sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Vida de Joãozinho.




A vida nem sempre é um mar de rosas, já diz o ditado. Ditado nada, assim o diga o Joãozinho. Menino simples do subúrbio do Ro, mas poderia ser de subúrbio qualquer, de lugar qualquer, de sorte qualquer.

Era o primogênito dum casal que pouco conviveu. Parece mesmo que juntos estiveram apenas para que o menino nascesse. Mas tinha muitos irmãos, de um lado e do outro também. Teve a vida de menino pobre mesmo, acostumado a algumas privações e sufocos. Mas ‘normal’ na vida era isso mesmo, não nasceu ‘virado pra lua’, então, como dizia com muita propriedade contemplando o próprio rosto no espelho; luta é pra ser vencida!

Ficava sozinho em casa quando ainda era pequeninho vigiando seus irmãos enquanto a mãe, agora sozinha, ia trabalhar. Como bom moleque, aprontava de tudo, mas sempre dava um jeito de se safar.
Era um tanto caladão, parecia que vivia dia e noite pensando na vida, no futuro, no mundo de tapas que tinha que dar ou levar pra tentar ‘ser feliz’.

Gostava de tudo que gosta moleque qualquer. De TV, videogame, futebol... mas agora se pensa você que o sonho do Joãozinho era virar Ronaldo, está muito enganado! Claro que gostaria de ‘ser alguém’, mas tinha seus dois pés firmados no chão enquanto sua cabecinha viajava no infinito dos sonhos. Se bem que sonho de menino pobre, se realiza com qualquer merreca, não? Obvio que não! Joãozinho era pobre só nas vistas, mas seu espírito era rico... nobre mesmo.

Já com doze anos, decidiu sair de casa. Não batia opinião com a mãe... tinhoso como era ‘sartou de banda’ lá pra casa da vó Nilde. Era mãe do pai, e como bem sabido, tinha uma simpatia imensa pelo neto, mas ficava por aí no quesito simpatia. vó Nilde era meio azeda, como que curtida no sal da vida para conservar a caminhada. Pra ela nem tinha como vir de conversinha fiada que num tinha tempo pra gastar com bobagem. Mas com Joãozinho não, nunca perdiam tempo discutindo, claro, que isso se devia mais ao espírito safo do garoto do que ao jeito de onça da vovó!

Moravam perto da Central de Abastecimento de Hortifrutis, lugar frequentadíssimo por todo o comércio carioca e de boa parte do Brasil. Quando o negócio ficava feio em casa, vó Nilde e Joãozinho iam à cata da vida por lá.
Pra muita gente isso é um fim, digno de relatos com fundo musical sensacionalista de programinha de quinta. Mas pra eles era só o meio. Viviam um dia depois do outro, como Deus queria. Falando em coisas divinas, Joãozinho um dia pensou que esse Deus até que poderia dar uma forcinha na vida.  Mas nada de favorzinho que a vida num tá pra dever nada a ninguém, nem pra Ele...Mas caladão como era, preferiu deixar isso só no coração mesmo!

Fez o caminho inverso a quase 100% dos moleques cariocas, não esqueceu o futebol, mas meteu a cara nos livros, imaginou que dando braçadas largas, ganharia a vida à remadas, como poucos garotos suburbanos pensam em ganhar; numa sala de aula!

Sua vó quase caiu sentada quando Joãozinho, doidinho da silva, disse que queria ser matemático!
- Matemático? Ganhando a vida fazendo o que? Vendendo calculadora na Uru?* (*rua Uruguaiana , a 25 de Março do Rio)
- Não vó, meu sonho um dia é entrar na faculdade, cursar matemática e dar aulas pra gente miúda, como eu fui um dia!
A vó emudeceu. Num sabe ao certo até hoje porque. Será que foi porque era voto vencido? Ou ainda por causa da emoção e orgulho que lhe sufocava o peito?

Então, decidido em lutar sua luta mais voraz, Joãozinho agora rapaz, olha pro céu como que em prece e pensa em pedir a Deus uma chance, mas não proferiu palavra. Ele até sabia como orar, o que não sabia era pedir! Sempre acostumado a cair na pancada com a vida.

Calou-se como sempre, mas sentiu que não estava só como nunca sentira! Uma quentura lhe envolveu o corpo de não mais que metro e meio de gente e seu coração parecia explodir, seus olhos marejados sentiam algo que jamais se deram ao luxo de sentir; AMOR!
Acho que esse negócio é coisa de Deus!

Descobriu Jesus quando o próprio filho de Deus se revelou a ele no caminho da vida. E não é assim com todos? pensava! Ao conhecer Jesus dedicou sua vida a Ele e usou seu corpo e sua alma pra dançar pra Ele, coisa que faz até hoje com o mesmo amor que sentiu lhe ser dispensado na vida! Falando em vida, ela ainda tá dura, obrigado! Mas agora as forças eram dobradas na tentativa de ganhar seu lugar ao sol.

Quando chegou o dia do vestibular não titubeou, a matemática o esperava lá na frente e seu Deus o instigava à seguir. Passou não só pra uma, mas pra duas faculdades públicas do Estado do Rio de Janeiro...
Pode então escolher a melhor grade curricular e o campus mais próximo de casa.
Ficou bobo de ver como ganhou ares de importância a sua vida.

