segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Eles Estão Entre Nós – Terror na Noite.


Passava da meia noite e a lua reinava soberana no inverno rigoroso do Sul.
A floresta densa e soturna mantinha um silêncio que angustiava qualquer espectador. Os sons, foram suprimidos pelo medo dando lugar a luz prateada e singela da dama da noite.

Ela está só. Na verdade está como sempre esteve, e isso nunca lhe fora um dilema. Aprendera a ser só e não necessariamente estar só. Mas essa noite estranha em particular lhe roubara o sono. Isso sim é algo incomum, a insônia nunca lhe fora companheira. Costumava dizer que dormia o pesado sono dos justos. Daí surgiu sua preocupação; não poderia dissociar a falta de sono a algo ruim.

Decidiu travar verdadeira guerra contra o incômodo e para tal, usou cada arma ao seu dispor. Leite morno, cobertor quente, velas aromáticas... Não usaria calmante senão algo natural, mas os maracujás estão ainda no pé, verdolengos, como se diz no interior. Cada atitude lhe afastava mais do sono, até mesmo a entediante programação noturna da TV.
Decidiu então desligar tudo e aguardar, afinal não tinha obrigação alguma pra manhã seguinte, afinal quem tem compromissos urgentes numa manhã de sábado no interior?
Tomou um livro e iniciou boa viagem até que começou a ouvir ruídos cada vez mais presentes e cíclicos. Tudo isso, misturado à insônia faria qualquer um simplesmente pirar!
Era uma casa muito perto da mata, herança de seu avô camponês e ruídos não eram assim tão incomuns, mas sim nessa noite, sim nesse silêncio ensurdecedor!

Trancafiada por conta do frio, ela tanta usar fendas na janela para olhar a noite. Fascinante e assustadora noite fria! Sorri quando se pega pensando nos ‘causos’ de terror contados à beira da fogueira comendo pinhão no quintal.  ‘Tudo coisa de criança’ – pensa.

Porém sombra sinistra, com estranho formato lhe chama a atenção. Pouco está oculto essa noite, que sombra seria essa insistente em agourar essa madrugada ‘perfeita’?
Os ruídos agora mais audíveis, como que mais presentes inundam a sala. Parece ruído no assoalho velho de madeira. Ratos? Quem sabe?
Os barulhos roubaram sua atenção e quando se vira em busca da sombra furtiva, se espanta quando nota que ela não está mais lá.
Coisas da mente, certamente.
Só que agora nota uivos... Tenebrosos, sinistros e macabros, lhe conseguiram assustar mais. Ela não tem cão, por ali não há lobos, ou animais similares...
A paz que ainda lhe restava, fruto de sua leitura, lhe abandonara de vez e no lugar nasce medo que lhe preenche a alma!
‘Calma’ – ela diz a si mesma. Mas calma por quê? Não há motivos pra se manter tranqüila quando percebe o que está acontecendo.

‘Isso só pode ser fruto de uma crise de pânico’ - pensa. Algo fomentado pela insônia, ambiente estranho, nada demais... Essas coisas não existem!
Ela se analisa e percebe que não apresenta os sintomas clássicos de ataque de pânico, além do coração que já está acelerando. Ela imagina que sua psiquê está lhe pregando uma peça. Embora muito racional, percebe o medo lhe possuir cada vez mais, as sombras lhe dão pavor e tudo ao redor vira seu inimigo.

Petrificada entre sua cama e a janela, não consegue nem ir até o interruptor. Nesse momento, possui  mais medo do que a luz lhe possa revelar do que a sombra lhe pode esconder.
O uivo está mais perto, mais alto. Não seria mais aterrador do que senti-lo assim tão junto.
Na cabeceira da cama antiga, onde descansa seu livro, toma velho crucifixo, presente de seu avô de formação protestante anglicana.
Não faz prece, não consegue elaborar qualquer sentença. A mente lhe desaba como avalanche, nada poderia se mais desesperador! Nada?
Certamente sua opinião muda quando ouve o som amedrontador de alguma vidraça quebrando. Ela nem sabe por que ainda não desmaiou de puro terror. Ela crê que seu corpo luta contra si mesma, pois a adrenalina que ele gera a faz estar ainda mais alerta no lugar de simplesmente apagar!

