Quando respondeu ‘sim’ ao convite que lhe fora feito na noite anterior, jamais imaginaria que tudo terminaria assim.
O som intermitente ecoa um tanto abafado no quarto escuro do pequeno apê na Glória. Fora dormir mais cedo por puro tédio. Onde se viu em pleno verão carioca, não ter programa para um sábado à noite? Mas a campaínha do iphone indica que o domingo pode se diferente.
-‘Oi’, disse sonolenta...
- Dormindo? Essa hora? Que barra heim, amiga?
- É... Esse sábado foi fraco...
- Fraco ou rolou algo mais? Vamos, desembucha que te conheço bem, Prí!
- Bom... Desentendi-me com meu pai... O de sempre, né? Nada meu presta. Meu namorado é um vagabundo, minhas roupas são curtas, meus amigos são falsos... Essas coisas que me tiram do sério! Ele implica com tudo, amiga... Menos com você!
- Prí, seu pai é um cara legal, mas ele pertence à outra geração e é o modo dele te dizer que não está curtindo ver a filhinha dele crescer!
Rolou parecido com minha mãe, cara... Mas hoje estamos ‘de boa’.
- Torço pro meu pai entra na vibe da sua mãe, amiga...
(riram delas mesmas por alguns instantes...)
- Olha, eu tô de folga amanhã e como estou morrendo de saudades de minha amiga mais louca...
- Desiste se for programa ‘família’, viu?
- Ih... Relaxa... Só uma praínha no Leme; serve?
- É né? Fazer o quê?
(Riram de novo).
Prí dormiu afoita pra que chegasse logo a manhã de domingo. Seria perfeito ficar o dia fora de casa, principalmente se 'ficar fora' fosse resumido em: esquecer o ‘mala’ do pai.
Seu Beto e Prí sempre se deram bem. Ele ficou viúvo cedo, Prí nem andava ainda! Ele decidiu estar ‘só’ e dedicar seus melhores anos à verdadeira mulher da sua vida (como fazia questão de dizer).
Experimentaram (quase) tudo juntos e isso sempre fora legal, até que ela cresceu. Parece que Beto ficara sem graça apenas com o passar dos anos. Ou será porque ela descobrira uma galera mais descolada com programas mais legais e um ritmo de vida mais condizente com sua personalidade elétrica?
De qualquer forma, parece ter aberto um abismo entre os dois, como se fosse linha ao fio de lâmina na própria carne. A dor era notável, pelo menos pro Beto!
Quando ela acordou, agiu rapidamente e em silêncio para não ser perturbada e apenas passa na cozinha para comer pedacinho de queijo branco com um gole de café preto. Seu café da manhã preferido!
Seu Beto apareceu com os óculos no meio do nariz e jornal dominical na mão...
- Já vai Priscilla? Senta e tome seu café direito, amor...
- Atrasada...
- Vai à praia, filha? Tanto tempo não fazemos isso juntos, né?
- Deve ser porque você se tornou um pai chato, ranzinza, preconceituoso e sem graça!
- Prí... filha... Me perdoe, mas esse sou eu! Devo mudar pra...
- Deve sim, pai! Mude de jeito, mude de cara, mude daqui também se você quiser, viu?
O silêncio gélido e prolongado, mostra exatamente que ela o magoara no ponto certo, como seta direcionado a um único alvo. Mesmo assim Beto prossegue...
- Isso quer dizer que não devo fazer o almoço? Disse com um semi-sorriso de paz.
- Quer dizer que daqui por diante você faz o que quiser da sua vida, desde que você me deixe em paz. Alias, quer um conselho?
- Você dirá de qualquer forma...
- Claro que vou! Pega a sua grana, pare de economizar e vá ser feliz, pai! Só vive em casa lendo jornal, reclamado de política e do tempo. Fazendo comida de avental como a mamãe nunca fez!!!! Vá viver sua vida que eu vou viver a minha!
Dizendo isso, saiu como pequeno furacão e bateu a porta dos fundos do apê tão forte que derrubou quadrinho dependurado com foto de certo trio familiar.
Beto se agacha e enquanto limpas as lágrimas reposiciona a foto de sua família e se pergunta por que o tempo precisa passar.
Na plataforma do metrô Glória, Prí liga pra sua amiga marcando ponto de encontro no calçadão do finalzinho do Leme, pertinho do quartel e do Costão dos Pescadores. Depois desliga o celular pra num dar a sorte de receber mensagens ou ligações daquele velho chato.
