sábado, 1 de junho de 2013

Eles Estão Entre Nós... Hyllel e Kallore.




Uma lança se ergue enquanto garras monstruosas incidem contra o adversário. Brados e urros mesclam-se ao som do aço rasgando a pele... Mas nem sempre é assim.

Moscou – 1973.

O frio toma as ruas numa nevasca furiosa e hostil. As almas sãs estão agora completamente agasalhadas sentindo o crepitar da chama alta na lareira. Mas Piotr segue seu rumo completamente solitário na missão que outorgou a si mesmo.
Saiu da casa quente e confortável num bairro bem situado para dar algum tipo de auxílio aos abandonados à margem da sociedade, num subúrbio qualquer onde filosofia e política perdem a voz.

Lá o frio é ainda mais cruel já que a pobreza impede a manutenção de um sistema decente de aquecimento – que é alias indispensável nessa parte do mundo. Famílias costumam até queimar seus móveis e objetos inflamáveis na esperança, ás vezes vã, de fazer a chama viva por mais um tempo.
Sempre com uma palavra amiga e um sorriso, Piotr leva sempre o que pode. Agasalhos, comida e vez ou outra até ajuda a obter lenha. Quando pode, leva ele mesmo em sua caminhonete, adquirida justamente visando a coletividade que o governo diz manter.
Porém, gestos apaixonados do piedoso homem de meia idade, embora bem vindo a cada pobre que ajudou, não é bem visto por alguns. E estes em particular, têm o poder de mudar essa realidade de uma forma inimaginável.

Piotr chega ao seu destino imbuído de fé, coragem e compaixão, mal sabendo o que lhe aguarda.
É uma noite estranha essa - pensa ele - já que não é assim tão tarde e as luzes estão apagadas. Nesse horário sempre há alguém disposto a receber auxílio, e uns poucos outros a ajudar na mão de obra, ainda mais ajudar a alguém que já é amigo dessa comunidade.
Ele bate nas portas, chama, assovia sem obter resposta.
Tenta então noutra casa, e noutra, e noutra, porém a mesma cena se repete. Só ecos de seus próprios ruídos são audíveis.

Até que figura sombria lhe aparece do nada, trajando sobretudo negro, chapéu de aba e estranho sorriso enigmático.
-Assustou-se, amigo?
-Desculpe, na verdade sim... Estava fazendo tanto barulho na esperança de ser ouvido que nem ouvi sua chegada na neve.
Nesse momento se vira e quando olha no redor do estranho, percebe que a neve em seu entorno está intacta. Sem pegada alguma ou rastro qualquer que indicasse de onde teria vindo estranha figura.
-Não se preocupe, estou acostumado com a reação de todos em relação a mim... Noite fria para um passeio, não?!
-Na verdade vim ajudar alguns amigos, o senhor também não é daqui, não é?
-Absolutamente meu amigo, sou daqui sim. Percorro essas paragens há tanto tempo que me acostumei a ver geração após geração declinar, uns sob a vida dura das ameaças da vida do homem simples, outros simplesmente perderem-se nas trevas... É um homem religioso, amigo?
-Não me considero assim exatamente, apenas sigo meus instintos e alguns bons costumes. Alguém disse certa vez, que a maior religião seria ajudar aos necessitados. De certa forma é o que faço, mas não é apenas uma obra de fé, mas sim, de compaixão!
Perdoa-me, acho que devo ir já que não posso ajudar ninguém hoje, vou fugir desse frio... Uma boa noite!
-Ah, mas poderia me ajudar então?
-Ajudar? Sim... No que posso lhe ser útil?
-Simplesmente me dando uma carona...
-Ah, claro, entre...

O sujeito com ar de desdém empurra os donativos não usados nessa noite e ajeita-se como pode na caminhonete.
-Mas pra onde o senhor vai mesmo, se posso lhe perguntar...?
-Em breve você saberá, apenas dirija meu caro.
A petulância do estranho lhe incomodava, mas aceitou tudo como parte do que lhe cabia para aquela noite. Tinha realmente um coração nobre esse Piotr!
Cerca de vinte minutos de estrada, com pouca neve que insistiu em precipitar, o sujeito lhe apontou casa grande, com ares aristocráticos, porém visivelmente atingida pelo tempo.
-Ali, por favor.
-Estranho... eu passo aqui faz algum tempo e nunca notei essa casa.
-Não há nada de estranho nisso, notamos apenas o que queremos ver nos cenários em que vivemos. Tudo obra da subjetividade.
Ele decide se calar diante dessa declaração. Manobra seu carro e diz:
-Pronto.
-Por que não entra e me faz companhia num chá, café ou algo mais forte?
-Sinto muito, mas...
-Creio que devo insistir, meu caro Piotr.
Ele se espanta que a figura lhe saiba o nome e por conta disso o segue até a velha mansão. Não sabia se fora apenas curiosidade ou algo mais lhe impulsionara, mas obedeceu a ordem quase como se precisasse disso
-Aqui é sempre mais quente.
-... Como sabe meu nome?
-Sei muito mais do que apenas seu nome, caminhante!
-De que me chamou?
-Aquiete-se. Sei de sua compaixão amenizando a dor desses desgraçados, de sua fé no homem, na sua esperança de um mundo melhor, essas bobagens todas... Você é sectário demais! É por conta disso que vim pessoalmente acabar com sua cumplicidade com o ‘bem’, humano!

Dito isso, o homem já estranho, agora se revela na frente de Piotr. A cena sui generis dura instantes e logo diante dele está, no lugar do fidalgo, criatura com mais de dois metros seguramente, pele acinzentada, cabelos ralos, olhos esbugalhados, garras acentuadas porém, mantém estranhamente o sorriso soturno e sínico de sempre.

-Meu Deus, o que é isso?
-Não tente fugir, caminhante. O que agora paralisa seu corpo inútil não é apenas o medo. Sinta meu poder agindo em você.
Piotr não consegue mesmo se mexer, e sente agora dor aguda no seu cérebro e ao mesmo tempo, algo faz que seu sangue ferva nas veias. A dor é tão desconhecida quanto indescritível.
-Meu Deus, me ajude...!!!
-Cale-se boçal... Seu destino está traçado e sua morte é certa... Levarei sua alma comigo para o inferno!
Nesse momento ouve-se terceira voz que se revela dizendo;
-Como você pode dar por certo algo que nem mesmo teve fim, demônio?
-Quem está aí? Revele-se, eu ordeno!!!