Nota tardiamente suas pernas rígidas e nada tem a ver com o frio de julho. É o terror puro. Agora ouve o som de passos pesados e neles o ruído de garras arranhando ainda mais o velho e surrado assoalho de madeira de lei. São apenas instantes. Pouquíssimos segundos a separam certamente da visão mais aterradora de sua vida. Essa cena macabra parece ser saboreada segundo a segundo, pois o tempo dalgo aparecer diante dela já se fez, e até agora nada.
A curiosidade lhe dá estranhas forças agora ainda mais fortes que o medo que a paralisa. Quando resolve deslocar-se, ele surge...

Envolto em uma sombra singular e densa, essa figura monstruosa se mostra como que orgulhoso do mal que representa.
Olhos ferozes iluminados como fogo, hálito úmido, dentes pontiagudos. Imagem de fera, postura de homem. Se ela pudesse gritar o faria, e tenha certeza que seria o mais alto e gutural urro que alguém jamais ousou expelir.
Ele se aproxima, e é nesse instante que nota as garras como largos espinhos apontados pro seu corpo. Ela está agora absolutamente dividida. Sua razão lhe diz: ‘fuja!’ Seu coração pede pra que o monstro seja rápido.

É nesse momento que nota que sua mente volta a elaborar sentenças. Então, como atitude única e desesperada, pressionando o crucifixo de seu avô a ponto de perfurar a própria pele, apenas diz em prece: ‘Salve-me!!!’ Fecha os olhos como que entregando seu espírito, sentindo o hálito da fera mais forte a cada segundo. Fétido, quente, anunciador da certeira dor que sentirá. Aperta ainda mais os olhos pra não contemplar a própria morte até que é atingida por uma onda sonora curiosa e insuportável.

O demônio grita! Na verdade solta um urro tão aterrador quanto sua própria presença. Ela sente suas patas ladearem seus ombros amedrontados, pois ele toca a parede atrás dela para se sustentar. Contrariando cada expectativa o monstro simplesmente cai. Na ação, ele ainda resvala seu corpo peludo com olor pútrido em sua tremulante figura; só aí ela consegue gritar!
Seu grito mais está para nojo e alívio porém o espanto que lhe assola quando abre os olhos é maior do que a figura demoníaca vencida sujando seu chão.

Enorme, negro, inacreditável, inexplicável! A imagem certamente teria lugar no imaginário popular quando se fala em lobisomens. Porém o que mais surpreende nessa questão toda é que esse ser infernal cruzou toda uma mata, gastou seu tempo assustando-a, invadiu sua casa para simplesmente morrer aqui aos seus pés? É quando nota estranha gosma alaranjada, emanando do corpo sem vida. Ele foi ferido e morto. Por quem???

Obviamente ainda assustada, percorre a casa antiga na esperança de encontrar seu salvador, mas apenas acha o vazio dos cômodos, os restos da vidraça quebrada e uma inexplicável paz! O alívio que sente só pode ser entendido, se levada em conta a fé que agora abunda seu coração.
Quando volta ao quarto, ainda vê a criatura se desfazer em cinzas, como se resvalada por místico toque flamejante, mas nada consegue enxergar senão o descrito. ‘E pra que?’ - pensa ela. O que importa agora é a salvação que experimentou. Olha pra seu velho crucifixo e tem ainda mais forte a certeza que embora viva só, nunca realmente esteve sozinha!

Não tão distante dali, um ser gentil lhe observa em paz, abrindo suas asas, embainhando sua espada e voltando para seu destino, certo que a batalha está longe de ter um fim.

Wendel Bernardes.

sábado, 16 de novembro de 2013

Eles Estão Entre Nós – O Poderoso Kenoah (2).





Algo entre o uivo e o lamento é ouvido na madrugada escura e fria. Até a Lua decidiu esconder-se talvez pelo medo, ou ainda quem sabe apenas para não testemunhar as loucuras atrozes que se farão na noite de hoje.
O som amedrontador e contínuo, além de fazer a alma gelar ecoa como um chamado, ou alerta.
As poucas luzes teimosas escondem-se atrás das cortinas. Cada um agradece segundo sua fé por estar em casa e de certa forma, pede alívio ou morte rápida para as pobres vidas que ainda perambulam desavisadas nessa cidade esquecida por todos.