Por instantes, chega a se perguntar se está fazendo certo, afinal eles só têm um ao outro... Sua amiga não concorda, acha que ela está sendo grossa demais. ‘Ah, deixa pra lá’, pensa. ‘Hoje é só praia, sol, curtição e quem sabe até arrumo outra vibe pra mais tarde? Tudo de bom!’
Estava entardecendo quando decidiu ligar pra casa e ver como estava seu pai... Sabe como é? Aquele charminho, fingindo que tudo não passara de um sonho e tal?! Quem sabe seu pai relevava. Quem sabe poderiam até fazer alguma coisa juntos, afinal ela estava com a consciência pesada como um elefante indiano!
Cineminha? Que tal?
- Sinistro...
- O que, Prí?
- Minha caixa postal tá vazia, sem mensagem de texto, sem ligações perdidas... E pra ficar mais estranho, o telefone lá de casa só chama.
- Preocupada com tio Beto? Arrependida?
- Sei lá.. Acho que só remorso mesmo!
Relaxa amiga, pai e mãe sempre compreendem mesmo, sabem que é fase. Pelo menos minha mãe pensa assim.
- Num sei, viu? Meu pai é diferente. E ele foi mais que ‘apenas’ um pai pra mim.
- Verdade, tio Beto é gente boa demais... Ele é o cara, né?
As palavras da amiga circulam num vácuo. Prí estava reverberando seus problemas e remoendo as possibilidades até que diz:
- Amiga foi mal, vou encurtar o dia, vou ver meu chatinho!
- Claro Prí, pra mim também já tava na hora de ir, vou me adiantar, pois tem balada mais tarde... Topa?
- Num sei... Acho que meu final de noite será ‘em família’.
- Ok... Beijo no tio Beto, tá? Te ligo segunda.
O ar-condicionado do metrô ressecava sua pele e a areia na sandália a incomodava, mas nada era tão angustiante como o telefone de seu apê tocando sem parar. Nessa hora passa um monte de lances na cabeça. ‘Será que ele se aborreceu e não está me atendendo de pirraça? Será que ele decidiu sair e seguir meu conselho? Por que ele num tem celular, cara?’
As sentenças se misturam ao nervosismo de saltar logo e sair desse gelo de metrô! Atravessou a rua indo em direção ao prediozinho com jeito meio art deco. Ao dobrar a esquina notou estranha movimentação na rua sempre calma. Contou dois carros de polícia, pequena caminhonete dos bombeiros e outros dois veículos públicos. ‘Aquela van amarela é da Defesa Civil? Ih, sinistro’, pensou.
De tão preocupada com a besteira que fizera, mal se deu conta que algo poderia ter acontecido de mais sério. E certamente era com alguém bem próximo...
Será algum vizinho, conhecido, o cara da padaria da esquina?... Sabe-se lá...
Nem se ligou, até que sujeito alto com rosto sério lhe impediu a passagem.
- Interditado, mocinha!
- Por quê?
- Um... Acidente ocorreu aqui. Apenas pessoal autorizado e família.
Parece que o mundo parou. Era como se toda as fichas do universo lhe caíssem ao mesmo tempo. Largou seus apetrechos praianos no chão, se desvencilhou do cara alto e correu como louca! Apenas tinha uma palavra em mente: papai!
- Onde vai? Não está vendo a interdição? Disse-lhe uma policial agarrando-lhe pelo braço.
- Me larga moça, é minha casa! Onde está meu pai?
A mulher vivida e acostumada a ver desgraças todos os dias, tira do bolso de trás do jeans bilhete escrito a mão.
“Filha, sinto muito não ser mais alguém tão importante pra sua vida. Você sempre será minha preferida, mesmo sendo minha única filha.. amo-te! Beto”
Fria e em choque, reposiciona cada ato do dia de hoje e não consegue decidir se o pior foi a maneira com que lhe tratou essas últimas horas, ou como lhe fizera os últimos anos. Até mesmo o bom humor contido no bilhete recheado de amor lhe dói.
Dizem que o tempo é senhor de todas as coisas. Tudo que ela queria agora era dominá-lo, destroná-lo, subjugá-lo, mas nada, absolutamente nada a trará de volta àquela manhã...
Até que o celular toca despertando-a em seu quarto... Desesperada percorre toda a casa sem encontrar ninguém...