Das sombras de uma ante-sala surge ser iluminado, trajando vestes simples, rosto de homem comum, cabelos curtos, expressão firme, barba rala e um belo par de asas pálidas...
-Você não pode se intrometer aqui, Hyllel, ele é uma vítima limpa!
-Demônio, desde a queda sua visão do que é limpo ou sujo foi de fato comprometida. Largue o controle da mente do caminhante... Já!
Dizendo isso, o guerreiro alado ergue o braço em direção aos dois e uma guerra invisível tem inicio. O demônio, visivelmente fraquejado com a aparição angelical, começa a expressar ares de dor e de súbito, solta um grito aterrador enquanto é obrigado a largar o controle mental que matinha em Piotr.
Caída e humilhada a criatura volta a ter uma aparência humana...
-O que está fazendo aqui, guerreiro de luz? O tratado me dá plenos direitos de explorar essa gente.
-Um tratado firmado entre um ex-governante delirante diante de sua figura assombrosa? Ora, com quem você pensa que está lidando, Kallore? Não sou um dos seus para cair na sua lábia suja, e estou aqui atendendo a prece do caminhante.
O anjo dotado de uma autoridade ímpar prossegue em sua sentença.
-Você bem sabe que diferentemente de meus irmãos eu não preciso de lâmina espiritual para lhe destruir, demônio.
-Ora... É vaidade que noto em sua afirmação Hyllel?
-Eu não uso poder senão o que me fora dado, criatura profana. Não use seus engodos para ludibriar a mente de Piotr mais uma vez. Deixe já esse lugar!
-Essa casa, é minha!
-Nada aqui pertence a você, criatura insana... Suma!

O brado de Hyllel cria um vórtice quase imperceptível a olho nu, porém as emanações são sentidas facilmente em todo o ambiente e até Piotr, pasmo com toda a cena surreal, sente forte compressão no peito. Quando procura por seu agressor nada mais encontra.
Ele tenta erguer-se e conta com a ajuda de Hyllel para tal.
-Segure meu braço, caminhante.
-Porque me chamaram assim?
-Simples você está trilhando pelo Caminho, não é mesmo? Mas,  duvido que esta seja sua única pergunta, estou certo?
Apenas o olhar do homem responde a retórica do anjo.
-Bem, você agora está ciente que existe um mundo onde coisas sobrenaturais acontecem...
-Isso é incrível!
-Incrível é ter alguém que por pura compaixão, simplesmente abdica de seu conforto pondo sua própria vida em risco apara ajudar ao próximo. Por isso me ordenaram em seu auxílio. Você é o verdadeiro anjo salvador aqui.

Piotr observa as asas lindas e vastas do guerreiro de estatura mediana se dobrarem e sumirem em sua frente, tornando o anjo num homem de aparência costumeira, normal.
-Ainda há muito a fazer. Duas guerras distintas estão se formando, Piotr. Uma você já escolheu seu lado quando decidiu ajudar a esses pobres coitados, e por conta disso alguns serão postos a lhe ajudar..
-Será incrível, mas e a outra guerra?
O ser místico, agora agindo como homem qualquer estende o braço, descansando-o no ombro de Piotr e prossegue:
-A outra guerra, meu amigo, já dura uma eternidade, e nesses dias que virão terei muitos compromissos.
-Em quê?Se posso perguntar, claro...!?
-Proteger você e os que estarão por despertar pro trabalho das hostes que Kallore irá convocar!
-Não entendi porque não o derrotou, entende?
-Está me perguntando por que não o matei?
-Sim..
-Embora seja um guerreiro, apenas cumpro ordens e o demônio será peça fundamental para o plano que se desenrola. Mas tudo correrá bem, agora você sabe que sempre houve um Alguém em seu auxílio, não?
-Na verdade, nunca duvidei.
O anjo sorri confiante que agora ganhou um aliado a sua altura.

A manhã começa a despontar no horizonte gélido, Piotr agora mais cônscio de sua missão e das implicações que ela trará retorna para sua caminhonete e quando procura por Hyllel, vê ainda mais duas silhuetas ao longo da colina ao lado da mansão.

A batalha não pode parar enquanto houver justificados em perigo. Cada guerreiro sabe que as armas diversas são eficazes nessa peleja e que a prece tem um poder certeiro em seus efeitos.
Mas, onde será próxima etapa da batalha?

Wendel Bernardes.





segunda-feira, 27 de maio de 2013

Eles Estão Entre Nós... Arata/Lebiel



Não se ouve mais o som de trombetas de guerra, os tambores emudeceram. As bandeiras tremulantes estão a meio-mastro. A tristeza se faz lágrima até entre os eternos.

Rio de Janeiro – Século XX.

Samba, flores tropicais, praias maravilhosas e boa comida. Ele sempre acreditou que isso fosse mesmo pra ‘inglês ver’. Nunca teve tempo de ficar ‘de papo pro ar’ como se diz por aqui. Nasceu na classe operária e caía na luta tudo dia pra tentar ser alguém na vida.
Tudo andava bem na sua caminhada, afinal a batalha pra romper fazia parte de um todo. Era um cara sóbrio, e dificilmente ficava viajando nas idéias; pé no chão mesmo. Só sonhava quando o assunto era montar uma família. Aí sim, ele idealizava uma esposa amável e compreensiva. E com ela teria tantos filhos quantos pudessem bancar.
Carlos era mesmo gente boa, um cara ‘do bem’ como adoram dizer hoje em dia (como se alguém se declarasse ‘do mal’, pode?).

Sua mãe, uma senhora respeitadíssima na comunidade, era a responsável pela criação desse mulato de quase trinta. Mulher digna e honesta, apenas ‘errou’ quando escolhera o traste do pai do Carlinhos. Esse sumiu na poeira depois da notícia da gravidez. Porém criou o moleque com honra, respeito e um amor incomensurável. Nunca se esqueceu de lhe mostrar o caminho da fé, e de certa forma, sempre soube que seria um homem importante. E não é que era mesmo?