Uma sombra densa e palpável segue demoníaca figura que com olhos arregalados e faro preciso buscando por vítimas das garras e dentes sedentos de sangue. Pouco depois de alguns instantes de busca, silencia seu chamado agourento. O faro acha algo; uma vítima em potencial de seu macabro propósito.

O jovem simples caminha pesadamente pelos becos escuros da cidade enquanto pede – quase em prece – que alguma condução que o leve para a segurança de seu lar, apareça como que um milagre e o salve de seu cansaço das mais de 13hs fora de casa.
Ainda se pergunta se conseguirá agüentar esse ritmo frenético e louco. Precisa de cada centavo do salário prometido pelo rico empregador, mas sabe que nunca realizará seus sonhos futuros de formar-se em medicina se essa carga horária não relaxar.

Um ronco de motor interrompe suas elucubrações... um coletivo!!
Ele reúne suas últimas forças, ignorando a dor presente o dia inteiro em seus pés e decide correr para não perder, quem sabe, a última chance de chegar em casa ainda escuro.
Infelizmente suas forças e gritos são insuficientes para chegar, ou mesmo sensibilizar o conduto do ônibus que abandona Rubem sozinho à própria sorte.
Ele mal sabe que o risco que corre é ainda maior do que simplesmente passar a noite na rua ao relento e no frio de julho.

Numa esquina, coisa de um tiro de pedra dali, seu algoz lhe sorri envolto em sombras toscas e profundas, certamente não geradas apenas pela noite. Ele se delicia com o momento e perde instantes preciosos arrazoando sobre a forma furtiva que levaria seu ataque. Não é apenas a sede de sangue que move tal criatura, mas a vaidade do crime perfeito, desde a forma mais exata de fulminar sua vítima, passando por uma perfeita entrada triunfal, teatralizando a triste cena até dar cabo da pobre e desavisada vida.

Longe dali, uma mãe preocupada, porém possuidora de uma fé madura olha no relógio e decide, ao invés de usar seu telefone, dobrar seus joelhos no que julga ser a mais correta forma de zelar pelo seu filho. Em prece breve, mas sincera, pede ao seu Deus proteção para o ‘menino’ que ainda se mantém a essa hora na rua. Naquele exato instante algo acontece no mundo sobrenatural quando forças lendárias são movidas a agir com furor obedecendo à prece sincera e focada da caminhante.
Ele se ergue, cinge seu corpanzil de seu aço milenar e num olhar perscrutador salta desde o infinito abrindo suas morenas asas para mais uma missão mortal. Um justificado não pode aguardar sequer um segundo. O tempo é crucial.

O jovem, absorto pela sua frustração é vencido pelo sono e cansaço e ali mesmo, agachado na rua adormece profundamente enquanto por detrás, algo incomensurável cresce e prepara-se para tragá-lo.
Valendo-se da velocidade da queda vertiginosa, Kenoah usa suas asas cor de âmbar num desenho aerodinâmico perfeito e as abre enquanto gira no ar visando cair exatamente em cima da sombra infernal.
Apenas olhos dum guerreiro místico poderia mesmo saber, dentre tamanha e profunda treva, onde cravar sua espada, agora flamejante de fogo espiritual. Usando de força, precisão e destreza, ele finca seu aço no demônio por cima, ainda em queda, terminando a possibilidade do mal, ele atravessa o algoz negro em questão de milissegundos. Nem urro, nem blasfêmia podem ser proferidos simplesmente por não haver tempo para tal.
As sombras obliterantes somem instantaneamente enquanto o corpo podre de Hugart apenas vira pó.

Kenoah vitorioso mais uma vez, ainda contempla Rubem dormindo, absorvido pelo cansaço na calçada. Os primeiros raios de sol surgem no horizonte e ele, por cima dos ombros percebe a aproximação de novo coletivo na direção de ambos. Antes de sumir, ele toca seu protegido da vez, despertando-lhe a tempo de ainda voltar pra casa.