Recosta-se na parede da cozinha próximo a porta de saída, enquanto escorrega desconsolada até o chão, notando a mesma foto de sempre. A ausência dele é surreal. Não poderia suportar estar só... Não sem ele!
Ouve um barulho de chaves...
- Chorando? Mas seu time até venceu o jogo de ontem...
Fui apenas à padaria comprar seu queijo branco...
Ela saltou sobre seu velho como se tivesse mais uma vez apenas três ou quatro aninhos e ali, naquela cena tocante, deixaram se perdoar mutuamente enquanto as lágrimas coroavam o momento. Celebravam o perdão, e uma nova chance dada pelo destino! Aquele domingo de sol teria praia sim, e qual não foi a surpresa da amiga ao notar Prí vindo de longe de mãos dadas com seu pai sorrindo e brincando. Era a vida celebrando da melhor forma possível esse recomeço: através do perdão!
Seu semblante era fechado, sisudo. Ele era mesmo alguém
grosso, ignorante e todos sabiam do azedume que lhe saborizava a vida.
Parecia o tipo de gente sem jeito. Passava por vizinhos e os
ignorava completamente. Os pouquíssimos que se aventuravam em lhe saudar, por
pura educação, ganhavam às vezes um sonoro rosnado, outras vezes apenas olhar gélido
de canto de olhos.
No trabalho era básico...
Basicamente estúpido com o porteiro, basicamente grosso com
a secretária, basicamente ‘equino’ com a auxiliar de serviços gerais. Do escritório
no qual trabalhava apenas era ‘ameno’ com o pessoal da pagadoria, por motivos óbvios
é claro!
Essa faceta de ‘homem de neanderthal’ afastava absolutamente
todos de seu convívio. Uma vez recebeu convite em mãos de um amigo de infância para
seu casamento que estava às portas. Defronte ao rapaz, sem a menor cerimônia,
bateu a porta na cara do desafortunado!
Um rapaz novo no trabalho, possuidor da inocência dos
desavisados, foi lhe convidar para um amigo-oculto de final de ano. Arregalou os
olhos quando de abrupto notou que rasgara o convite (feito com esmero no paint) e lançara os restos mortais do
mesmo contra as lentes de seus óculos. Até hoje o pobre desconfia que isso fora
pegadinha dalgum engraçadinho.
A família não lhe liga, não lhe manda flores, nem sequer
sinal de fumaça... visitar que é bom, nem pensar! Alias, outro dia um primo o
viu vindo em sua direção próximo da orla, rapidamente arriscou a própria vida
roletando entre a ciclovia e a pista principal, apressando o passo e fingindo
ler algo importantíssimo no smartphone.
Pra garantir, desceu os óculos escuros para sacramentar o ar ‘nem te vi’!
Surgiu assunto no trabalho tempo desses. O tema na fila do
cafezinho era a vida privada de tão singela figura.
Casado? Jamais! Se alguma tola fosse pega nessa rede
desavisada já o teria abandonado faz eras (glaciais)!!!
Gosto musical? Certamente peças de Chopin, Wagner ou
Brahms... Jamais o suingue de um Villa-Lobos, claro que não!! E mesmo assim
ainda sobre o assunto ‘música’ acertaram que ouvia por dia no máximo uns 15 minutinhos,
pois nada poderia agradá-lo por tanto tempo.
Será que acertaram?
Ele chega a seu prédio exausto, o trânsito caótico do Centro
à São Conrado o deixou tenso (como de costume). Na garagem do prédio antigo,
deixa seu sedã na velha vaga, toma o elevador vazio ouvindo um trecho de um
bolero instrumental que insiste em tocar pelo sistema de som do pequeno prédio.
Abre porta clássica de madeira quase negra, entalhada a mão e
a cerra bem, como que prendendo atrás de si um mundo que o queria engolir, ou
mesmo trancafiando uma fera louca, vai saber...
Já em seu apartamento amplo e claro, com decoração clean,
deixa seus pesados sapatos negros num canto onde está o mesmo aparador que
descansa sua valise, suas chaves, e celular (com o qual ninguém se comunicava).
Ligou o stereo e a
bossa nova encheu o ambiente. Trocou de roupa ao som de ‘Desafinado’ enquanto
punha água no pequeno regador para hidratar suas orquídeas raras, dignas de
exposição no Jardim Botânico.
Ao final de sua apaixonada tarefa religiosa, dirige-se ao
fogão onde prepara suculento cannelloni com massa caseira e molho aos quatro
queijos durante uma lenta e deliciosa degustação de um perfumado bordô!