Carlos era funcionário de uma super construtora, que potencializava seus trabalhos com a grande iniciativa de crescimento imobiliário por conta dos programas habitacionais nacionais. Dizia que ‘subir na vida’ por enquanto, era levar o carrinho de tijolos até o vigésimo andar, ainda em término e sem elevador. Era um piadista!

No trabalho, mais ou menos uns três anos antes, conhecera Arata. Rapaz de origem oriental e estatura mediana, mas com cara de brazuca, queimado de sol de tanta labuta até lembrava um pouco nossos índios.
Era gente boa toda vida. Tinha por Arata certa simpatia até o dia em que tudo aconteceu.

Era final do mês e Carlos estava por demais preocupado. As contas não batiam e já sabia que teria de entrar no tal do cheque-especial pra poder fechar o período e bancar as dívidas, todas já no vermelho.
Talvez por conta dessa loucura toda não poderia notar a parede se descolar e vir a toda na sua direção desde o terceiro andar da obra. Estaríamos falando agora de sua morte se Arata não tivesse surgido como um raio pra lhe puxar com agilidade e força de um gigante.

Daí em diante a amizade nasceu fraterna, como verdadeiros irmãos separados na maternidade. Onde um estava, estava lá o outro. Em certos momentos pareciam pai e filho também, mesmo sem muita disparidade de idade aparente. Simplesmente eram um pro outro o que se precisava para o momento de ambos, e vida assim foi.

Hoje Carlos se lembra com carinho da conversa que tiveram tempos atrás na hora do almoço no trabalho.
-Aí, cara...
-Fala...
-Já se pegou pensando alguma vez se você nasceu com algum ‘destino maior’?
Arata fitou-o com olhar único.
-Todos os dias, meu velho. Mas me conta aí; o que se passa na sua cabeça?
-Sei lá cara, pode ser bobagem minha, mas creio que algo precisa mudar na minha vida, sabe? É como se do nada, eu começasse a pensar numa direção, como minha mãe sempre disse; como é mesmo?
-Um propósito!?
-Isso!
-Quem sabe o seu propósito seja encaminhar pessoas na vida, mano?!
-Como um orientador de escola, ou coisa assim?
-Na verdade, pensei nalgo parecido como um ‘irmão mais velho’ pra alguns, tipo isso.
-Mas em quê? Ajudar na profissão?
-Pode até ser, mas imaginei coisa mais abrangente.
Arata põe-se a falar como que preparado há séculos para aquele exato momento. Sem ser prolixo, explica seu precioso ponto de vista.

Sem saber, absorto na conversa, Carlos é observado por criatura que o contempla como que o estudando. Só que seu foco não é apenas em Carlos e suas dúvidas existenciais. Seu alvo principal é Arata!
Passaram tempo demais conversando e notaram o quanto estavam atrasados para voltar ao trampo. No final do trabalho andaram juntos até a plataforma do metrô. Carlos entra e Arata se vira na estação quase vazia. Era tarde, já que estavam numa obra acelerada, faziam serão. Já estava quase na hora de fechar o metrô.

O clima estranho demais faz Arata entender que aquilo se tratava de um ambiente possuído pelo mal. Olha mais ao fundo e percebe vir em sua direção um ser obviamente espiritual, do alto de mais de dois metros certamente, e ao se aproximar, nota que suas vestes parecem-se mais com roupas de bárbaro.

Arata se espanta com a ousadia do demônio em aparecer ‘revelado’ assim naquele ambiente, mas não se amedronta.
Numa voz macabra falando como numa tediosa melodia aguda, o ser pergunta:
-Preparado para seu destino, arauto?
-Meu destino nunca esteve em suas mãos, Ottar!
Ouve-se uma gargalhada animalesca e os pouquíssimos presentes, mesmo sem ver nada, fogem por puro medo do desconhecido.
Ottar ergue uma besta e dispara sua seta mortal, porém o alvo desta vez não é Arata, mas sim o painel de força que se encontra um pouco atrás do pequeno arauto.
-Agora estamos no meu ambiente, pequenino; as trevas!
-A escuridão nunca me assustou, potestade. Você sabe muito bem como me adapto aos ambientes.
-Por pouco tempo pequeno guerreiro, por pouco tempo!
Dito isto, o covarde gigante convoca seus asseclas. Demônios de várias classes aos pares. Contavam na verdade, dezenas deles.
O pequeno com feições orientais, com um brado, libera seu par de asas cinzentas.
-Ah, o arauto volta às suas feições de anjo, não é “Arata”?
-Me chame de Lebiel, infiel!

Nesse exato instante, cada fera mística cai sobre o guerreiro com ferocidade ímpar. Ele se protege como pode. Garras e dentes pontiagudos rasgam sua carne, seu sangue jorra de forma alucinada. Se tivesse em mãos seu aço místico a luta atingiria outro patamar, mas tudo isso faz parte do plano covarde de Ottar. Enfrentar alguém 'despreparado' aumenta as certezas da vitória.

Socos, chutes, giros velozes, golpes de asas.... Ele luta com bravura inigualável e cada demônio, antes confiante da vitoria, percebe a honra que há no pequeno guerreiro que luta de mãos limpas. Porém ele sabe que não resistirá por muito tempo sem uma arma, ainda que improvisada.
Um a um, ele derruba cada demônio com esforço hercúleo. O adestrado guerreiro faz uso da cada utensílio que aparece em sua frente. Todos, tornam-se armas letais! E assim ele pouco a pouco logra êxito, até restar apenas...
-Ottar... Agora somos apenas eu e você!
A potestade sai das sombras, enquanto desfila sua cara desfigurada com voz nasalizada e com tom doentio:
-Tem certeza, ser inferior? Suas forças estão minadas pela luta destemida que conduziu, ou será que suas forças se foram por conta da vida ‘fácil’ que possui como arauto, vivendo escondido entre os caminhantes? Admira-me não ter sido morto pelos demônios inferiores...
O guerreiro angelical se ergue mesmo com feridas lancinantes, e lhe fita com olhar irado, apenas digno dos mais bravos:
-Me explique demônio, como um ser eterno pode ficar enfraquecido em poucos anos como arauto, se lutou milhares de anos como guerreiro?
Não me desonre com seus artifícios mentais, porco!