Começou a dar aulas este ano e seu sonho está cada vez mais concreto, mais palpável.
Dia desses perguntei pro Joãozinho se ele sentia orgulho de sua vida, de seu caminho, afinal ele é o primeiro membro de sua família inteira a chegar na faculdade.

Com rosto enigmático e com testa franzida me disse: - Cara, num sei... Acho que não... e sorriu! Só pude sorrir junto com ele, pois a vida lhe ensinava a não ser tolo e viveu cada momento saboreando a verdade como um fruto vindo do céu, mas sem deslumbre!

Parabéns Joãozinho, sua vida me inspira!

Wendel Bernardes.

(Postado originalmente no Blog Café Com Leite Crente)


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Distante Reino sem Sonhos

Há muito tempo atrás num reino perdido e distante nasceu uma criança. Poderia ser um momento de júbilo para seus pais, ou quem sabe a alegria de sua parentela. Porém era um bebê não planejado, num reino onde tudo deveria seguir duríssimas regras de condita de vida.
Nasceu e criou-se em meio ao desdém, quase sem atenção alguma senão aquela mínima e indispensável a cada criança para sobreviver.

Apenas quando maior é que a criança pôde ver o mundo com seus próprios olhos. Antes, trancafiada como que numa quarentena eterna, apenas via o sol, a lua e algumas estrelas rebeldes que cismavam em parecer naquele estranho retângulo na parede que as pessoas chamavam; janela.

Mas quando viu as plantas, sentiu o cheiro da relva... quando vira o riacho e ouvira seu som contínuo e belo... quando tocou a areia o notou sua textura é que percebera o quanto lhe fora roubado, o quanto perdera. A vida era maior, mais profunda e larga numa escala jamais sequer concebida pela criança.

A tristeza poderia ter se apoderado dela, mas havia em seu íntimo um estranho dom... Tinha dentro de si, emaranhado em seu âmago o talento da fé. Cria fortemente que tudo que vivera até então possuía um estranho propósito. Cada dia obscuro, cada noite em claro poderia um dia tornar-se liberdade.

Além desse estranho dom, possuía também a criança um curioso poder; o de sonhar.
Agora que conhecera a relva macia, que sentira o cheiro das águas, que vivera instantes com os elementos, projetava em seu pequeno coração realidades inteiras.

Suas projeções mentais lhe permitiam não só produzir o que vira nos instantes de liberdade, mas criar verdadeiros universos paralelos onde ela era o centro, onde era o poder pra realizar seus próprios sonhos... ou planos!

Certo dia alguém mal intencionado olhou mais de perto a criança e notou curiosamente em seu quarto que as paredes, antes pintadas num tom sem graça qualquer, agora cintilava vida. Eram ramos, flores, raios de sol!
Como poderia fazer surgir tudo aquilo? Não se poderia permitir! A própria existência do pequeno ser afrontava as duras leis do reino perdido.
Além de desobedecer a todos ingenuamente, a poderosa mente da criança usou da ‘bruxaria de sonhar’... projetando ao seu redor felicidade, liberdade.

Mesmo criança deveria pagar! Trancafiaram-na num fosso, ou numa torre... Sabe-se lá qual calabouço! Esqueceram-na a ponto de nem sequer olhar pela fresta no momento de alimentá-la. Qualquer gesto era proibido!

Meses e anos se passaram até que mesmo num reino que está fadado a ranhura da dor, a vida trouxe esperança na figura de um novo rei que surgiu, nascido em meio a sentimentos tão conhecido, tão doloridos. E curioso fitou o calabouço escondido enquanto observava suas posses. Sem saber do ‘mal’ ali escondido fora ele mesmo conferir, com a curiosidade peculiar dos jovens, qual o motivo de tamanho esquecimento, tamanha dor.

Os ferrolhos quase não o obedeceram quando sua chave fez atravessar a fenda da porta. Ao forçar a pesada madeira viu inacreditavelmente uma porta para outro mundo, ou outra dimensão. Eram cores e calor, brilhos e texturas incríveis, jamais sonhados nem pelas mentes mais férteis (se é que isso existe nesse reino).

O que seria aquilo, magia negra? Bruxaria perdida? Ciência desconhecida? O medo tomou conta do jovem monarca, porém depois de alguns instantes de receio, deliberou em aventurar-se no mundo da criança.

Criança? Sim, ainda era uma criança mesmo depois de anos e anos... Com um coração intocado, envolta em fé e sonhos!  Engendrando planos e criando um universo perfeito onde nem paredes de pedra moldada, nem ferrolho ou escuridão poderiam trancafiar!

Os momentos tornaram-se dias onde o monarca perdido em conhecimento decidiu abolir as duras leis do reino pedido. Percebera que embora duras, austeras e sisudas, tinham poder algum sobre a mente de seus súditos e o coração sonhador daquela poderosa criança.

A última noticia sobre o reino perdido antes de desaparecer completamente dos escritos antigos é que se encontrava em plena restauração. Novas leis estavam sendo criadas tendo como base a liberdade de cada individuo, onde o sonho é permitido e até cultivados. Onde o maior poder está na fé e no desejo do coração. O novo rei percebeu que a verdadeira autoridade não está contada nas leis e no medo imposto, mas na liberdade de escolher servir a partir da admiração. Tudo isso vem por meio da fé, da liberdade, do sonho. Tudo isso a partir de olhar a vida sob a mente de uma criança.