Abre a janela e o som do violão de João Gilberto amalgama-se
aos ruídos das brumas e de solitário passarinho que encerra essa sinfonia empoleirado
num flamboyant em frente da entrada de ar.
Quem sabe ele é tão avesso a tudo apenas por saudade de sua
solidão perfeita?
Ou ainda é a maneira que achou para esconder sua faceta
gentil e sensível da selva de pedra em que vive (e que, diga-se de passagem; não
perdoa ninguém...)?
Ou a realidade crua é que ele simplesmente veste a pele
dessa figura sisuda - quase má - aos desavisados, e é domado pelo prazer da
companhia de ninguém e apenas suaviza-se quando mergulha em seu mundo irreal e utópico.
Ou será essa sua verdadeira face, sua realidade?
Perguntas quem sabe sem respostas...
Quem sabe já respondidas!
-As tristezas são coisas naturais na vida... Consegue
apontar os motivos das suas?
-Poderia dizer que é a forma que lido com minha família... Encontro-me cansado das mesmas coisas todos os dias; a apatia se abateu nos
meus relacionamentos...
Ou ainda com meu trabalho. Passei anos formando-me,
graduando-me, mas ganho talvez um terço do que um profissional do meu quilate
deveria.
Meu carro estragou, meu grupo de bilhar se desfez... Briguei
com um grande homem.
-Algo mais?
-Ah, já que perguntou, tem sim...
-O que seria?
-Perdi o ‘grande amor da minha vida’, tudo porque deixei a
apatia se abater...
-O ‘grande amor’... Está falando...
-Ah não... Antes de casar... Era um belo relacionamento, mas
escapou-me das minhas mãos como água.
-E então?
-Então? Diga você!? Você é o terapeuta!
-Primeiro quero que você entenda que não se elucida algo
assim como que num passe de mágica. Quero que saiba...
-Sem rodeios, por favor!
-Pois bem. A apatia que você insiste em descrever é na
verdade um amuleto que você criou!
-Amuleto... ?
-Eu poderia descrever de forma acadêmica, mas você quer que
eu seja...
-Direto; claro... Prossiga!
-A vida meu caro, é fomentada pelos sentimentos que
desejamos cultivar. Cultive alegria e você viverá feliz. Cultive o amor e você
será amado... mas você desejou cultivar os pontos negativos. Desejou a apatia!
Deixou ‘o grande amor da sua vida’ passar; casou-se com a
segunda opção, permite que em seu trabalho lhe ditem até o que ganhar,
empurrando sua carreira para um amanhã que nunca chega!
Seu carro tem conserto. Existem novos jogadores de bilhar em
cada esquina e quem sabe esse ‘grande homem’ a que você se referiu se cansou de
ser apenas um esparro numa relação com quem só reclama...
-Como?...
-Meu caro, esse amuleto que você cultiva em seu coração não
lhe deixa ser feliz, simplesmente porque você não quer ser feliz...! Sinto
muito.
-É tudo?
-Na verdade não, mas depende de você...
-Obrigado pela sua opinião...
-Por nada, passe bem. Ah, mande um beijo pra Ângela e pras
crianças, diga a elas que o vovô sente saudades.
E quanto ao erro com o 'homem importante na sua vida', bem...
Eu te amo, filho!
Quando anoitecia ela sentia deslocar-se algo estranhamente
familiar dentro de si. Não havia exatamente dor, ou pelo menos, não havia traço
de dor física, mas esse incômodo persistente mostrava-lhe sua diferença entre
os demais.
Começou a notar tudo isso há pouco tempo, na verdade, embora
soubesse da possibilidade de haver algo incomum dentro de si, sempre negou,
escondeu, obliterou essa curiosa sina lhe proposta sabe lá pelo que... Ou por
quem...
Mas agora tudo parece fazer muito sentido e a agonia de
esconder já não mais existia. Decidiu fazer notar tal fato quase como que
ostentando esse mal. Não havia vaidade ou mesmo orgulho, porém necessidade. Seu
corpo cansara de lutar contra cada investida atroz que lhe roubara a alegria de
viver ao longo do tempo. Como está implícito; era infeliz.
Porém nessa decisão de quase encarnar o mal, agora menos
contido e canalizado, aprendeu a domar não só a fúria louca crescente dentro
deste corpo relativamente pequeno, frágil e muito delicado. Agora aprendera
também a dissimular.