Eles se encaram, se medem, se estudam, até que Ottar inicia sua tentativa de frustrar os sonhos do Ser maior.
A luta é animalesca. Ambos são guerreiros eficientes e farão de tudo para a defesa de suas respectivas missões. Eles arriscarão a própria existência se preciso for.

A batalha épica já dura horas num balé amedrontador e duro. Ambos, obviamente cansados, querem terminar logo com isso, porém Lebiel sabe que a paciência precisa ser exercitada contra um demônio tão descabido como Ottar.
O anjo conta que em algum momento ele confiará em sua força e estatura e fará algo errado.
Mas, inexplicavelmente o guerreiro alado sabe que de alguma forma, o sujo tem alguma razão. Ele se sente enferrujado, exausto.
E desarmado de seu aço místico, sabe que apenas um milagre o fará vencer esse gigante demoníaco.
Olha para o céu e balbucia por ajuda em prece. Mas antes que miríades despenquem do céu em seu auxilio, Ottar aproveita a distração e atravessa o pequeno anjo com uma cimitarra negra sobrenatural! Ele não grita, mas a dor que sente só poderia ser suplantada pela vergonha....

Ottar sabe que deve se recolher logo. Matar um anjo possui implicâncias seríssimas e conseqüências mortais. Mas antes, ouve a voz sibilante de Lebiel que diz com leve sorriso:
-Você perdeu demônio burro! Com minha morte, dezenas dos meus irmãos ainda mais poderosos que eu, virão em sua caça. Os planos do Eterno se cumprirão mesmo em minha morte!
O demônio se agacha, furta seu aço negro do moribundo guerreiro e parte da mesma forma que surge; covardemente!

Há um hino de dor no ar quando os anjos chegam a tardio reforço. Eles choram, lamentam e fazem promessas de vingança diante do corpo do irmão ainda quente. Até que um deles, Agniel, se voluntaria para estar no lugar de ‘Arata’ na vida de Carlos.
-A obra de meu irmão não será em vão! Viva os sonhos do Eterno!!!
Erguem suas armas e bradam ao anjo morto.

É domingo de manhã quando rapaz alto e magro bate a porta de Carlos.
-Bom dia...
-Sim?
-Vim te trazer noticia triste, amigo. É sobre Arata...
-Ele...?
-Sim, infelizmente nosso amigo partiu.
-Como aconteceu?
-Não é tão importante agora, Carlos, mas saiba que tinha grande apreço por você e que seu desejo certamente era ver cumprido em ti, seu destino, o propósito que vocês conversaram tanto.

Ele se vira, e com um semi-sorriso se despede, porém o rapaz mantém a sensação que o verá de novo.  Mas muitas perguntas movem seu pensar. E quanto a conversa com Arata, como ele poderia saber de tudo?
Parece que realmente existe entre céu e terra mais coisa do que imagina sua pequena filosofia.

Carlos fecha a porta, abre o coração e pergunta a Deus o que virá? A resposta em seu coração diz que apenas Ele realmente sabe. Embora essa perda aponte para uma derrota, a guerra haverá de continuar. Onde será da próxima vez?

Wendel Bernardes.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Eles Estão Entre Nós... O Poderoso Auriel.



Fileiras se perfilam. Há tambores que roubam o som dos trovões. A ira no olhar do inimigo, por mais notória e significativa, não faz com que nenhum guerreiro sequer sinta medo. A ferocidade da batalha apenas cerca o vencedor.

Europa – Século XVI D.C.

Os ventos trazem boas novas. São ainda pequenas, porém importantes mudanças no mundo. Embora os impérios surjam cada vez mais ferozes, aqueles que se sentem livres, levam sua liberdade a sério!
Ele é um simples lavrador. Anos a fio buscando o sustento dos seus. Luta para sobreviver com as sobras do que planta, afinal o melhor de seu trabalho acaba mesmo nas mesas dos poderosos. Seja nalgum palácio, seja num mosteiro rico.

Seu velho pai, mesmo igualmente pobre, ensinou-lhe coisas preciosas; ler, escrever e... pensar!! Assim, possuidor de parcos recursos, mas de espírito nobre, ele se opõe em seu coração a todas as corrupções vigentes em sua época. E não são poucas.


Ouviu-se em determinada corte os gritos dum clérigo poderoso, que de tão preocupado com os rumos (dos cofres) de sua religião, esbravejava aos quatro ventos, maldições indizíveis até mesmo a um camponês, um bucaneiro, ou até um guarda de infantaria.
Seus planos seriam postos em prática antes que ventos reformistas sequer atravessassem as fronteiras do reino. E ele sabia que o ‘bom exemplo’ deve ser aplicado onde mais pode possuir eficácia; nas classes mais baixas!

Embora triste com os rumos da fé, ele une os seus em prece. Inicialmente esposa e filhos lhe servem de congregação, mas pouco depois amigos e vizinhos lhes fazem companhia. Na pequena vila todos conheciam a piedade e o zelo do homem simples ao falar de coisas importantes descritas nas Escrituras Santas, que ele mesmo traduziu e leu a cada um que sedento lhe pediu.
Possuíam uma estranha ligação, como sagrada simbiose, ou comunhão fraterna. Não havia entre eles mais pobre, ou remediado. Cada homem exatamente igual ao seu semelhante.

Porém, o mal assume formas com contornos belos mascarando-se de bem, simulando piedade. O clérigo, sabedor da filosofia que partilhava tudo na pequena vila, adiantou-se e mandou prender o pobre homem, inicialmente ‘apenas para uma lição’, mostrando assim sua ‘benevolência e misericórdia’.
Mas o pobre homem, não desistiu de sua liberdade. Assimilou seu flagelo, e mais uma vez gozando de sua ‘liberdade’ pôs-se a fazer o que sempre fizera, ou seja, continuou a comungar das palavras santas, mas por consciência, dispensou os que não seriam do lar, achando assim que geraria menos dor e mal aos seus semelhantes. 

Cônscio dessa nova realidade o clérigo, imbuído de inveja, ou quem sabe ainda de sentimento mais nocivo, não iria deixar de demonstrar seu poder e toda a ira por ter sido menosprezado por tão simples figura. O poder da coroa e da fé não poderiam ser zombados assim, principalmente pela rebeldia de um camponês!