Wendel Bernardes.

(Texto inédito)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Salvo Pelo Amor...

Ele tinha apenas 12 anos e achava a sua vida um tédio... Tudo era motivo pra ficar “bolado”. Sua casa não era lá grande coisa, mas veio de uma família boa e honesta. Mesmo assim achava a vida um saco.

Porque sua casa não poderia ser melhor?
Porque seu pai não tem um carro?
Porque tudo não era como na casa ao lado?
Lá tem ar condicionado no quarto das crianças! Eles fazem ‘computação’ (assim era chamado o curso de informática em 'Eras Passadas'...), inglês, natação... Vão até de van para a escola.

Falando em escola, claro que nada era “perfeito” lá também.
Ele era o próprio conceito do “bullying”. Magricela ao ponto de se envergar ao sabor duma brisa de outono. Cara espinhenta, deixou de ser chamado ‘carinhosamente’ de “Chokito” e migrou (obrigatoriamente, claro...) para a alcunha de “Chapisco”. Preciso dizer mais?

Ninguém queria se relacionar com ele desde a terceira série. Bom, ninguém senão a Carlinha. Era menina boa. Boa filha; a irmã do meio, amada pela mais velha e exemplo para a caçula. Tirava ótimas notas, ganhou bolsa em ciências na quinta série e pretendia fazer o mesmo em quaisquer outras matérias.

Ela gostava dele, achava-o engraçado, curioso... e de certa forma enxergava seu jeito ranzinza como um ‘charme meio ao contrário’. Coisa de doido pensar assim, mas vá entender a cabecinha de Carlinha.

Ela foi gentil tantas vezes com ele que acabou vencendo-o pelo cansaço. Começaram a namorar na sétima série, ele com 14, ela com 13 (mas possuía maturidade e doçura para os dois, diga-se bem...).

As amigas quase tiveram espasmos múltiplos ao saber do namorado que Carlinha arrumara.
- O Chapisco? Cê ta doida? Num é porque ele é feio amiga, mas porque é chato que dói!!
Ela se divertia com as amigas rindo dela mesma e foi obrigada a concordar com a galera que ele era mesmo chatinho e bem feinho, mas agora era tarde, estava caidinha por aquela criatura.

Chapisco tava indo na onda até o dia em que brigaram, e brigaram feio... Alias era tudo culpa dele mesmo. Como poderia Carlinha se indispor com alguém, mesmo como ele? Impossível!!!

A casa ficou mais chata, a escola mais tediosa e a zoação dos moleques ainda mais sacal! Ele agora não tinha mais quem o ouvisse, quem sorrisse de seus lamentos, quem o abraçasse nas reclamações familiares e quem o afogasse livrando-o de sua própria chatice.
Percebeu que estava amando. Na verdade, sacou que estava viciado na empatia e doçura que Carlinha exalava pelos poros.

Hoje com 29 anos ainda tem seu charme pessoal.
Chatinho como é quase não recebe convite de seus companheiros de trabalho para as happy hours depois do expediente.
Sua família quase se esquece dele nas datas festivas.
Ele mesmo às vezes quase não se aguenta.
Isso mesmo... quase...
É que Carlinha agora faz parte definitivamente de sua história. É ela quem dá graça à sua vida descolorida.

Chegou em casa ontem e ouviu dela;
- Como foi o trabalho hoje, amor?
- Uma chatice como sempre...
Ela sorriu, maneou com a cabeça ao passo que colheu os sapatos espalhados pela sala e foi preparar-lhe o banho enquanto gratinava perfumada torta de frango para o jantar.

Ele a olhava de costas enquanto se afagava em seu sofá (quase) sem graça, deu meio sorriso e se sentiu salvo pelo amor daquela mulher doce...
Salvo pelo amor de Carlinha.

Wendel Bernardes.

(Postado originalmente no BORA LER, Blog da amiga Regina Farias.)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A História de Um Manolo qualquer


Os sons mesclavam-se naquele final de manhã. Buzinas, frenagens, escapamentos nervosos...
A cidade fervia naquela segunda feira, menos na vida de Manolo... alias, olha o respeito, ‘Seu’ Manolo!
Sessenta e tantos anos vividos em prol da família e por ela trabalhou, suou, adoeceu, sofreu e contornou tudo e todos doando tudo que podia pelos seus três filhos, hoje homens feitos.

Foi ‘pai solteiro', pois por conta do destino fora abandonado pela mãe das crianças quando o caçula estava ainda nas fraldas. Foi homem o suficiente para vestir avental de dia e pilotar um taxi nas noites cariocas.


Porém tudo isso é pretérito! Seu Manolo passa seus dias agora num banquinho de praça, onde às vezes joga dama com os companheiros, às vezes deixa o som alucinado da cidade lhe invadir os ouvidos.
Torce para assim gastar cada gota de energia para quando chegar à solidão da casa agora vazia, ir direto pra cama. A vida resume-se então a isso, salvo véspera de natal ou dia dos pais quando ‘as crianças’ lhe visitam... quando podem... quando lembram!

Foi num dia barulhento que viu chegar perto linda mulher, figura digna com pose de lady inglesa, de feições orientais, cabelos envoltos num belo e esvoaçante lenço; de olhar altivo porém doce. Verdadeira flor de formosura.
Sentou-se perto dele e delicadamente buscou em sua bolsa migalhas de pão e começou a lançar aos pombos...