Óbvio, levaria tempo demais no embate com os entes comuns,
tentando lhes explicar sua decisão pelo mal pungente.
Como mulher, maquiava não apenas o rosto de carmim, mas
tingia a alma agora negra de tom pastel pra convencer, agradar, se proteger...
E a noite aprofundava e o mal lhe seduzia, lhe acariciava,
até que por fim terminava numa quase explosão, transformando sutil figura numa
máquina psicopata que fere tantas vidas quanto toca, quase que um Midas
reverso, que ao invés do brilho dourado reverte ao simples toque o gelo da
morte.
Escolhe cuidadosamente suas vítimas como quem desfila
tranquilamente numa liquidação de ponta de estoque. Visualiza gente como quem
compra carne. Experimenta, toca, sente e leva consigo. Se adorna da peça de
gente.
Quem por ela passa, seduzido por seu traquejo e beleza,
eloqüência e fluidez, poderia sequer imaginar que seria enfeitiçado por tão
convincente figura.Seus olhos castanhos
vidram a vítima como serpente maligna ou ainda, lhe envolvem na seda macia,
porém mortal de uma viúva negra.
Esse mal, acredita ela, é sua essência, faz parte agora de
seu ser. Depois que assim se viu, decidiu espalhar seu veneno e quem sabe
lograr êxito na conquista; seja de vítimas, seja de discípulos.
Ela se sentia cercada desde pequena. Na verdade perdera há muito
a referência de liberdade. Chega a imaginar que nunca fora livre afinal. Suas
lembranças mais distantes remetem sempre aos muros; às cadeias que a cercavam.
Sua mãe, figura sempre presente em sua vida, cuidava em
minúcias das coisas que ouvia, que lia, assistia e até mesmo, das coisas que
falava. De um jeito ameaçadoramente doce lhe olhava e direcionava cada
pensamento convergindo para o que ela deveria crer! Às vezes sentia-se
enclausurada literalmente, como num mosteiro ás avessas.
O estranho numa mulher tão doce e gentil como a mamãe, era
seu perfil quase patológico em garantir que suas lições eram aprendidas por
osmose, à exaustão. Não freqüentou escola. Mamãe dizia que ‘o saber corrompia a
boa alma ignorante’, mas não era só ela quem cuidava de seus ensinos. Alguns
professores de modos tão particulares como os de sua mãe, faziam-lhe companhia
durante o dia.
Homens de jeitos enigmáticos, de feições estranhas, cercados
de suas literaturas; principalmente dum livro negro arcaico, de páginas tons de
sépia e cheiro ocre.
Crescera em meio a tanto conhecimento que os jovens de sua
idade jamais teriam acesso. Um de seus professores, talvez um tanto rebelde lhe
apresentou às grandes obras dos clássicos romancistas.
Encontrou-se com Shakespeare, espantou-se com Verne e
apaixonou-se com Dumas (o filho) na verdade por uma obra em especial “A Dama
das Camélias”...
Algo tão contraditório ao seu ensino fundamentalista,
verdadeiro ultraje à sabedoria pura que lhe fora concedida.
Mas prossegue sua contemplação da vida sob a ótica de seus
mestres.
Espantada ficou quando descobriu por fim que esse
ensinamento fazia parte não só da formação de moça qualquer, importante apenas
para sua família. Mas fazia parte de uma árdua etapa que levaria uma jovem
tímida e originalmente sem grandes sonhos, além dos muros delineados de sua
gente.
Percebeu que seus mentores eram na verdade parte de um culto
ao conhecimento do inconcebível, e que cada etapa de seus ensinamentos faziam-na
mais preparada para assumir grandes responsabilidades e tamanho poder sequer
imaginado por menina antes tão simplória. Isso mesmo... ‘antes!’
Agora seduzida pelo poder do conhecimento e pelo desejo de
dominar, seus modos pouco lembravam a criança tímida do passado. Uma mulher
forte e decidida ergue-se para conquistar macabros ideais.
Já não sente mais as correntes que lhe cercavam os pulsos ou
paredes que lhe comprimiam o corpo. Ela agora é quem puxa as correntes, é quem
se assenta sobre a muralha.
Insana e cega pelo poder e autoridade, caminha a passos
largos para dominar seu propósito...
Uma dama sem dúvida, mas a flor que melhor a define hoje
seria uma tulipa... Negra!
