sábado, 5 de maio de 2012

Recomeçar...



Acordou do nada no meio dum turbilhão. As imagens vinham descoladas, desconexas... Só ‘se ligou’ quando viu crescer em sua direção um coturno tamanho 44, então, tudo apagou de novo.

Havia um bip bem de longe, tentou abrir os olhos, mas a dor era grande, e vinha de quase todo o seu corpo. Procurou então pelos seus outros sentidos já que a visão lhe faltara.
Sentiu cheiro estranho; era álcool? Não... Éter! Só poderia ser um hospital e o bip contínuo, agora com som mais audível, era possivelmente algum equipamento médico.

- Putz, me arrebentaram!
Sentiu uma presença sutil como um rinoceronte chegar arrancando violentamente as bandagens de seu olho esquerdo, que impedia também o direito de se abrir, tão bem fora colocado.

- Tá melhor? Perguntou a técnica de enfermagem.
- Oi?
- Aí, avisa ao doutor que a bela adormecida acordou e voltou dos mortos. Disse isso aos berros enquanto saía pelo corredor.
- Êi, senhora... O quê?... Droga. Mal pôde concluir a frase e fazer suas perguntas. Lá estava ele de novo sozinho na enfermaria.
Sozinho? Como pôde achar isso? A sua esquerda, velhinho com aspecto de defunto fresco, à sua direita, uma menininha loira sentada no canto do leito que disparou:
- Cê tá melhor? Dormiu dois dias desde que chegou, num acordou nem quando limparam o sangue que tava em você...
- Sangue?
- Muito, você deve ter mais do que os outros sabe? Dizem que um ser humano adulto pode ter até cinco litros de fluído sanguíneo no corpo, tu deve ter mais, com certeza...
- Duvido... eu...
- Você num tem ninguém? Ninguém veio te ver, te visitar...
- Eu num lembro...
- De que?
- De nada. m#rd@!!!
- Boca suja, por isso ninguém veio te ver...!
Essa sentença fez com que os dois se calassem, porém, a voz da matusquela reverberava oca em sua cabeça. Ele não conseguia se lembrar de nada!
Não sabia se fora assaltado, espancado em retaliação a alguma besteira que fez, ou simplesmente portou bandeira gay em show punk de skinhead.
Pra ser sincero, não lembrava nem mesmo de quem era!

Horas depois, uma senhora distinta, com tranças nagô nos cabelos crespos e óculos vermelhos entrou na enfermaria portando prancheta e fazendo cara de poucos amigos, com ar blasé.

- Seu nome?
- Não me lembro!
- Amnésia? Quadro comum depois de seu estado... Será reversível? Balbuciou com olhar perdido...
- Então senhor ‘x’, o que houve? Foi atropelado, espancado, ou caiu da ponte?
- Qual ponte?
Ela sorriu ironicamente e disse;
- Brincadeira... o senhor chegou aqui, trazido pelo SAMU, com sinais de espancamento. Ganhou três costelas quebradas, ruptura do nervo ótico do olho esquerdo, dois ossos da mão direita fraturados e suspeita de embriaguês ou coisa assim.
- Mesmo? Meu Deus!
- Vai precisar...
- De quê?
- De que não... de quem...é bom que se apegue a Deus mesmo.
- Por quê?
- Os oficiais da polícia que estão aí fora te aguardando acordar têm umas perguntinhas... Tem alguém pra contatar? Você chegou sem documentos, sem celular ou coisa assim. Como esteve inconsciente não pude ligar pra ninguém. É nessas horas que acho que deveria ter escolhido nutrição no lugar de assistência social como mamãe havia dito!
- Policiais? Calou-se, pois sabia que estava encrencado, só não sabia ainda em que nível.

Entraram lá os tais policiais.
O primeiro; cidadão bonachão, branco, de óculos escuros tortos, obviamente adquiridos no comércio popular informal. Jeans dois números acima de seu manequim, barba por fazer e palito de dentes no canto da boca; que aparentemente estava suja de algo como açúcar ou farelo de biscoitos.
O segundo; sujeito alto, moreno, bem vestido e de olhar altivo.