Acordou num susto como da outra vez, só que agora os guardas com lanças em punho notadamente não possuem a mesma motivação de antes. As tochas que possuíam nas mãos não pareciam ser apenas para iluminar o caminho na noite fria.
A brutalidade torna-se a bandeira e as desconfianças confirmam-se. Enquanto ele é levado cativo, amarrado pelas mãos atado a um cavalo, olha para trás e contempla sua choupana arder, iluminando a madrugada, confirmando o horror da força do opressor.

As feridas múltiplas, principalmente as internas o fazem ceder e seus olhos cerram-se como que buscando esquecer-se de tudo. Acorda atado a um poste. A escuridão e o cheiro indescritível confirmam que está numa masmorra, desta vez, ainda mais sinistra que a anterior.
Assim que seus olhos acostumam-se com a falta de luz, percebe coisa estranha e inimaginável até para a mais fértil das mentes provincianas.
São olhos! Acesos, vermelhos como fogo e mergulhados no mal. Ele apenas sente um frio que percorre sua espinha e numa tentativa natural tenta tranquilizar seu coração, até que ouve rosnados, e em meio destes uma voz ainda mais terrível e indescritível.

-O que fará agora, caminhante? Seu Deus abandonou-o junto de sua liberdade...
Ele apenas tenta localizar, sem sucesso, o locutor dessa sentença.
-Eu sinto seu medo e não é sem razão, sua morte está próxima!
Sombras o circundam e nesse momento ele percebe o terror que pinta o contorno de cada criatura, certamente, nenhuma delas conhecidas pelo homem, ou pelo menos não catalogadas.
Ele ensaia uma prece entregando seu espírito e quem sabe, pedindo a Deus que morrer nas mãos desses monstros não seja seu destino.
Subitamente, algo realmente inesperado acontece.
Uma luz assustadoramente intensa enche o ambiente outrora mergulhado em trevas. E surge ele! Alto, negro, de roupas tribais, longas asas alvas e uma cintilante espada nas mãos.
-Ninguém toca no caminhante!
-Auriel, murmuraram os demônios...
-Eu disse ninguém, ouviram?
-Ora Auriel, irá libertá-lo?
-Minha missão não lhe diz respeito, cão!
-Fiquem calmos, ele não pode contra todos nós, sugere um deles protegido pelas sombras restantes.
-Quer apostar?
Silêncio profundo.

O guerreiro decide não mais aguardar e vibra seu aço místico por cima de sua cabeça e abre suas asas como que protegendo o pobre flagelado. O brado que solta faz metade dos demônios recuarem, a outra metade não recua por um único motivo; falta de tempo hábil. Foram absolutamente todos atingidos, partidos ao meio, estripados, mutilados...
A voz outrora horripilante, agora sem confiança alguma, profere a seguinte promessa antes de sumir nas sombras:
-Haverá outra oportunidade, guerreiro...
-Vou aguardá-la ansioso, demônio!
Sumiram... fugiram agindo covardemente, como sempre.

-Você veio me soltar? Sussurra o camponês numa mistura de alívio e espanto.
-Sinto, amigo... mas não.
-E o que veio fazer?
-Lhe proteger de perecer nas mãos deles, mas não posso livrá-lo de seu destino, porém, lhe trago boas novas.
-Novas?
-Há um levante na fé, seu exemplo de amor e caridade contaminou a outras, em breve esses campos estarão prontos para a seara, entende?
-Embora nunca tenha pretendido ser um exemplo, entendo perfeitamente...
-E não é tudo..
-Sim?
-Trago dois recados para você de seu Mestre.
-E...?
-Sua esposa e filhos estão em seus braços e felizes por sua atitude.
Ele não profere palavra, mas as lágrimas que correm como riachos em seu rosto traz a mensagem de alegria que explode em seu coração!
-E o outro recado?
-Seu lugar, amigo... Também está reservado e seu Mestre sente saudades suas.
Foi o único sorriso que ele usará pelo resto da vida.

Auriel continua de guarda o resto daquela noite. Não exatamente por acreditar que os demônios irão voltar, na verdade ele sabe que o ‘recado’ a eles já foi dado. Ele permanece em companhia, por solidariedade e vê que a exemplo de outros mártires, o camponês canta canções alegres mesmo depois do susto e do medo.
Ele sabe que quando a manhã despertar, sentirá a maior dor física que jamais sonhara, porém ao menos, seu espírito estará livre!

Em outro lugar, um farfalhar faz fundo ao som do aço místico cortando carne pútrida. A guerra jamais termina. Onde agirão da próxima vez?

Wendel Bernardes.










sábado, 13 de abril de 2013

Um Conto Estranho?



Era uma pequena cidade do interior nada sofisticada e com hábitos bastante provincianos se comparada às metrópoles cosmopolitanas por natureza.
Mas se engana quem acredita que esses hábitos se traduzem por abandono. Muito pelo contrário. A prefeitura de Singela, numa administração bastante longeva de um prefeito orgulhoso, cuida de cada detalhe fazendo daquele lugar quase um pedacinho do céu. Principalmente incentivando a religiosidade do povo.

São sobrados tombados pelo patrimônio público e cedidos para igrejas neopetencostais, barracões de santo com contornos estruturais invejáveis aos da cidade grande e cuidado carinhoso com a igreja da matriz, essa sim o xodozinho de todos!

Podia-se dizer que o prefeito estava feliz com a instituição da religião na vida do povo em seu mandato. Quando argüido do por que de tal paixão pela religiosidade, respondia cheio de si; ‘A Religião alimenta minha alma!! Note nossos jovens, dizia; são participantes de quermesses, cultos, missas, congressos, sessões e assim ausentes da pagina policial!’
E era fato; o consumo de drogas ilícitas era mesmo muito baixo, quase nulo, fazendo daquela terra uma utopia com endereço fixo.
E continuava: ‘Chequem os obituários. Morre-se aqui de velhice e mui raramente de doença – pois ninguém está imune – mas ainda assim a fé de nosso povo cura a muitos!’

Nada se poderia dizer a respeito, era exatamente verdade cada dado apresentado pelo líder político de Singela. Ele mesmo imbuído de autoridade outorgada a ele (segundo ele mesmo) pelo próprio Deus, examinava de perto cada instituição religiosa, cada agremiação de fé.
Freqüentava batismos evangélicos, festas de santos da umbanda, batizados católicos, reuniões de ação social espírita. Até tomou certa vez o tal do ‘santo daime’. Sentia-se responsável por afastar os charlatões da fé do meio do povo. Perdeu-se a conta dos caras-de-pau que botou pra correr da cidade apenas em perceber suas motivações. O negócio com ele era sério! ‘Com religião não se brinca’; dizia!