Manolo não sabia como deixar de olhar aquela bela figura e o fazia meio que de banda e por sobre as lentes dos óculos de grau (agora indispensáveis). Até que não resistiu e disse:
-Parece que os pombos não vêm hoje...
-Verdade, devem ter se assustado comigo.
-Pois seria uma tolice, mas pode bem ser verdade!
-É?
-Sim... todos sabem como pombos são tontos, jamais poderiam perceber tamanha beleza em figura tão gentil!?
Ela abriu sorriso franco e ele sentiu que quebrara o gelo, mas não sabia mais o que lhe dizer... nem era falta de eloqüência, era pura timidez mesclado a certa baixa estima.
Quase que sentindo isso (pois elas possuem um sexto sentido afiado...) a senhora tomou a iniciativa e disse:

-Que horas são?
-Ah, estou sem relógio me perdoe, respondeu ele.
-Desculpe, é que emudeceu de repente, apenas queria mesmo puxar assunto...
-Ah, sim... julguei que a estava incomodando.
-Não... na verdade (corou de vergonha) estou aqui por sua causa!
-???
-Faz algum tempo que lhe observo vir aqui diariamente oscilando entre o jogo de damas e o banco solitário, mas hoje resolvi lhe falar...
-Falar...?
-Na verdade lhe convidar para almoçar, ou jantar.... ou quem sabe um cafezinho...!
Eles se entreolharam durante uns segundos e sorriram um pro outro.

Almoçaram, jantaram e tomaram muitos cafés. A vida de Seu Manolo desaposentou naquele dia e hoje revive seus momentos cada vez mais feliz em ter encontrado aquela mulher tão cheia de vitalidade e juventude mesmo com seus já cinqüenta e tantos.

Ele ainda passa pela praça e o ruído da cidade ainda o incomoda, só que agora não fica mais aguardando a vida passar. A praça é só passagem onde revê seus antigos companheiros. Hoje corre pra casa onde o prazer de viver lhe devolveu o sorriso e a força. Agora sabe que nunca é tarde para se viver, principalmente quando a base da vida está no Amor!

Wendel Bernardes


(Texto originalmente postado no Blog da amiga Mariani Lima)

sábado, 25 de agosto de 2012

Nildinho, um Bicho Solto na Vida.



Evanildo dos Santos da Silva. Esse era seu nome de registro. Mas ninguém o chamava assim. Sua falecida mãe o tratava de Nildinho, mas na favela ele era o Bicho Solto!

Acostumou-se a correr nas vielas sujas e largadas pelo poder público. Soltava pipa e por elas se arriscava nas lajes a vida toda. Futebol? Bem, ele mesmo dizia que era craque, mas largou a bola por uma pistola quando mesmo ainda criança foi forçado a dar de cara com a realidade dura do morro.

Sua mãe morrera dum ataque fulminante de coração. Parece que ela tentou chamar a vizinha pra ajudar a lhe acudir, mas seus gritos foram abafados pelos tiroteios constantes do morro. Afinal, quem iria se atrever a sair do barraco em noite de invasão da facção rival?
Morreu ali, sem ninguém que a ajudasse sequer a tentar vaga na UPA que construíram no pé do morro.

Nildinho se virou sozinho.
Costumava dizer, enquanto gesticulava com uma pistola 756 na mão, que seu pai fora um 38 e sua mãe uma escopeta.

Loucuras a parte, a vida dele não fora mesmo nada mole.
Roubou comida pra sobreviver e tomou ‘piau’* na favela por isso. Pois é, na lei da favela morrer de fome pode. Roubar gente da comunidade não!

Depois de furtar comida e apanhar por isso, decidiu roubar gente que, segundo ele, tinha mais a oferecer. Assaltou ônibus da Zona Sul, van pra Zona Norte e trem pra Baixada.
Generalizou a vida e fez dela um crime só. Só que a vida não era ‘crime passional’, porque paixão, Bicho Solto nunca teve.

Aos poucos começou a ser ‘respeitado’ na favela. Como não respeitar alguém que portava uma arma e agia violentamente contra tudo e contra todos?
Aliás, contra tudo mesmo! Seu primeiro homicídio foi cometido contra um crente que lhe disse que ‘Jesus é Amor!’
- ‘Amor? Amor é o cac#t#!’
Deu três tiros na cara do ‘irmão’ e o pôs pra cantar mais cedo no coral do céu.
- ‘Num queria Deus? Então... foi morar com Ele, ué!’

Pra entrar pro tráfico foi um pulo. O respeito de Bicho Solto entre a bandidagem cresceu. Ele passou de ‘comédia’* pra ‘sujeito homem’* sem mesmo esvaziar o pente da arma. Apenas três tiros.

Foi ‘avião’, ‘fogueteiro’, ‘soldado’ *, e muita gente caiu até se tornar o ‘frente’* da boca mais rentável da favela. Aquela que ficava perto da ‘pista’, onde havia fluidez de trânsito e que a polícia não conseguia perseguir, apreender drogas, ou mesmo prender quem quer que fosse, dado ao caos rodoviário que fluía pra Zona Sul, ou por causa do medo de adentrar na ‘comunidade’ pra pegar os ‘vagabundos’ como são chamados.

Seja por um motivo, ou por outro, Bicho Solto era certamente o ego dominante na bipolaridade de Evanildo. Era cada vez mais ‘band’* e cada vez menos aquele moleque que curtia soltar pipas na laje.