O jovem sente o toque, se vira e embora não se sinta só, nada consegue ver. Pega sua mochila, limpa desorganizadamente seu rosto, levanta-se e faz sinal para o coletivo. Kenoah ainda o observa, como que querendo garantir seu trabalho até o fim. Abre semi-sorriso que denota um serviço extremante bem feito, e ainda se dá o direito de possuir além do sentimento de dever cumprido, alegria de saber que o futuro de Rubem, será ainda maior que ele aguarda. Certamente os planos dos céus não poderiam se frustrar hoje... Não se dependessem dele.

Abre mais uma vez as asas incomuns, e alça vôo para o desconhecido.
Sua nova missão ele simplesmente desconhece, mas certamente estará preparado para agir, seja ela qual for.    

Wendel Bernardes.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Eles Estão Entre Nós – Oliel, o Arauto (O Anjo e o Teólogo).





Ele vira noites em claro sobre livros e mais livros. A sua incansável busca data de muito tempo, desde sua tenra idade.
John, filho de um casal curioso, parece querer elucidar as dúvidas que pairam nos corações dos fiéis ao longo dos séculos. Aparentemente tenta provar a existência do invisível, comprovar a veracidade do improvável. As horas voam e ele permanece.

Seu pai foi pastor protestante. Homem zeloso pela religião e seu cumprimento. Um dia apaixonou-se por bela moça simples, inteligente, recatada.... católica.
As barreiras quem sabe impostas pelas certezas filosóficas foram quebradas pelo amor.
John é fruto desse amor, dessa união.
Sua infância foi uma mistura de catecismo e escola dominical. De missa e culto. De crisma e Graça.
Onde muitos veriam uma guerra de opiniões, seus pais viam a harmonia de idéias. Pois nada poderia ser mais complicado pra ele do que conviver com essa duplicidade de filosofias, esse paradoxo de realidades.

Cresceu sendo regado por águas que, por mais fluidas que fossem, não lhe matavam a sede, nem lhe levavam embora suas dúvidas pelo ralo. Decidiu que, como cavaleiro errante, viveria sua cruzada pessoal, buscando a verdade por trás de cada doutrina, a essência escondida em cada possibilidade.
Fez teologia, filosofia.... Buscou na amplitude de pensamento e na diversidade de verdades sua base pra descobrir quem está certo. Qual deus poderia salvar, qual doutrina deveria seguir. Por conta disso gastou cada instante importante da própria vida

Até que certo dia, quem sabe minado de forças ou abalado na busca, quis deixar de lado sua procura por acreditar simplesmente que não havia resposta para suas perguntas. As revelações estavam cada vez mais distantes e ele, cada vez mais fraco, era tarde demais. Seu pobre corpo abalado pela busca espiritual, não agüentou o tempo de estudo. Fora internado, sem lá grandes chances de sobrevivência num renomado hospital de sua cidade.
Ali, certo de que Deus lhe abandonara, usava seus últimos instantes de consciência (ou de vida) para absolutamente nada. Não cria em preces. Não queria perder seu tempo em orações ou rezas, afinal, para qual deus iria encomendar sua alma imortal?
Adormece com essa dúvida em seu coração.

-Como está você?
-Ah... me desculpe doutor, acho que dormi.
-Não tem problema; como você está?
-Não sei se tenho resposta pra sua pergunta, doutor. Nem as minhas mesmo consegui responder...
-Desculpe, mas do que estamos falando mesmo?
-De nada doutor, são apenas elucubrações de um moribundo.
-Que falam de...
-Ah, você não irá querer saber de fato.
-Você não tem nada a perder, e eu, sou todo ouvidos.

Ele se ajeitou em seu leito enquanto fita aquele cidadão desconhecido com rosto pleno e curioso. Não sabe se deveria portar-se como pregador de vasto sermão, ou se age como professor tentando defender sua tese filosófica. Decide então ser ele mesmo, e discorre ao desconhecido suas dúvidas... todas as incertezas de uma vida.