Havia um som contínuo em sua cabeça, mesmo que não soubesse
explicar que som era esse. Ele estava lá, martelando, soando, doendo mesmo. Ele
sempre teve a impressão de que sua vida não lhe pertencia de verdade. Embora
essa ideia fosse idiota de se comentar com as pessoas ao seu redor, mesmo aos
poucos amigos que lhe restaram.
Começou a se arrumar para trabalhar. Pegava cedo, bem cedo.
Precisava estar antes dos fornecedores chegarem. Quando o pequeno caminhão
parou de frente a uma lojinha com portas e janelas de madeira trabalhados a
mão, os que se arriscavam a olhar jurariam que tratava-se de uma marcenaria,
mas as flores começaram a bailar num ritmo frenético.
Rosas de todos os tons, orquídeas, crisântemos, violetas... Cores
afinal!
Depois de tudo estar devidamente em seus lugares ele
simplesmente assina a guia que fica em seu poder e libera o cara da entrega.
Não dá sorriso algum, mal responde a saudação de bom dia do trabalhador que lhe
ajuda na loja.
Seco, duro, com feições quase que doloridas, mantém a ordem
da vida que lhe foi imposta. Não consegue lembrar como começara tudo.
Quem comprou aquela loja? Quando decidiu ser florista? Justo
florista!
Estranhamente possuía um bom manejo do estilete e retirava
espinhos como ninguém. Era tarefa fácil, e aparentemente a que mais lhe
agradava. Quem sabe trabalhar só sem participação de ninguém, quem sabe
simplesmente não seria por ferir a flor, por mutilá-la. Mesmo assim aquela
função estava longe de lhe proporcionar alegria.
Depois de oito horas de trabalho ele simplesmente fecha a
loja em sua rotina cíclica, veste o costumeiro casaco acinzentado de couro
gasto e carcomido, ajeita algo parecido a um gorro em sua cabeça e acendendo um
cigarro, some quase como que fugindo.
A dor seria sua única companheira não fosse o zumbido
infernal. Chegou a pensar em consultar um especialista, porém como não
conseguia confiar em ninguém seria um desperdício de tempo. Outra possibilidade
de não se consultar vem do fato dele não poder ajudar muito ao doutor. Imagine
só a sucessão de perguntas sem respostas. Não por conta de sua personalidade
magnética, não dessa vez... Mas sim por causa da ausência de qualquer fato
passado, a não ser por flashes desritmados, como que filmados por cinegrafista
inexperiente, de um passado remoto... creio que da infância, quem sabe?
Pouco se olha no espelho, mas quando o faz nota cicatrizes
em sua fronte, parecem cortes em forma de cruz, ou em xis, como queiram. Mas
acerca disso nada sabe. Mas desconfia.
O medo de ser um monstro lhe aterroriza mais do que qualquer
outra coisa. Mas procura não pensar nessa questão durante tanto tempo. Lembra
meio que vagamente da frase de certo alemão que disse que quando se olha por
tempo demais para um abismo, o abismo olha para dentro do observador.
O medo de receber piscada do abismo é muito grande. Então,
decidiu viver ao acaso.
Mas as respostas não ficam alheias as perguntas durante
muito tempo.
Certo dia, no meio de uma tarde de inverno, com pouquíssimo
movimento quase sem flores à venda, percebeu que alguém lhe olhava.
Estranhamente possuía a destreza de um bom observador e a perspicácia de
poucos. Saiu pelos fundos, aproveitou o trânsito fluente do sinal aberto e como
um fantasma atravessou a rua dando a volta por uma velha banca de jornais.
Atrás dela surpreendeu homem cerca de 10 anos mais jovem que ele, vestido com
bom gosto, cabelos curtos e jeito estranho. Parecia procurar algo; ou quem sabe
alguém.
- Posso lhe ajudar?
O estranho se vira como que pronto a revidar um golpe
- Como você chegou aqui? Vejo que não perdeu o manejo da
profissão!
- Sou florista, amigo, deve estar me confundindo com alguém,
ou quem sabe estranhando minha ocupação.
- Então é verdade...
- Verdade?
- Que você não se lembra mais de nada.
Aquele papo estranho e meio furado estava tirando-o do sério.
Decidiu encurtar à sua maneira. Agarrou o cara pela lapela e disse:
- Se você está aqui por que quer me dizer algo, desembucha
rapaz, ou então não me faça perder mais tempo.
