Embora tivesse um rosto comum; nem lindo, nem feio, porém sofrido, pois era homem de dores: ela o via com rosto cintilante, pés como o metal polido, cabelos alvos como a lã, corpo de guerreiro invencível, palavras cortantes como espada flamejante.
Ele era gentil, amável, puro, simples, mas ela também o enxergava nobre, poderoso em seu Reino e glória. Embora plebéia, possuía uma visão Dele, que nem os nobres poderiam ter, pois Ele para ela era sem preço, um Ser de inigualável envergadura.

Ele veio para cumprir a profecia, que dizia que deveria haver um sacrifício pelo resgate da princesa do povo e assim o fez. Aqueles que se sentiam ameaçados por sua grandeza a Amor mataram-no cruelmente. Seu sangue escorreu e lavando a todos os que ouviam (e os que não ouviram) de sua morte. Tanto sangue jorrou, que não tendo mais o que verter, doou água de si mesmo.

Ao final, cônscio de seu destino e tomado pela dor, clamou ao seu Pai Poderoso num brado que ecoou com voz de incontáveis vidas e disse: “Está Consumado”!

O dia se fez noite, o sol tornou-se trevas, os mortos voltaram à vida e levantaram das tumbas (coisa que fez em vida, porque não o faria na morte?), barreiras naturais e espirituais foram ao chão... A morte trouxe vida e liberdade à princesinha.

Embora só (fisicamente falando), estava certa que Ele, com Seu poder extremo, ressurgiria dentre os mortos e a levaria para casa. Depois de três longos e sufocantes dias, a princesinha viu com seus próprios olhos o Príncipe renascer. Antes de voltar aos seus domínios Ele disse à Sua Amada:
“Prepare-se amada minha... vou ao meu Pai para lhe preparar lugar que lhe foi profetizado desde os séculos, mas é preciso que esteja apercebida. Agora como minha princesa é necessário que se adorne, que use meus perfumes, que se purifique e busque dentro de si tudo que lhe ensinei e lhe deixei...
Vou mas volto logo para lhe buscar e esse enlace será a coisa mais inigualável, mais pura e linda que homem ou anjos jamais viram. Cuide-se, já venho... e te levarei para ser minha rainha... Eu te Amo princesa!”

Aquela princesinha está ainda hoje se ornando, se embelezando, tornando-se digna para o Noivo e aguardando Sua volta. Ela é feita de cada ser que ama o príncipe e ao Seu Reino e que aceitou Sua soberania em sua vida.

Ele breve vem, e está ansioso para torná-la definitivamente... Sua!

Wendel Bernardes