Poucos anos se passaram e muitas guerras se formaram na vida de Bicho Solto. Guerras em todos os sentidos. Trocou tiro com a polícia, com bandido de outras facções e com os ‘traíras’* de seu próprio ‘bonde*’.
Levou tiro de todos os calibres, sobreviveu porque vaso ruim não quebra.

Mas a maior guerra que esse homem travou sempre foi consigo mesmo. Nunca se perdoara por não estar em casa pra socorrer sua mãe. Justo nesse dia foi conferir o vídeo game que o amigo de pelada da viela de trás ‘comprara na pista’*
Logo naquele dia rolou tiro na favela.

Odiava os PMs por fazerem (as raras) incursões na comunidade.
Odiava a facção rival por tentar tomar incansavelmente o morro.
Odiava os vizinhos por não fazerem nada pela mãe moribunda.
Odiava a si mesmo por ter sido apenas uma criança tentando ter uma infância no meio da selva de concreto!

Quando pensava nisso lhe subia algo ruim que eclodia de dentro de sua alma atormentada. Nesses tempos, agia mais violentamente que o normal. Normal? Que significado possui essa palavra no vocabulário de alguém com um drama desses no currículo?

Certo filósofo que vivera na Itália uns quinhentos anos atrás, dizia que um líder deve ser truculento tanto quanto precise, mas que deve fazê-lo com seus inimigos em função dum ‘bem maior’, porem amar a sua terra e sua gente. Pois quem não o fizesse, ganharia o medo e conseqüentemente o ódio dos seus.

Não se sabe se foi o medo, ou o ódio que gerou a rusga e a ‘trairagem*’ no seu bonde, mas alguém ‘deu*’ pra polícia tudo ‘tim-tim-por-tim-tim’ de sua vida. Onde se escondia, com quantas armas estava e o dia que estaria vulnerável.

Foi assim que a ‘casa caiu’* pro Bicho Solto. Sua prisão foi anunciada na TV. O delegado fez questão de chamar a imprensa pra fazer quantas matérias quisesse sobre o fato. O representante do departamento de segurança deu uma declaração que ‘o Rio poderia dormir mais tranqüilo com sua prisão’.

Evanildo nem acreditou quando ganhou esse status de inimigo público número um.
Ficou importante de uma hora pra outra, e agora não era importante só na favela. Pela primeira vez deu um ‘graças a Deus’ quando imaginou que sua mãe morrera antes de vê-lo assim.
Arrependimento? Não... remorso!
Por que foi ‘dar mole’ pra ser pego pela ‘justa’* assim?

Transferido dias depois para um presídio num certo lugar da Zona Oeste, quente demais pra pronunciar em público, começou sua vida, agora sob a tutela do Estado.
Horários pra tudo, liberdade para nada!

Ironicamente, foi lá que conhecera Celinho, agora irmão Marcelo, ex-band que se converteu pra ‘crença’ no xilindró! Compartilhavam a cela (junto de mais uns trinta e cinco caras, claro). Agora Bicho Solto ouvira falar de Deus. E da pior forma possível. Trancafiado e desarmado!

Era tanto Deus aqui, tanto Deus ali que sua mente, já pouco sadia enlouqueceu de vez. Decidira virar crente!
Ganhou uma bíblia enorme, passou a usar roupas temáticas e falar gírias que os crentes usam. Era ‘fogo puro’ pra cá, ‘aleluias’ pra lá, e entre uma gíria gospel e outra sempre rolava um ‘glória a Deus’.

Estranhamente o agora irmão Evanildo, estava mais calmo, mas não menos confuso por dentro. Embora sua intenção fosse das melhores, seu mentor Celinho (ops, irmão Marcelo), não poderia lhe explicar o porquê seu vazio não lhe deixava.

Numa noite sem sono, regada a muito suor do calor de Bangu (Ih, pronunciei...), abriu sua bíblia gigante num texto que dizia mais ou menos assim: ‘Conheça a Verdade, e ela lhe libertará!’
Verdade? Liberdade? Como posso ser livre mesmo dentro dessa masmorra? Como posso ser livre mesmo depois de ser quem fui, ou mesmo quem ainda sou?

O texto bíblico parece lhe confundiu mais que lhe salvou! Horas depois, num sonho, um rapazote meio magricela de barba rala e não mais alto que ele mesmo, lhe apareceu com um sorriso perturbadoramente franco e lhe disse com voz suave e sotaque engraçado:
‘A Verdade não é uma história, mas é uma pessoa. ’
Sonho mais doido! Verdade é uma pessoa? Quem é essa Verdade?
Irmão Marcelo saberia ajudar?

Num estalo digno de qualquer arma automática, Evanildo se atinou que essa pessoa só poderia ser A Pessoa! JESUS! Aprendeu com o tempo de sobra que teve, e por trancos e barrancos que passou na cadeia, que a cura não vem com mais revoltas ou ainda com religiões estigmatizadas, ela vem do cerne de Alguém que é maior do que tudo!

Hoje leva sua vida ansiando por sair e ver a rua de novo, mas sem armas na cintura nem ódio no coração. Sabe muito bem que vai levar muitas surras de tudo e todos, afinal foi só o que plantou na vida, mas agora existe uma força incomensurável que o impele a prosseguir.