-É simples, passei a vida inteira tentando entender Deus segundo as duas maiores religiões cristãs do planeta, hoje estou mais próximo de crer, que na verdade, esse Ser simplesmente não existe.
O desconhecido usando jeans claro e surrado, camisa clara, tênis meio sujos e sobretudo branco, ajeita seus curtos cabelos grisalhos de um modo jovial, senta-se à beira do leito como que querendo lhe entender melhor e apenas diz:
-Prossiga...
-Bom, você é um homem da ciência e como tal, provavelmente buscou a melhor informação visando atender mais pormenorizadamente seus pacientes, não é mesmo? O estranho apenas lhe fita sem dar sequer resposta enquanto meio desconsertado prossegue.
-Bem... eu fiz exatamente o mesmo, só que busquei na religião essa resposta queria mostrar a todos onde está a verdade.
-‘A verdade’?
-Sim, exatamente...
-Primeiramente acho que você deveria cair em si...
-Como assim...?
-Sua busca nunca foi por conta da humanidade, nunca visou trazer respostas senão pras perguntas que você mesmo tinha.
-De certa forma...
-Seus pais eram gente de fé, de convicções. Não estou lhe dizendo que eram certos ou errados, apenas que seguiam o caminho que acreditavam... Alias, que tiveram a coragem de acreditar!
Ele emudeceu e sentiu certo calafrio – como ele poderia saber de seus pais?
-Você estava exatamente do outro lado dessas convicções. Não... você não tinha dúvidas, que são até sadias...você simplesmente se negava a possuir fé!
-Fé?
-Sim! Você dizia buscar um Ser imortal que segundo relatos criou todas as coisas. Um Ser que morreu para trazer vida a muitos. Apenas para que outros pudessem ser plenos não é isso?
-Acho que sim...
-Pois então, você buscou de forma errada.
Ele afundou-se em meio aos travesseiros com a sentença do ‘doutor’.
-Ora meu caro, não me venha com bobagens. Sou formado em teologia em duas vertentes, também filósofo e mestre em história. Tenho inúmeros ensaios escritos e vários originais de livros em escritoras apenas aguardando a minha palavra para suas publicações.
-Um ‘sim’ que nunca virá!
-Então você veio me dizer que estou mesmo morrendo?
-Quero dizer que você jamais permitiria a publicações de sequer uma obra sem ter certeza das ‘verdades’ que você escreveu, simplesmente porque lhe falta fé!
-Minha teologia confirma meus pontos de vista, meu caro...
-Preste atenção, amigo...
Ele se levanta, ajeita sua roupa e num tom sério, porem suave prossegue.
-A teologia é uma ciência humana, e como tal tenta de um modo 100% humano elucidar em Ser 100% espiritual. Tudo que vocês têm são relatos, estudos, anotações...
-Todos comprovados...
-Por quem?
-...
-Suas filosofias teológicas são colchas de retalhos, na maioria das vezes muito mal costuradas.
-Como assim?
-Vocês possuem cacos de relatos de gente que ao longo da vida passou por algumas experiências com Deus. Só que vocês levam essa experiência como um fim, mas na verdade elas são apenas um meio!
-Como um caminho?
-Sim, exatamente... uma direção, como placas ao longo de uma rodovia. Cada relato baseado no que viveu cada homem ou mulher é pregado como se fosse o final, mas é apenas o início. Você nunca poderia entender isso, pois lhe faltou fé. A fé que sobrava em seus pais...
Você nunca teve suas próprias experiências, nunca teve sequer uma conclusão que fosse realmente sua.

Ele se cala. Talvez nunca ouvisse tamanha verdade. Em apenas alguns instantes de conversa, ele viu o mundo passar diante de si. Décadas de pesquisas em confronto com minutos de bate papo.
Nesse exato instante, as escamas caem de seus olhos enquanto pergunta:
-Quem é você? Não é médico aqui de verdade, é?
-Não sou medico!
-O que faz aqui?
-Não lhe está claro?
Nesse instante o homem aparentando no máximo uns quarenta anos, se afasta do seu parceiro de conversa, deixando-o lhe ver como realmente é. O espanto toma conta desse teólogo até então sem fé...
-Um... anjo?
-Me chamo Oliel, sou um arauto. Vivo entre os homens e às vezes lhes ajudo a enxergar o óbvio. Mas em breve você esquecerá essa informação.
-Não, por favor... Essa visão apenas fomentará minha fé em Deus...
-Você está errado meu amigo. Isso apenas lhe fará buscar mais respostas vãs. A fé que brota agora de seu interior já lhe foi mostrada. O arauto lhe toca com a mão espalmada no peito e lhe diz:
-Você se levantará em breve para caminhar mais, viverá de sua fé e não de uma filosofia ou religião. Busque a Deus, e não o que os homens dizem Dele.