- Não tenho nada pra lhe dizer, nem haveria mesmo uma coisa
assim tão importante na vida de um simples homem de flores, não é?
A ironia era notória na voz do desconhecido. Decidiu tomar
outra abordagem. Largou-o e disse:
- Pois bem, então, tenha um bom dia...
- Pra você também Rodrigues.
- Me chamou de Rodrigues, esse não é meu...
- Tem certeza, florista? Acredita em tudo o que lhe
disseram, na vida que lhe impuseram?
- Você tem cinco minutos...
- Preciso de dois...
Ele ajeita sua roupa agora meio amarrotada enquanto
completa:
- Você nunca se perguntou o que está fazendo aqui? Quem são
as poucas pessoas que te cercam? Você é casado? Tem filhos? É normal um cara da
sua idade nunca ter se relacionado?
Você amoleceu, Rodrigues. Aceitou sua nova programação,
simplesmente permitiu lhe enfiarem esse lixo na sua cabeça.
Nunca se perguntou por que eles fizeram isso? Porque simplesmente
não te apagaram?
- Eles quem?
- Você tem as respostas dentro de si cara, não sou eu quem ira
te catequizar, ou te levar à luz da verdade. Encontre seu caminho sozinho, você
sempre foi bom nisso. Se quiser repostas procure, ou viva no silêncio, mas a
questão é: você consegue?
Estático só lembrou de se virar para ver onde o sujeito foi
alguns instantes depois, tempo suficiente para não achá-lo mais.
Sinalizou para seu funcionário fechar a loja de onde estava mesmo,
já que a vista ali era boa, o cara a usara bem.
Teria que sair dali. Queria pensar nessa porcaria que o sujeito
engomadinho lhe vomitara. Seguiu a pé para um lugar ao mesmo tempo público e
arborizado a ponto de não ser achado tão fácil: o Jardim Botânico!
Num ponto pra ele estratégico, onde conseguia ver quem
passava e não ser visto por ninguém, tentou fazer a porcaria da cabeça
funcionar. Quem era esse Rodrigues?Não
poderia ser ele!Por que esse cara simplesmente lhe seguiu? Desceu e procurou
espelho d’água ali perto, olhou em busca de alguém conhecido, mas como sempre,
quando se viu no reflexo apenas vislumbrou um estranho!
A chuva que começou agora desfigurou aquele rosto estranho
na água, e nada mudou em sua memória. Não se abrigou. Apenas seguiu seu caminho
num passo simples, deixando a chuva lavar seu corpo, como que se ela pudesse
exorcizá-lo de quem ele é... Na verdade, de quem ele era!
Decidiu fugir de seu destino, ou quem sabe, de seu passado.
Não tinha ninguém para avisar, deixou bilhete para o funcionário lhe dando
plenos poderes sobre a loja e, como se diz no Rio; meteu o pé!
Tinha uma boa grana guardada que nem sequer mexia, pois não
tinha com que gastar.
Decidiu ir pro interior mesmo, pareceu o melhor caminho,
longe de grandes centros urbanos. O eixo Rio - Sampa não poderia mais ser útil.
Quando no aeroporto apenas com pequena sacola de mão olhou em redor, não sentiu
saudade alguma daquele lugar. Num sabia se era dali, ou se viera de outro
estado, sabe lá de onde...
Direcionou-se ao seu avião certo que de agora em diante a
vida poderia ser diferente. Preferia que a dor e o zumbido ainda lhe seguissem,
melhor do que culpa, que o remorso.
Entregou o bilhete e o cartão de embarque à aeromoça e
seguiu para seu destino.
Ainda não sabia quem era, mas decidiu fazer seu rumo segundo
sua mente, seu pensamento. Jamais deixaria um fantasma qualquer lhe ditar
regras. Não sabia se essa era a coisa certa a fazer, afinal não poderia se
lembrar se era assim que agia em seus tempos passados, mas o passado já era, e
o céu agora cinzento desse inverno se abrira numa nova oportunidade.
Mas ele não está enganado quanto a absolutamente nada da
vida. Sabe que a qualquer momento a sorte pode mudar e se preparar para isso
será sua maior meta. Nunca mais será surpreendido por ninguém, seu destino
agora está em suas mãos.
Quem sabe por conta da positividade da cena, ele não nota homem branco, roupas finas e cabelo ajeitado que lhe olha enquanto segue seu destino. Se tudo será como antes? Depende do ponto de vista!