Não se cansava nunca. Seu compromisso era esse em primeiríssimo lugar e por incrível que pareça, sua vitalidade era invejável. Por mais que batalhasse e que passassem os anos, estava cada vez mais jovial, mais vivaz!  
Alguém duvidaria de sua missão? Jamais!!!

Num radiante domingo, dia de contemplação religiosa para a maioria das seitas, quase se podia notar o ambiente cheio de espiritualidade solta no ar, como em ondas douradas pelo céu...
E assim aquele homem guardava em seu coração segredos que nem mesmo o mais puxa-saco de seus assessores poderia sequer desconfiar.

Era noite alta naquela sexta-feira quente de lua minguante, quando entrou em seu modesto carro usando roupas estranhas e grande chapéu que lhe cobria o rosto.
Ia em direção a uma fazenda abandonada, perto de onde tempos atrás se dizia ter um cemitério de escravos mortos por rebelião nas antigas fazendas ricas de cana-de-açúcar do Brasil Colônia. Lá, grupo seleto de distintas figuras, em sua maioria vindas de outras paragens, preparava-se para oculto ritual pagão de louvor a divindades desconhecidas pela maioria.
Mantos negros tomam o lugar de roupas civis. Faixas escarlates cingem os peitos, utensílios dourados figuram nas mãos como estandartes loucos para serem exibidos reservadamente.
Um estranho cântico macabro que emite apenas uma nota grave e contínua (cuja letra desejo ocultar) se faz ouvir em meio a tochas de fogo acesas por queima de pólvora seca. A vista de longe seria bela, caso não se tratasse da visão do mal!

Assentado na primeira fila, perto do púlpito de madeira arcaica com entalhes rústicos estava o tal prefeito local, porém, suas feições estavam diferentes; velhas, cansadas e bizarramente deformadas como se atingido por dor lancinante. Mas seus olhos brilhavam como o fogo embevecido das tochas. Algo que o interessava estava por acontecer.

Figura alta, de semblante sínico tomou a palavra.
- Caros irmãos, quero aqui dizer de minha alegria em encontrar esse lugar em plena ordem. Essa cidadezinha, como todos sabem, bebe do cálice da fé direcionada, focada na religião e na prática das cerimônias que tanto faz crescer nosso poder místico.
Cada celebração, culto, missa, reunião ou sessão, lançam forças inimagináveis pelos fiéis que acrescenta significavelmente o nosso poder!

A platéia enfeitiçada ouve atentamente:
- Hoje queremos realizar a cerimônia que dá renovo às nossas forças místicas, e em particular a um de nossos mais ilustres membros.
Sem mais palavra alguma, ergue-se o prefeito e dirige-se para tomar posição atrás de um biombo onde uma chama tênue revela sua silhueta. É na verdade alguém curvado, envelhecido. Aquela era sem dúvida alguma a sombra de um ancião!
O sacerdote com expressão sínica faz uso de uma grande urna, onde repousa um notável liquido dourado. Mergulha ali um de seus inúmeros utensílios, colhendo generosamente o líquido para depois o espargir sobre o corpo quase morto do velho. Ele o unge... não, ele o embalsama!
A magia age instantaneamente e não há mais um velho decrépito diante dos olhos da congregação macabra, mas de novo um homem jovem, forte e robusto. Seu corpo está incrivelmente renovado, ereto e funcional! Em nada lembra a figura anterior.

O milagre místico se deu em meio à histeria coletiva e ao êxtase dos presentes!
- Esse líquido precioso, irmãos, colhido das celebrações e louvores nos trás vida e longevidade. A religião flui em vida para nós! Não mais repetiremos o erro de nossos ancestrais que mataram em nome das religiões. Agora em nome dela teremos vida!
Que vivam as instituições religiosas e suas preces contínuas.
Que vivam suas louvações frenéticas e práticas sacras.
Que viva nosso culto onde nos beneficiamos do poder jamais antes provado por homem algum...
Que o medo da morte e danação eterna os persiga e cada dia mais sejamos...
Imortais!!!

Wendel Bernardes.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Eles Estão entre Nós... O Grande Kenoah.



Um braço ergue-se empunhando aço nu. Ouve-se logo em seguida um brado que amedronta a alma dos mais bravos. Certamente esse grito de guerra não é em vão... Na verdade, nunca foi!

JERUSALÉM – SÉC. I A.C.
As ruas empoeiradas e escuras da “Cidade Santa” guardam segredos inacreditáveis. Aaliyah tenta voltar para casa, juntos dos seus, mas sente que está sendo seguida. Ela possui apenas dezessete anos e nunca deveria sair de casa desacompanhada, isso é uma desonra para uma moça de família, principalmente a essa hora da noite, porém isso se fez necessário. Aaliyah tem que sair a essa hora para buscar um pouco de comida na casa de seu tio Baruch.
A fome, ainda mais negra que a noite, a impulsiona a prosseguir. Ela está só pelos mesmos motivos que caminha a essas horas. Medo e morte.

Seu pai fora morto, pois se desconfiava que ele fizesse parte da nova seita dos Caminhantes. Bárbara e completamente brutal, a vida fez com que essa pequena flor do deserto se tornasse uma mulher em pouquíssimo tempo.  A comida é para partilhar com sua mãe Adina, às portas da morte.

A jovem tem medo de perecer pela peste que assola sua mãe. Tem medo de morrer ao fio da espada dalgum centurião subornado por algum dos herdeiros culturais e religiosos dum tal Caifás, que no passado recente, fora responsável pela morte de certo profeta.
E seu medo não cessa...
Teme ainda morrer de fome, teme ser pega por algum vilão bêbado sorrateiro...
Porém, e pequena mal imagina que seus medos deveriam potencializar-se. Ah, se ela soubesse...

Ela apressa o passo como que percebendo alguma atrocidade latente. Dobra esquinas e esgueira-se apenas com pedaço de pão, um tanto de azeite e duas tâmaras.
“Oh, Deus... Ajude-me!”