Claro que não sabe como a vida o levará, mas ouviu dizer nalgum lugar que ‘com Cristo no barco, tudo vai bem!’

Wendel Bernardes.



* Glossário da Favela Carioca:
Piau – Surra.  ‘Lição’ dada por meio de força a alguém por ser julgado culpado de erro ou crime.
Comédia – Sujeito sem credibilidade, paspalho.
Sujeito homem – Cidadão com respeito e determinada ‘moral’ entre certo grupo
Avião – Office Boy do tráfico.
Fogueteiro – membro da facção que manipula fogos de artifício para sinalizar a invasão dos domínios pela polícia ou por outra facção. Também pode fazer uso dos fogos para sinalizar a chagada de drogas ou pessoas importantes pro tráfico.
Soldado- guerrilheiro da facção.
Frente – Líder de uma determinada fração da facção, ou chefe do poder paralelo. Responsável por liderar tanto a facção, quanto a própria comunidade dominada.
Band – Bandido.
Traíra – traidor da causa.
Bonde – Grupo social.
Comprar na pista – Adquirir produto de furto ou roubo
Deu – Relatar fato a outrem.
A Casa Caiu – Acabar com planos, subjugar.
Justa ou Dona Justa - Polícia

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

João (Sua História e Volta Por Cima)



Acordou cedo e lavou o rosto com água que juntou da chuva de ontem da calha da igreja de crente que desemboca no seu quintal, diga-se de passagem, a única coisa que já ganhou de lá. Deu um salto da cama velha e disse: ‘Deus ajuda a quem cedo madruga!’

Era manhã de sábado e não podia ‘dar mole’ ou a vida lhe cobraria duro depois. Ele sabe bem como é ter ‘fartura’. ‘Fartava’ pão, leite, arroz feijão... E ria com isso como todo bom brazuca!

Tinha que ganhar a vida empurrando seu carrinho pra rodar a cidade em busca de papelão, latinhas de bebida, garrafas pet, fios de cobre, etc. Qualquer coisa que desse uma grana e que fosse refugo. Faz mais de dez anos que vive assim...

Quando empurrou o portão enferrujado que dá acesso ao casebre em que mora, sorriu pra gente bonita e saudável que estava na calçada... Eram os jovens que saíram da vigília de louvores da igreja dos crentes, a mesma da calha do quintal. Tocaram bateria freneticamente a madrugada toda, e é claro que atrapalhou o sono, mas não reclamou nem se aborreceu. Ficou colhendo frases que lhe servissem entre uma cantoria ou outra, entre um aleluia e um amém... Assim passou a noite com os crentes, mesmo não estando lá de corpo presente.

Os jovens da calçada até lhe devolveram o sorriso, mas isso soou mais como um deboche do que uma saudação cordial. Nem deu bola praquilo, o dia tava só começando e muita gente iria ainda caçoar dele, claro que não era exclusividade da moçada gospel.

Enquanto empurrava seu “burro-sem-rabo” (modo como se chama o carrinho puxado por gente aqui no subúrbio do Rio), andava preocupado para não esbarrar nalgum carro na calçada, coisa de carioca que estaciona em qualquer lugar crendo que o mundo nasceu pra ser seu (literalmente).

Lembrou sem querer (ou não) que faz mais de oito anos que vive só. Veio à mente o sorriso lindo da filhinha e de como ele a achava bela, muito parecida com a mãe. Mãe essa que um dia, ainda como sua esposa, cansada da pobreza extrema e de viver de sobras, catou sua filha e foi tentar a vida noutro lugar. Ou noutros braços pra ser mais exato.

Ele não a julga, pelo menos sua filha tem um teto, comida na mesa e não tem um farrapo humano como o pai pra freqüentar as reuniões escolares. Isso também não o aborrece, continua a empurrar a vida catando cada refugo.

Só agora, com as luzes multicoloridas se deu conta que era época de natal. Era tão distraído pra essas coisas que nem o cara de vermelho cantando ho, ho, ho na esquina do comércio lhe fizera cair a ficha. A culpa de ter se apercebido da época, foi mesmo das luzes de natal.
Cintilantes, luminescentes, incessantes.

Percebeu também tardiamente que já era noite. É que o brilho fugaz dos piscadores lhe roubara tempo precioso, mas não faz mal, ganhou alegria de ver belezinhas piscantes a lhe fazer esquecer-se da vida dura, pelo menos, por alguns instantes.

Ao voltar, passou em frente dum centro espiritualista denominado Luz Divina, que mantinha em sua entrada jovem senhora que lhe chamou para dois dedos de prosa e lhe argüiu coisa aqui e ali, enquanto lhe oferecera sopa cheirosa e grossa. Junta da sopa oferecera a jovem senhora também ajuda para redirecioná-lo na vida.

- O senhor faz o quê?
- Cato lixo e revendo o que dá!
- E antes?
- Era porteiro.
- Parou por quê?
- Parei nada... Me pararam. Perdi o emprego e não consegui nova colocação ‘no mercado’ como dizem. Ao dizer isso abriu sorriso simples, mas franco.
Com sorriso similar a jovem senhora lhe perguntou:
- O senhor acredita que existem forças trabalhando em seu favor?
- Perfeitamente... Respondeu ele, acredito que Deus é essa força!
- Pois então passe aqui amanhã, de banho tomado, barba feita e seus documentos em ordem e verei o que posso lhe dar de presente de natal.
Ele ficou curioso. Imaginou na sua ingenuidade que deveria ser presente muito fino já que merecia banho e cara lisa. Mas obedeceu!