- Seu nome, chefia? Perguntou o primeiro.
- Não me lembro, respondeu de pronto.
- Tá querendo avacalhar o serviço da ‘puliça’, emendou o gorducho.
- Calma Gonçalo, tudo tem seu tempo, disse o segundo.
- O senhor tem idéia do que lhe aconteceu?
- Não senhor...
- Mas se lembra de portar isso? Balançou saquinho plástico transparente com pó branco dentro, e como estava nas mãos de um policial, aquilo não era açúcar dietético com certeza!
- Nã... não...! Gaguejou, Isso não é meu, não pode ser!
- Ah, como o senhor pode se lembrar que isso não lhe pertence? Perguntou ironicamente o primeiro enquanto segurava o palito de dentes mastigado e babado.
O medo lhe atingiu como uma tempestade de verão, suas mãos gelarem, seus pés tremiam involuntariamente.
Foi quando, como que por milagre, entrou homem de trinta e poucos anos, estatura mediana, semi-sorriso, barba fechada e jaleco branco.
- Senhores, devo lhes pedir por gentileza que aguardem lá fora. Preciso cumprir alguns procederes com meu paciente.

O gordo ajeitou as calças e resmungou algo inaudível enquanto arrastava sua figura para a porta. O outro, levantou uma das sobrancelhas no melhor estilo C.S.I. Miami de ser e enquanto se afastava comentou:
- Isso não terminou, nos veremos em alguns minutos rapaz!


Quando saíram, o cara de jaleco disse:
- Não sei se é verdade sua amnésia parceiro, mas de uma forma ou de outra, te ajudará a recomeçar.
- Recomeçar?
- Quieto, preste atenção, temos pouco tempo. Daqui a cinco minutos o cara alto vai paquerar as enfermeiras e o gordo vai pra cantina cooperar com a sua diabetes. Será sua única chance.
- De que? Fugir?
- Claro, estou aqui arriscando meu pescoço e queimando meu filme contigo.  Dito isso apanhou pacote pardo de tamanho médio e disse:
- Aqui tem alguma grana e documentos ‘novos’ pra você. Ao sair, não dê mole aqui no Rio, fuja pro interior, ou melhor, vá pra outro estado, esqueça minha cara e o que te disse, aliás, esqueça tudo!
Ele estava tão assustado quanto desorientado, mas sabia que esquecer não seria um ponto problemático.

Aproveitou o providencial sono da falastrona mirim e a quase morte do senhorzinho e fugiu!
Seria tudo relativamente fácil se não fosse a dificuldade em andar, a dor nas costelas e a visão turva de um olho e cega do outro.

Chegou à Rodoviária Novo Rio com a ajuda de transeuntes. Diante das placas luminosas, com vários nomes de paragens, escolheu a que lhe soava menos familiar. Comprou seu bilhete e fora aguardar seu ônibus na plataforma.

Lá, senhora com seus cinquenta e poucos anos, com uniforme de equipe de limpeza lhe disse:
- Não lhe conheço, mas algo me diz que sua vida é parecida com uma historia beeeeeem antiga de um jovem.
Pasmo e um tanto curiosos perguntou:
- Qual?
- Certo jovem bem nascido, com pai às portas da morte, se valendo do auxilio da mãe enganou seu pai, roubou seu irmão de algo muitíssimo precioso.
- Ele deve mesmo ser como eu... Acho que fiz muita coisa errada na vida, mas num lembro direito.
- Bem, esse jovem por causa de seus erros, vagou errante e sofrido, fugindo da justiça e do braço de seu irmão e da própria morte certa. Mas...
- Mas o quê?
- Mas ao se arrepender, foi perdoado e teve seu destino mudado, sua vida salva e sua reputação trocada.
- Por quem?
- Por Deus!
- “Deus”... Disse isso e ficou com olhar longínquo, perdido. Em sua mente fez a imagem de homem caquético, barba enorme que lhe tocava o peito, sentado com roupas brancas num trono digno das histórias médias.
- Sabe detalhes da vida do cara depois de seu arrependimento?
-Ah, ele foi moldado em seu caráter por algum tempo...
- E depois?
- Tudo ficou bem após aprender algumas lições. Seu nome era Jacó, mas como te disse, Deus lhe presenteou com um novo nome e uma nova oportunidade de vida. Disse isso enquanto sorrindo, pegou seus utensílios de trabalho e se afastou.

Sentado, o jovem sem nome e sem lembrança sabia que deveria ter um novo destino. Apenas naquele momento atinou de olhar os documentos ‘novos’ que o ‘médico’, ou sei lá quem, lhe dera no hospital.
Ao fitar seu RG, leu nome diferente, que não parecia conhecer...
- “Israel”... Até que soa bem!

Wendel Bernardes.
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