Alheia à sua prece, criatura monstruosa e demoníaca decide atacar apenas com um propósito: saciar sua sede de sangue.
A criatura firma sua força em quatro patas, rosna como fera louca e corre como sempre. Seus dentes destroçam carne há séculos, porém, quando a carne em questão se trata de uma jovem e assustada caminhante, tudo se amalgama a um estranho sentimento: o prazer.
Embora a menina sinta um medo que lhe gele a alma – mesmo sem saber do quê – jamais poderia arrazoar do que ela foge. Mas a criatura está cada vez mais perto, cada vez mais próxima de concluir sua sina; saciando sua sede...

Apenas alguns metros para que Aaliyah chegue ao seu destino. Apenas alguns metros para que o terror se apodere dela. Respirações ofegantes. Medo e prazer estão no ar... o demônio salta para seu propósito até que algo lhe corta as entranhas!
A criatura urra banhada duma gosma alaranjada e fétida. Vira-se para contemplar o que a atingira e fita figura gigantesca.  Corpo de bárbaro, rosto de homem, espada de guerreiro: e realmente o é!
Trata-se de Kenoah, um guerreiro celestial temido na terra dos homens, odiado nos baixos e inglórios locais e cantando em seu Reino sobrenatural.

A criatura conhece seu algoz, seus olhos queimam de fúria cega e na única e desesperada tentativa de vencer, lança-se insanamente contra seu oponente. Ele aguarda parado como estátua de mármore com seu aço dourado nas mãos e quando a fera se aproxima ele usa seu próprio peso e impulso para lhe atravessar o corpo demoníaco. Abraça-lhe firmemente e estende suas asas morenas dando impulso e saindo assim do alcance de qualquer olho humano.
Aaliyah? Está segura em casa alimentando sua mãe dessa vez. Isso até que a morte lhe bata a porta em mais uma oportunidade. Porém, se depender de seu mais novo guardião pessoal, nada será tão fácil assim.

Longe dali os sons de guerra se intensificam. Outros braços se erguem, urros demoníacos se fundem aos cânticos de batalha de seres nascidos para tal.
Onde agirão da próxima vez?

Wendel Bernardes.





domingo, 10 de março de 2013

Desejo do Tempo Passado.



Cansado demais, apenas queria deitar-se em sua cama mal feita e dormir profundamente.
O quarto escuro e frio o faz lembrar de pensamentos que o remetem ao passado recente. De alguma forma faz uma prece, pedindo que algo mude seu destino.
Depois de algum tempo de pensamentos correlatos é vencido pelo cansaço.
Seus sonhos são puro drama, quem sabe mimetizados por sua própria psiquê doentia ou por conta de coisas que fizera. O silêncio do ambiente o faz ir ainda mais profundo em seu labirinto pessoal, quem sabe buscando encontrar algo perdido, quem sabe tentando ver-se vencido nos braços de minotauro qualquer...

De súbito, ainda que embevecido pela droga de Morfeu, sente alguém adentrar, ou simplesmente surgir em sua proximidade. Os níveis de sono são rapidamente vencidos até que abre seus olhos agora acostumados à escuridão, procurando pela fonte de tal situação até que:
- Boa noite, ou devo dizer bom dia? Sabe, eu nunca consigo me decidir qual a saudação certa...
- Meu Deus!!!
- Ah, sim... É uma confusão bastante comum, meu amigo. Alguém aparece do nada em seu quarto na madrugada e logo é associado com Deus, ou com algum de seus auxiliares... Quero deixar bem claro que não sou Ele, nem associado a Ele em qualquer esfera!
- Então você é...
- Você não está me ouvindo, amigo?... Disse que não estou associado com Ele em nenhuma esfera, entendeu? Isso quer dizer que não sou esse aí que você pensou... Ora, veja!
- Então quem é você? O que faz aqui? Aliás, como entrou aqui?
- Ahhhhhh.... O delicioso sabor das perguntas certas.
Ele vaga em meio à penumbra até que, quase deslizando, senta-se como um lord na ponta da cama de casal com agora um dono apenas.
- Sou alguém que seu entendimento um tanto curto não irá assimilar muito bem meu caro...
- Como assim?
- Viu? Como eu disse – concluiu ironicamente.
Repentinamente o rosto do estranho se ilumina numa luz tênue que poderia ser ainda mais sutil que pequena chama.
- Sou um discípulo – deveras aplicado, eu diria – do tempo como um todo.
- Isso quer dizer que...
- Que tenho em minhas mãos, caro jovem, o poder de singrar dimensões. Presente, futuro e passado não me são fatos lineares e inacessíveis como a vocês. Isso quer dizer, que posso acessar exatamente qualquer ponto do tempo... Não é maravilhoso?
- Qualquer ponto?
- Sim, desde que seja, digamos; nos últimos cinco mil anos...
- Inacreditável!
- Eu sei meu jovem, para seres como você é completamente inadmissível minha realidade, mas...
- Prove...!

Ele lhe sorri com expressão enigmática enquanto apenas ergue a mão esquerda onde faz revelar estranho anel dourado com ranhuras e lapidações que lembram símbolos místicos, certamente.
E qual surpresa se deu quando o quarto escuro simplesmente tornou-se uma bela varanda em madeira de lei. Redes fixadas nas colunas de jacarandá e cheiro de café fresco e bolo de laranja....
- Essa casa é...
- Sim, da sua adorável e falecida avó... Continue olhando, meu amigo.
A porta lateral se abre revelando duas conhecidas figuras. Uma de cabelos grisalhos cortados na altura da nuca, brincos de pérolas, grandes olhos negros e forte sorriso convidativo.
- Vovó – ele diz boquiaberto.
A outra; menino de calças curtas, cabelo desgrenhado, olhos azuis e bem magrinho. Dessa vez sua já fraca voz se cala diante de sua própria figura na infância. Os cheiros, os sons, a presença dela... Tudo é real, ele sabe muito bem.
E no exato momento em que suas descrenças desaparecem, ele volta ao quarto no mesmo ponto de partida.

- Vejo que nutre uma fé positiva agora, não é mesmo?
- Você provou apenas o que é, e o que possui como dom, mas não explicou o que quer aqui e comigo.
O ser enigmático se energiza com as perguntas de seu companheiro, e agora de pé, passa a descrever:
- Sou um de poucos seres possuidores do poder de fazer almas tristes como você, meu amigo, voltarem a desfrutar de novo da alegria da vida plenamente.