- Bom dia, lhe saudou senhor de meia idade com roupas bem passadas e perfume discreto.
- Dia; respondeu!
- Então é o senhor o candidato à vaga de portaria?
- Sou? Respondeu sem jeito.
- Deve ser, é o que diz sua ficha, e com sua experiência, pelo menos por mim, o senhor já está contratado!

Ele nunca acreditara nessas ‘bobiças’ de milagre de natal... Mas seu presente veio mesmo, e sem laçarote vermelho e dourado!

Era dia bonito de sol de verão quando João, quase um sem nome, arrumado com sua nova roupa de porteiro, atravessou a rua para o seu segundo dia de trabalho na portaria do condomínio uns 5Km de sua casa. Ia a pé mesmo, pois estava acostumado a rodar a cidade e andar muito mais.
Só que desta feita João não se sente mais aquele farrapo humano, um sem rosto e sem nome na multidão. Ele caminha feliz e orgulhoso de sua nova condição.

Agora João é gente de novo, se sentiu renovado, revigorado e já sonha em reformar seu cantinho e quem sabe um dia, chamar sua filhinha pra passar um final de semana digno com ele. Seja natal, páscoa, carnaval, festa junina... Dia dos pais!

O que agora faz diferença é que a vida lhe recomeçou com esperança.
Hoje olha em seu espelhinho de hastes laranja e ouve o ressoar da pergunta da jovem senhora:
“O senhor acredita em forças trabalhando a seu favor?”
Que pergunta mais boba, pensou... Acredito e sei que Ele ajuda a quem cedo madruga.
Seu caminho foi redirecionado, e por Quem mais seria, senão por Ele?

Wendel Bernardes.




sábado, 5 de maio de 2012

Recomeçar...



Acordou do nada no meio dum turbilhão. As imagens vinham descoladas, desconexas... Só ‘se ligou’ quando viu crescer em sua direção um coturno tamanho 44, então, tudo apagou de novo.

Havia um bip bem de longe, tentou abrir os olhos, mas a dor era grande, e vinha de quase todo o seu corpo. Procurou então pelos seus outros sentidos já que a visão lhe faltara.
Sentiu cheiro estranho; era álcool? Não... Éter! Só poderia ser um hospital e o bip contínuo, agora com som mais audível, era possivelmente algum equipamento médico.

- Putz, me arrebentaram!
Sentiu uma presença sutil como um rinoceronte chegar arrancando violentamente as bandagens de seu olho esquerdo, que impedia também o direito de se abrir, tão bem fora colocado.

- Tá melhor? Perguntou a técnica de enfermagem.
- Oi?
- Aí, avisa ao doutor que a bela adormecida acordou e voltou dos mortos. Disse isso aos berros enquanto saía pelo corredor.
- Êi, senhora... O quê?... Droga. Mal pôde concluir a frase e fazer suas perguntas. Lá estava ele de novo sozinho na enfermaria.
Sozinho? Como pôde achar isso? A sua esquerda, velhinho com aspecto de defunto fresco, à sua direita, uma menininha loira sentada no canto do leito que disparou:
- Cê tá melhor? Dormiu dois dias desde que chegou, num acordou nem quando limparam o sangue que tava em você...
- Sangue?
- Muito, você deve ter mais do que os outros sabe? Dizem que um ser humano adulto pode ter até cinco litros de fluído sanguíneo no corpo, tu deve ter mais, com certeza...
- Duvido... eu...
- Você num tem ninguém? Ninguém veio te ver, te visitar...
- Eu num lembro...
- De que?
- De nada. m#rd@!!!
- Boca suja, por isso ninguém veio te ver...!
Essa sentença fez com que os dois se calassem, porém, a voz da matusquela reverberava oca em sua cabeça. Ele não conseguia se lembrar de nada!
Não sabia se fora assaltado, espancado em retaliação a alguma besteira que fez, ou simplesmente portou bandeira gay em show punk de skinhead.
Pra ser sincero, não lembrava nem mesmo de quem era!

Horas depois, uma senhora distinta, com tranças nagô nos cabelos crespos e óculos vermelhos entrou na enfermaria portando prancheta e fazendo cara de poucos amigos, com ar blasé.

- Seu nome?
- Não me lembro!
- Amnésia? Quadro comum depois de seu estado... Será reversível? Balbuciou com olhar perdido...
- Então senhor ‘x’, o que houve? Foi atropelado, espancado, ou caiu da ponte?
- Qual ponte?
Ela sorriu ironicamente e disse;
- Brincadeira... o senhor chegou aqui, trazido pelo SAMU, com sinais de espancamento. Ganhou três costelas quebradas, ruptura do nervo ótico do olho esquerdo, dois ossos da mão direita fraturados e suspeita de embriaguês ou coisa assim.
- Mesmo? Meu Deus!
- Vai precisar...
- De quê?
- De que não... de quem...é bom que se apegue a Deus mesmo.
- Por quê?
- Os oficiais da polícia que estão aí fora te aguardando acordar têm umas perguntinhas... Tem alguém pra contatar? Você chegou sem documentos, sem celular ou coisa assim. Como esteve inconsciente não pude ligar pra ninguém. É nessas horas que acho que deveria ter escolhido nutrição no lugar de assistência social como mamãe havia dito!
- Policiais? Calou-se, pois sabia que estava encrencado, só não sabia ainda em que nível.