Ele sente o sono chegando, mas ainda consegue vê-lo sair de seu quarto de hotel pela janela.
Adormece sem saber o que virá, mas desta vez sabe no que crer, pois a fé veio pelo que viu e ouviu. Aquilo foi apenas seu e de mais ninguém.

As batalhas desses seres são cada vez mais intensas, mas nem sempre a espada mística se faz necessária. Oliel sabe muito bem disso. Onde a batalha se dará na próxima vez?

Wendel Bernardes

domingo, 10 de novembro de 2013

Eles Estão Entre Nós – Hylel, o Astuto.






Ele dobrou a esquina tranqüilo sem mesmo olhar pra frente, já que conhecia o caminho como a palma da mão. Estava um pouco mais pesado hoje. As frustrações da vida lhe pressionavam tanto que vez ou outra imaginava que seria um personagem criado por Homero, não... por Dante
Mecanicamente entra em seu prédio certamente pedindo que quaisquer dores fiquem no saguão, no elevador, no corredor, na porta... Qualquer lugar é melhor que sentada no seu sofá, justamente ao seu lado.

Antes de dormir, uma cena curiosa lhe invade a mente. Estava pelo menos quartenta anos mais jovem e, ajoelhado tendo ao seu lado sua irmã que reza o Pai Nosso (que é a única prece que de cor conhecia) e ao final, beijavam-se na bochecha ou testa, e cada um dirigia-se pras suas camas.
Certamente não era saudade da irmã, que vê diariamente na empresa familiar que tocam como podem, então o que seria? Saudades de rezar?
Ele sorri de si mesmo e se vira pra dormir, sem esquecer-se de seus dois comprimidos habituais sem os quais a noite seria uma tortura.

Alguém lhe observa atento, com curiosidade e alguma dúvida. A pequena fenda na janela do sétimo andar é como tela para olhos tão treinados e perspicazes. As informações sobre seu novo ‘protegido’ são muito importantes.

Cabelos curtos, roupas simples, casuais, expressão de homem comum... Seu nome é Hylel e não se engane, esse guerreiro de asas claras embora exale paz e sossego é um inimigo feroz quando instigado.

Hylel enxerga mesmo muito bem, apenas não consegue vislumbrar onde sua missão se encaixa na vida desse mortal desleixado de meia idade, porém a vastíssima experiência lhe faz acreditar que aguardar e confiar é a melhor coisa a fazer.
Embora acostumado às campanas, seria praticamente surpreendido se não fossem seus dons apurados.
Ele sente algo surgir bem próximo, no teto do prédio ao lado do que usa de base e está claro que vem em sua direção.