Ele continua a falar, mas agora fita friamente os olhos do jovem.
- Não é preciso o dom que tenho, para saber que sua vida está lançada na dor e amargura de um recente cisma. Sua cama feita para dois, abriga apenas um. Seu olhar perdido procura por alguém que ‘o tempo levou’...
- De fato, mas o que você pretende?
- Pretendo lhe trazer a cura, que tal?
- Cura?
- Sim, lhe presentearei com um poder especial... O poder pelo qual cada homem ou mulher desse planeta hipócrita mataria. O poder em que poetas e filósofos, doentes de angústia, basearam suas mais complexas teorias e poemas.
- Qual poder?
- O poder de voltar atrás... Imagine poder voltar até certo ponto do tempo em que o gesto certo poderia mudar tudo? Trocar seu destino, mexer na sua vida!
- Não é possível!
- Seria dúvida ou medo que lhe assombra, meu caro? Convido-lhe a lançar-se na minha realidade, e veja você mesmo, meu amigo descrente.

O jovem apenas acena positivamente com a cabeça, ato que faz o estranho lord tomá-lo pela mão fazendo-o erguer-se de sua cama.
O ambiente no entorno dessa cena clareia sutilmente, enquanto o enigmático mago do tempo faz descansar em seu dedo anelar esquerdo, antes vazio, anel semelhante ao que ele mesmo usa, apenas um tanto menor e mais simples.

Estranhamente o jovem sente algo correr pelo seu corpo, como uma energia pulsante, que lhe revigora e lhe vicia exatamente naquele instante.
- Sim, meu caro... Isso é poder! Coisa que pouquíssimos privilegiados experimentaram até hoje.
- E agora o que faço?
- Apenas deseje profundamente e você estará exatamente no local e no tempo que quer visitar, se não me engano em seu passado, a tempo de mudar seu futuro que é nosso presente.
- Sim...
- Calma amigo, não deveria se vestir antes?
Foi apenas aí que notara que estava completamente nu, se não fosse o par de meias que calçava.
A ânsia por mudar sua vida lhe fizera cego até mesmo para coisas práticas da vida, então o que seria uma simples nudez?

Devidamente vestido – e perfumado – olha para aquele que é agora seu mestre e pergunta:
- Há algo que eu deveria saber? Algo que não possa realizar?
- Não pode mudar o livre-arbítrio de ninguém, esse poder é desejado até mesmo pelos deuses, mas infelizmente não o possuímos, mas pode fazer exatamente tudo no âmbito natural para mudar seu destino. E deixe de lado seus pudores meu jovem, é mais fácil quando você os abandona...
- Eu o verei de novo?
- Decerto que sim, meu caro.
Ele fecha seus olhos azuis e é lançado num outro ambiente, noutro tempo. Sentiu certo desconforto como os novatos em primeiro voo, apenas potencializado quanticamente, óbvio...
Mas agora está lá... Defronte de velha casa desgastada pelo tempo. Seu corpo, embora contendo a energia de um estro, estava tenso, trêmulo e completamente estranho.
Tocou a campainha e notou surpresa e apaixonada figura em sua direção. Possuía olhos tristes, sorriso de cantos de lábios, cabelos negros, e um desejo enorme de abrir o portão e abraçá-lo por instantes a fio. Foi o que fizeram.
Ele agora sabia o gesto certo para não por tudo a perder... Essa parte foi a mais simples, pois repassou isso em sua mente vezes e vezes. O abraço lhe entorpece até que desperta e está de novo em seu quarto.

Sonho? Não! O anel ainda está em suas mãos e o gosto do beijo e o perfume que emolduraram o encontro ainda estava em sua roupa. Isso mesmo; roupa... Até onde lembra, estava apenas de meias na noite anterior. Foi tudo real.
Tomado por dor terrível tenta remover o anel, lançá-lo longe, mas seu esforço é vão...

- Não faça assim meu amigo.
- Você! Seu cretino mentiroso... Eu estava lá, mas vivi apenas alguns minutos.
- Ora meu amigo, instantes felizes não são melhores do que toda uma vida triste e vã?
- Você me enganou, estou preso a essa realidade não é?
- De fato meu esclarecido pupilo.
- Porque fez isso a mim? O que você ganha com isso?
- Ahhhhhh.... As deliciosas perguntas de novo.
Você ainda faz parte de grupo seleto, porém, diferente de seu mestre que singra milênios, seu poder apenas se limita àquele momento...
- Por quê?
- Foi você quem escolheu. Tinha o poder de estar com quem quisesse em qualquer tempo, mas preferiu ver seu amor e resgatar seus erros. Agora está preso a esses momentos. Foi seu enganoso e desejoso coração que assim o fez.
- Agora estou preso a isso?
- Absolutamente. Você está preso à esse passado há muito tempo. Apenas lhe dei poder para realizar seus desejos mais notórios. Esteve feliz e completo por alguns instantes, não foi?
Quem se lança no amargurado passado, apenas imaginando como tudo seria diferente é escravo desse passado. Pense positivo, pelo menos seus últimos instantes são felizes...

Dito isso, o bruxo temporal se despede acenando-lhe com a cabeça e lhe deixa só com seus pensamentos, enquanto lhe vira as costas, e sente dentro de si o poder ao entorno sendo deslocando pelo jovem quando mais uma vez salta em direção ao passado. Sente que fez um bem quando estabeleceu macabro paradoxo na vida desse – agora – escravo do tempo.

Olha em pequeno bolso interno em seu sobretudo e nota que há ainda muitos anéis do tempo. Vislumbra o futuro e simplesmente some, saltando em direção a ele.
Cuidado com seus desejos e preces...

Wendel Bernardes.


sexta-feira, 8 de março de 2013

Elas...



Elas são mães, filhas, irmãs...
São avós, primas, tias...
Esposas, companheiras, amigas...
São tantas coisas e tão completas, que mesmo os mais brutos
Dependem delas até a alma.

A cada mulher que faz, fez e fará parte de minha vida
Parabéns pelo dia de hoje,
E pelo de amanhã
E depois e depois e depois...

Wendel Bernardes