Entraram lá os tais policiais.
O primeiro; cidadão bonachão, branco, de óculos escuros tortos, obviamente adquiridos no comércio popular informal. Jeans dois números acima de seu manequim, barba por fazer e palito de dentes no canto da boca; que aparentemente estava suja de algo como açúcar ou farelo de biscoitos.
O segundo; sujeito alto, moreno, bem vestido e de olhar altivo.

- Seu nome, chefia? Perguntou o primeiro.
- Não me lembro, respondeu de pronto.
- Tá querendo avacalhar o serviço da ‘puliça’, emendou o gorducho.
- Calma Gonçalo, tudo tem seu tempo, disse o segundo.
- O senhor tem idéia do que lhe aconteceu?
- Não senhor...
- Mas se lembra de portar isso? Balançou saquinho plástico transparente com pó branco dentro, e como estava nas mãos de um policial, aquilo não era açúcar dietético com certeza!
- Nã... não...! Gaguejou, Isso não é meu, não pode ser!
- Ah, como o senhor pode se lembrar que isso não lhe pertence? Perguntou ironicamente o primeiro enquanto segurava o palito de dentes mastigado e babado.
O medo lhe atingiu como uma tempestade de verão, suas mãos gelarem, seus pés tremiam involuntariamente.
Foi quando, como que por milagre, entrou homem de trinta e poucos anos, estatura mediana, semi-sorriso, barba fechada e jaleco branco.
- Senhores, devo lhes pedir por gentileza que aguardem lá fora. Preciso cumprir alguns procederes com meu paciente.

O gordo ajeitou as calças e resmungou algo inaudível enquanto arrastava sua figura para a porta. O outro, levantou uma das sobrancelhas no melhor estilo C.S.I. Miami de ser e enquanto se afastava comentou:
- Isso não terminou, nos veremos em alguns minutos rapaz!


Quando saíram, o cara de jaleco disse:
- Não sei se é verdade sua amnésia parceiro, mas de uma forma ou de outra, te ajudará a recomeçar.
- Recomeçar?
- Quieto, preste atenção, temos pouco tempo. Daqui a cinco minutos o cara alto vai paquerar as enfermeiras e o gordo vai pra cantina cooperar com a sua diabetes. Será sua única chance.
- De que? Fugir?
- Claro, estou aqui arriscando meu pescoço e queimando meu filme contigo.  Dito isso apanhou pacote pardo de tamanho médio e disse:
- Aqui tem alguma grana e documentos ‘novos’ pra você. Ao sair, não dê mole aqui no Rio, fuja pro interior, ou melhor, vá pra outro estado, esqueça minha cara e o que te disse, aliás, esqueça tudo!
Ele estava tão assustado quanto desorientado, mas sabia que esquecer não seria um ponto problemático.

Aproveitou o providencial sono da falastrona mirim e a quase morte do senhorzinho e fugiu!
Seria tudo relativamente fácil se não fosse a dificuldade em andar, a dor nas costelas e a visão turva de um olho e cega do outro.

Chegou à Rodoviária Novo Rio com a ajuda de transeuntes. Diante das placas luminosas, com vários nomes de paragens, escolheu a que lhe soava menos familiar. Comprou seu bilhete e fora aguardar seu ônibus na plataforma.

Lá, senhora com seus cinquenta e poucos anos, com uniforme de equipe de limpeza lhe disse:
- Não lhe conheço, mas algo me diz que sua vida é parecida com uma historia beeeeeem antiga de um jovem.
Pasmo e um tanto curiosos perguntou:
- Qual?
- Certo jovem bem nascido, com pai às portas da morte, se valendo do auxilio da mãe enganou seu pai, roubou seu irmão de algo muitíssimo precioso.
- Ele deve mesmo ser como eu... Acho que fiz muita coisa errada na vida, mas num lembro direito.
- Bem, esse jovem por causa de seus erros, vagou errante e sofrido, fugindo da justiça e do braço de seu irmão e da própria morte certa. Mas...
- Mas o quê?
- Mas ao se arrepender, foi perdoado e teve seu destino mudado, sua vida salva e sua reputação trocada.
- Por quem?
- Por Deus!
- “Deus”... Disse isso e ficou com olhar longínquo, perdido. Em sua mente fez a imagem de homem caquético, barba enorme que lhe tocava o peito, sentado com roupas brancas num trono digno das histórias médias.
- Sabe detalhes da vida do cara depois de seu arrependimento?
-Ah, ele foi moldado em seu caráter por algum tempo...
- E depois?
- Tudo ficou bem após aprender algumas lições. Seu nome era Jacó, mas como te disse, Deus lhe presenteou com um novo nome e uma nova oportunidade de vida. Disse isso enquanto sorrindo, pegou seus utensílios de trabalho e se afastou.

Sentado, o jovem sem nome e sem lembrança sabia que deveria ter um novo destino. Apenas naquele momento atinou de olhar os documentos ‘novos’ que o ‘médico’, ou sei lá quem, lhe dera no hospital.
Ao fitar seu RG, leu nome diferente, que não parecia conhecer...
- “Israel”... Até que soa bem!

Wendel Bernardes.