-Hylel, meu caro... quanto tempo?! A última vez foi onde mesmo? Veneza, Londres? Como foi que nos trouxeram do Velho Mundo e nos jogaram nesse lixo de trópicos, hein amigo? Devemos ter feito algo de errado, ter incomodado alguém...
O sarcástico ser que se aproxima lentamente ajeitando par de luvas e cartola é Asdaad, velho conhecido de Hylel, mas nunca foi exatamente seu...
-Amigo??? Se eu fosse você, demônio, tomaria mais cuidado com suas palavras!
-Ora meu caro, ao longo dos séculos, estarmos vivos depois das Cruzadas, Guerras Mundiais e da Reforma é mesmo algo incomum, não?
-Sempre estivemos de lados opostos, cão!
-Ah, vocês e esse linguajar belicoso. Demônio, cão, blá, blá, blá... Não se cansam de empunhar espada protegendo mortais caminhantes?
Vocês são tão certinhos, sempre com suas ordens e suas obrigações... tedioso!
Vamos, anjo da guarda, relaxe um pouco e lembre-se que nem sempre fomos inimigos!
-Primeiramente nunca mais me chame assim...
-De anjo da guarda?
Hylel ameaça sacar da espada que agora deixa à mostra.
-Sim sim, entendi... Prometo nunca mais...
-Vocês são mentirosos, como não poderiam desmentir nossa existência nos estigmatizaram nessas figuras constrangedoras de ‘anjinhos particulares’...
Gordinhos, nus e como figuras infantis. Sabem muito bem o que somos!
-Ei, acalme-se, já não está mais aqui quem falou. Vai querer me catequizar agora? Faça-me um favor, padreco... Ele solta uma longa e debochada gargalhada.
-Se não for direto ao assunto esqueço que já servimos lado a lado e lhe parto em dois, verme!
-Calma Hylel... Eu vou ser mais prático, eu juro.
O ser infernal caminha até a laje em que Hylel se encontra e diz:
-Quero saber seus planos aqui...
Agora é Hylel quem ri...
Não ofenda minha inteligência, criatura.
-Estou querendo saber, pois notei sua campana nessa laje pequena defronte desse prédio e até onde eu sei os caminhantes estão nos andares inferiores e seus olhos estão entre o sétimo e o oitavo, não? Algum assunto pessoal? Sim, pois isso não seria exatamente uma novidade entre vocês, lembra-se do caso de...
-Já lhe exigi respeito, Asdaad!
-Hummmmm... quando você diz meu nome assim até acredito que irá descumprir suas ordens e ferir um principado como eu... Não se esqueça da hierarquia, hein?
-Ninguém sentiria sua falta, cão! Suma daqui e não me tente!
-Não antes de ter minha resposta...
-E entregar o ouro ao bandido?
-Ora, ora... usando ditados humanos? Você sempre gostou dessas criaturinhas não é, anjo? Posso ao menos chamá-lo de anjo, não? Pois sim...
Curioso notar a influência nítida deles em seu modo de ser. Escute... Vamos acabar logo com isso. Você me conta e minha curiosidade se vai... Simples assim.

Cansado do teatro cômico e irônico de Asdaad, Hylel usa uma arma tão poderosa quanto sua espada... A sua astúcia!
-Muito bem, se você acertar quem é meu protegido eu lhe conto minhas ordens...
-Hummmm adorei.... Mas e se eu errar?
-Seja criativo, demônio.
-Ah sim, melhor nem perguntar... Deixe-me ver... Deve ser um caminhante frustrado, acertei?
-Não!
-Então, um filho de caminhante, certo? Desses que os pais vivem orando a vida inteira...
-Não!
-Ora... Ou você está usando a saborosa mentira ou seu Mestre está ampliando a cobertura do plano empresarial – gargalha mais uma vez...
O guerreiro pleno de si, apenas diz:
-Nem um, nem outro...
-Me diga, anjo. Pare com seus joguinhos tolos!
-Muito bem, você quem pediu: vigio o sexto andar e ele é um ateu depressivo que um dia será um grande caminhante... devo lhe ajudar em seu caminho em busca da Luz.
Ao terminar a frase Hylel se aproxima de seu curioso adversário e diz:
-Satisfeito?
-Na verdade estou desapontad....
Um urro nasce mo lugar do final da frase de Asdaad. Sem crer, ele se vê agora atravessado por lâmina dourada de não mais de vinte centímetros. Trata-se de uma adaga angelical, a arma mais furtiva usada pelos guerreiros místicos.
A energia de um pequeno sol percorre o corpo magro do principado demoníaco, fazendo-lhe contorcer-se e simplesmente queimar até a morte.
Hylel limpa sua arma e diz:
-Não possuía mesmo ordens para matá-lo, mas agora que descobriu meus planos, tudo muda de figura. Não poderia deixá-lo viver.
E ainda ganhei mais um prêmio, odiaria ver a sua cara esnobe na minha frente. Estou livre de você, sujo!

Ele dá as costas às cinzas de Asdaad e volta mais uma vez sua atenção à sua missão.
Esse é Hylel. Já deu pra notar que ele leva suas missões a serio, não?

Wendel Bernardes.




Ocorreu um erro neste gadget